Em Baião sonhou-se durante 38 anos com aquilo que, em 2023, acabou, finalmente, por se realizar: o Mosteiro de Santo André de Ancede, que alberga mais de 900 anos de história, foi oficialmente transformado num centro cultural de excelência ao ganhar, pelas mãos de Siza Vieira, uma nova vida.
A recuperação do Mosteiro, uma das grandes marcas do Românico e do património cultural baionense, é hoje uma realidade e, desde que foi inaugurado em abril, são milhares os turistas, vindos um pouco de todos os cantos do mundo que vêm a Baião, propositadamente, para o visitar.
O monumento, que tem o Douro como vizinho, integra um dos percursos mais bonitos da Rota do Românico. A Rota do Românico integrou-o, precisamente, num percurso a que chamou “Vale do Douro” por se encontrar, lado a lado, com outro, também valioso, património edificado um pouco por todo o vale do rio. O Mosteiro de Santo André de Ancede, a quem a Câmara Municipal deu o nome de MACC Baião, em alusão às inúmeras possibilidades que passou a oferecer desde a sua reabilitação, permite, agora, além da sua vertente de enciclopédia de história e arte milenar ao vivo, visitas ao passado, exposições, concertos ou conferências.
Para Paulo Pereira, presidente da Câmara Municipal de Baião, o concelho passou a ter “uma nova dinâmica nas vertentes museográfica, educativa e científica”. Rui Mendes, chefe da Divisão de Cultura e Turismo da autarquia baionense vai mais longe, revelando que há muitos sonhos para o Mosteiro, porque “não faltam ideias. Obviamente que vamos respeitar as características do Mosteiro, a narrativa de um espaço religioso e de culto, mas também vamos descontextualizar um pouco. Vamos ter uma linguagem variada, provocadora, opondo o sagrado ao profano, o culto ao vernacular, sem exageros, mas com pretensões”, diz Mendes. Paulo Pereira garante, ainda que o espaço “quer apostar na vertente pedagógica, de investigação, e ser referência em termos de programação cultural e artística no norte de Portugal”.
Fazer um centro cultural com tamanha dimensão em Baião é, para o presidente da Câmara uma aposta num “Baião moderno, desenvolvido, provocador e ousado, que se orgulha das suas tradições, tomando por base o turismo de natureza com sustentação ambiental e preservação do património material e imaterial” e é, para Rui Mendes, a história a repetir-se até porque, “o Mosteiro de Ancede foi sempre um centro gerador de vida em Baião, não só religiosa, civil, artística. O caminho passa agora por reforçar as potencialidades de um espaço onde é possível experienciar com rigor a arte da Humanidade, a arte da materialidade artística, mas também imaterialidade”.
O icónico mosteiro foi alvo, desde 2001, de cinco fases de intervenção destinadas a conservar, restaurar e reabilitar o espaço nas diversas valências, dotando-o, atualmente, de um claustro com capacidade para 300 pessoas, a que se junta um auditório com 80 lugares e espaçosexpositivos para além da área exterior.
No piso térreo, Siza quis respeitar a ruína e manter a história, não usando cimento, apenas consolidando. Por lá, podemos ver uma exposição a céu aberto de Cristina Rodrigues, artista portuense com ligações afetivas a Baião, janelas românicas, o Claustro ou um refeitório com talhas em cerâmica. No primeiro piso, todo recuperado, encontramos espaços expositivos e culturais. Um dos espaços alberga agora uma exposição permanente sobre a evolução de Baião, desde a pré-história, e uma coleção de Arte Sacra. Nos outros, já lá morou uma mostra de Manuel Cargaleiro com mais de 60 peças, desde pintura, azulejaria, cerâmica, e a exposição “Grandes Mestres”, com obras de Picasso, Dalí, Paula Rego, Andy Warhol, algumas nunca haviam sido expostas, quase todas de coleções privadas. “O espaço está preparado para ser mais do que lugar museológico, oferecendo um sem número de possibilidades”, garante Rui Mendes.
