Amarante: cultura e memória na Casa da Granja

Entrada principal da Casa da Granja (Foto de Paulo A. Teixeira).

Em novembro de 2017, no Dia Mundial da Fotografia, o espaço cultural da Casa da Granja, em São Veríssimo, abriu pela primeira vez as suas portas ao público, sob gestão da Associação para a Criação do Museu Eduardo Teixeira Pinto (ACMETP).

Outrora pertença da família de Amadeo de Souza-Cardoso, a antiga casa senhorial, restaurada pela Câmara de Amarante, tornou-se, ao longo dos últimos seis anos, numa das principais forças dinamizadoras na promoção da cultura e da arte, em Amarante.

Para além da agenda anual de exposições que inclui a realização de uma média de cinco a seis mostras de fotografia, pintura e artes plásticas, a Casa da Granja alberga um espaço museológico dedicado ao trabalho e vida do fotógrafo amarantino Eduardo Teixeira Pinto.

Em meados de 2019, um dos funcionários do Café Bar S. Gonçalo, no centro de Amarante, telefonou a Verónica Teixeira Pinto, dizendo-lhe que ali se encontrava alguém, “um espanhol”, a perguntar por si.

“Na altura não pensei em nada de especial, e como moro por perto, para lá me desloquei”, contou  a AMARANTE MAGAZINE a filha de Eduardo Teixeira Pinto.

Já no café histórico, ficou a saber que o homem, que se apresentou como fotógrafo, pretendia realizar uma exposição na Casa da Granja, em São Veríssimo, um equipamento gerido pela Associação para a Criação do Museu Eduardo Teixeira Pinto, da qual Verónica é a presidente da Direção.

“Ficou combinado que me iria enviar amostras do seu trabalho, o que fez passado poucos dias. Quando abri os ficheiros, fiquei boquiaberta porque só nessa altura me apercebi de que se tratava de Plácido Lopez Rodriguez, um dos mais conceituados fotógrafos espanhóis. A sua exposição, um conjunto de excelentes imagens de viagem pelo Nepal e a Índia, esteve patente na Casa da Granja, no início de 2020”, acrescenta.

Verónica Pinto explica que o episódio é ilustrativo de como a Casa da Granja tem crescido em importância na divulgação da Cultura, no concelho. A maioria dos artistas ali mostram os seus trabalhos são convidados pela direção, mas também há um número significativo que, tal como Plácido Lopez Rodriguez, se propõe a expor. “Aliás, recebemos propostas, praticamente todos os dias”, acrescenta.

Para além do leque de exposições temporárias e outras atividades, aquele espaço cultural alberga a única exposição permanente dedicada ao trabalho e vida do fotógrafo Eduardo Teixeira Pinto que deixou, depois da sua morte, em 2009, um vasto espólio avaliado em mais de 300 mil fotografias.

É também a partir daqui que a Associação para a Criação do Museu Eduardo Teixeira Pinto coordena uma série de exposições itinerantes do trabalho do fotógrafo, bem como da realização do concurso de fotografia “Ilustre Amarantino”.

Verónica Teixeira Pinto é a responsável pela programação da Casa da Granja (Foto: Paulo Teixeira).

“Os museus têm que ser dinâmicos, senão estagnam e perdem a sua atratividade”

Verónica Teixeira Pinto explica que o contrato que celebrou com o município para a gestão da Casa da Granja deixa à sua escolha o que ali pode promover, nomeadamente em termos de programação. “Não queria criar algo estagnado, um mini-museu dedicado a um só tema ou tipo de exposição”, explica, defendendo uma visão pessoal de que os equipamentos culturais, particularmente os museus, têm que ser “dinâmicos e a sua oferta diversificada”.

A par da agenda de exposições temporárias e da instalação permanente, a Casa da Granja tem sido palco para apresentações de livros e pequenos concertos, entre outras atividades, no seu auditório.

Quem assistir a um concerto, por exemplo, acaba sempre por visitar as exposições temporárias e a sala dedicada a Eduardo Teixeira Pinto.  “É quase que como um pacote completo em termos de experiência cultural”, refere.

Ao longo do ano realizam-se, em média, entre cinco a seis exposições temporárias, que ocupam as antigas cavalariças da casa senhorial, parte da cozinha, uma das salas interiores e, se necessário, a capela, em mostras cuidadosamente organizadas e promovidas, maioritariamente através das redes sociais.

“Temos aqui um equipamento polivalente, onde podemos organizar as exposições de acordo com variáveis, como a quantidade de peças ou o seu tamanho. Pode ser só uma sala, por exemplo, peças grandes vão para as cavalariças ou podemos estender a mostra até à capela. Só uma coisa não muda, nunca: a sala dedicada ao meu pai”, sublinha. “Aliás, no caso de que a exposição temporária seja pequena, expandimos a mostra dedicada a Eduardo Teixeira Pinto ao espaço adjacente ou fazemos duas exposições, em simultâneo”.

“A imagem de uma instituição, aquela primeira impressão, é fundamental”

Para levar a cabo a sua missão, a associação conta com poucos apoios externos, refere Verónica Pinto, salientando, porém, o “precioso trabalho” que o designer amarantino Carlos Galo tem feito, na área promocional.

“Neste setor, a imagem que uma instituição projeta, em particular quando anuncia uma nova exposição, é muito importante e um fator que vejo descurado, por vezes, noutras instituições. O trabalho de Carlos Gallo e da sua equipa tem sido muito importante para nósE isso é visível nos cartazes promocionais, nos desdobráveis, nos convites e nas lonas que produz para a Casa da Granja”.

A Casa da Granja mostra, atualmente, uma exposição de fotografia de António Pinto, naugurando, a 6 de abril, uma exposição de Wanderson Alves. Seguirr-se-ão mostra de Luís Carvalho, fotógrafo português e editor do programa da RTP 3 “Fotobox”; o fotógrafo brasileiro Wanderson Alves; o pintor Aparício Farinha; o fotógrafo Júlio de Matos e o pintor Cabral Pinto.

Nota: esta peça foi publicada, originalmente, na edição em papel de AMARANTE MAGAZINE número 38 (Inverno de 2024).

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