Treze hectares de quinta a rodear o Mosteiro
Diz a história que, por volta de 1141, a produção vinícola e agrícola do Mosteiro, dada a fertilidade dos terrenos que lhe eram pertença, lhe conferiu grande poder económico. De Ancede partiam milhares de litros de vinho para a Flandres, na altura o principal porto mercantil do mundo. Os monges souberam tirar partido da sua posição estratégica junto ao Douro, da exploração dos recursos naturais, do manejamento de técnicas para criar um importante entreposto comercial e na administração das rendas que advinham das inúmeras propriedades.
Consciente dessa história, desde 2010 que a quinta que rodeia o Mosteiro produz vinho, legumes e fruta, por vontade e empenho da Câmara de Baião. A quinta dá origem, todos os anos, a 8.500 garrafas de “Lagar do Convento”, um vinho da casta Avesso, autóctone de Baião, assim como hortícolas e frutos que se vendem na Casa de Baião no Porto a preços de mercado, mas que também abastecem a cantina da Autarquia ou são entregues a Instituições Particulares de Solidariedade Social que ajudam famílias carenciadas com cabazes sociais.
A produção é toda biológica, ou não fosse Baião o primeiro município português a ser certificado como destino turístico sustentável. O próprio fertilizante usado na terra vem do Centro Hípico, também propriedade da autarquia, e a ideia é que no futuro se evolua para a agricultura regenerativa.
Saber mais:
> O Mosteiro de Santo André de Ancede está na posse da Câmara Municipal de Baião desde 1985, quando foi comprado à família do barão de Ancede, que o tinha adquirido em hasta pública em 1834, na sequência da extinção das ordens religiosas em Portugal. Entre a aquisição do complexo pelo barão e a compra da Câmara, o espaço teve várias usos: foi uma quinta, uma escola, um armazém e até uma serração.
> No séc. XX, o destino do Mosteiro chegou a ter várias opções. Dado o seu estado de conservação cada vez mais deteriorado, ao longo dos últimos anos houve quem defendesse entregá-lo à iniciativa privada – para dar origem a um hotel, por exemplo-, e quem não suportasse a ideia de o “perder” dessa forma. Era o caso, entre outras entidades e personalidades, da Câmara Municipal de Baião que, sem nenhuma dúvida, em 2005, com um executivo autárquico novo acabado de chegar, tomou a decisão de estudar e recuperar o Mosteiro.
Visitar o Mosteiro
Rua de Santo André – Ancede, Baião, Portugal
968 476 164
mosteiro.ancede@cm-baiao.pt
- Susana Ferrador é doutoranda em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais (ICPD) nas Universidades do Porto e Aveiro.



Importa acrescentar que em fase anterior à reabilitação do mosteiro foi realizado um extenso conjunto de trabalhos arqueológicos (escavação arqueológica, arqueologia da arquitetura, trabalhos de antropologia física…) que permitiram identificar as diferentes fases de ocupação, construção, reconstrução e remodelação do edifício. Este é um momento com centenas de anos e com uma história incrível… Apenas olhando para as suas atuais paredes sem reboco conseguem-se “ler” as estas diferentes “camadas”. Este espaço merecia ser musealizado fazendo justiça às descobertas que aqui se fizeram. Falta fazer uma exposição que mostre estes complexos resultados, que conte a história do sítio, que dê a conhecer o espólio mais importante e que torne acessível ao público os resultados deste investimento feito pela autarquia. Tive oportunidade de colaborar neste trabalho, particularmente no estudo de arqueologia da arquitetura e gostaria de ver a história do local mais valorizada. Visitei o lugar há pouco e fiquei surpreendida por não se estar a valorizar mais o monumento do ponto de vista do seu património arqueológico e histórico. Quero acreditar que esse trabalho não ficará esquecido…