A aldeia histórica de Rua aqui tão perto

O lugar de Rua, em Aboadela, parece ser, ainda hoje, um segredo escondido e muito pouco valorizado na oferta turística do Município de Amarante. No entanto, aquela aldeia histórica reúne imensos atributos (arquitetónicos, históricos e ambientais) e pode muito bem vir a afirmar-se, num futuro próximo, como porta de entrada para quem visita o Marão, o Alto Douro Vinhateiro ou Trás-os-Montes, sendo um dos vértices fundamentais de um triângulo que inclui Sanche e Várzea.

Distando cerca de 10 quilómetros da cidade de Amarante, nas faldas do Marão, a aldeia de Rua, em Aboadela, está repleta de História, que transparece a todos os que a visitam. As suas origens estarão intimamente relacionadas com a via romana que, proveniente de Tongóbriga (Freixo – Marco de Canaveses), se dirigia para Panoias (Vila Real) e que em Rua fazia a transposição do rio Ovelha em direcção à Serra do Marão. 

Tal circunstância, à qual se juntam os férteis solos da extensa várzea do Ovelha, terão impulsionado o povoamento daquele local, ponto obrigatório para a transposição do Marão em direcção ao Alto Douro, podendo ter ali existido um casalibus (casal romano), um vicus (aldeia) ou mesmo uma villa (grande propriedade agrícola com o respectivo espaço habitacional).

Ao longo da Idade Média a povoação foi ganhando notoriedade e importância e Ovelha do Marão, como então se designava, adquiriu o estatuto de Beetria, tendo, inclusive, recebido carta de foral, em 1196, por D. Sancho I, posteriormente substituído por outra, de D. Afonso II, no ano de 1212, e, em 1514, uma nova de D. Manuel I.

Em 1550, D. João III extingue esta forma de administração local e Ovelha do Marão converte-se numa Honra, que esteve sob a administração directa da Coroa até ao ano de 1756, tendo sido doada, a 18 de Junho daquele ano, a D. Luís António de Sousa Botelho Mourão, IV morgado de Mateus (1722–1798), que, depois da sua morte, foi transmitida ao filho, D. José Maria do Carmo de Sousa Botelho Mourão e Vasconcelos, V morgado de Mateus (1758–1825).

É precisamente após a extinção desta forma de administração medieval que se constrói, em Aboadela, junto à ponte de Fundo de Rua, o pelourinho e a casa da câmara com a respectiva cadeia. 

Na centúria seguinte, em 1630, a velha ponte, de fundação romana, é alvo de um profundo restauro, cuja intervenção viria a ser materializada no cruzeiro com a inscrição “1630” que ainda hoje se pode ver junto às guardas, na margem Este do rio Ovelha. Esta intervenção não anulou as vincadas características medievais da ponte como, por exemplo, o tabuleiro em cavalete.   

Para além deste património de maior envergadura, de carácter público-administrativo e judicial, o lugar de Rua apresenta ainda hoje bastantes características da Época Moderna, bem evidentes no conjunto habitacional, do qual merece destaque o interessante arco brasonado da Casa de Mateus, actualmente muito deturpada e alterada. 

Peculiar e de grande pragmatismo, foi o motivo que desencadeou a construção da capela de Nossa Senhora da Conceição, actualmente transformada num armazém agrícola. 

Uma vez que, durante o Inverno, a população de Rua teria de subir ao alto do Monte de Santa Maria, onde se localiza a igreja paroquial, para assistir aos ofícios litúrgicos, muitas vezes inacessível devido aos rigores climatéricos, Baltazar Gonçalves, morador na aldeia, decide edificar, no meio da povoação, uma capela para nela se realizarem as celebrações religiosas durante aquele período. 

Para além da capela de Nossa Senhora da Conceição, existe outro local de culto, a capela de S. Sebastião, na parte mais alta, à entrada da povoação, cuja devoção está intimamente relacionada com a protecção da povoação da peste, da fome e da guerra.    

A 2 de Maio de 1809, a população de Rua viria a sofrer da onda de destruição e de morte, provocada pela passagem da coluna do exército napoleónico, após a tomada da ponte d’ Amarante. Porém, no dia 11 de Maio, as mesmas forças passam novamente pela povoação de Ovelha do Marão, mas em manobras de retirada, tendo sofrido inúmeras baixas provocadas pelas forças do brigadeiro Silveira (posteriormente promovido a general) e pelos muitos milicianos que a ele se associaram e o ajudaram na reconquista da, então, Villa d’ Amarante.

Actualmente, Rua apresenta um núcleo urbano recuperado e razoavelmente bem conservado, com bons exemplares da arquitectura tradicional da região, onde coexistem algumas características minhotas e transmontanas. Neste conjunto, podem ainda ver-se espigueiros e moinhos de água.   

Monumentos:

– Capela de S. Sebastião: 

Localizada no lugar de Rua, a Capela de S. Sebastião, de uma só nave e de planta circular, em Estilo-Chão, terá sido edificada no séc. XVI, muito provavelmente por influência e incentivo à devoção do rei D. Sebastião. No seu interior, pode ver-se um retábulo do séc. XVIII que alberga a imagem do mártir S. Sebastião.   

– Capela de Nossa Senhora da Conceição: 

Sensivelmente a meio da Rua de Ovelha e Honra do Marão encontra-se a Capela de Nossa Senhora da Conceição, construída por Baltazar Gonçalves e sua mulher, Ana André, no ano de 1639. A capela, de planta rectangular e de uma só nave, destaca-se pela grande uniformidade volumétrica e planimétrica. Nota-se ainda que houve, para a sua construção, um exímio cuidado no talhe dos blocos graníticos. Neste interessante edifício em Estilo-Chão, merecem destaque a cornija e o arco alteado do portal de entrada. Actualmente, a capela encontra-se desafecta ao culto e está convertida num  armazém agrícola.    

Ponte de Fundo de Rua: 

Construída sobre o rio Ovelha, no Lugar de Rua, a ponte de quatro arcos desiguais, onde assenta um tabuleiro plano, ao centro, e rampeado nas vertentes laterais, é uma construção Românica, restaurada em 1630. A comprovar a cronologia Medieval desta ponte, estão as marcas de canteiro existentes nas aduelas. Os três arcos centrais da ponte, assentes sobre o rio, são reforçados com talha-mares agudos, interrompidos. A montante e a jusante podem ver-se talhantes de planta rectangular. A actual ponte poderá ser uma reconstrução ou reedificação de uma anterior, a remeter para a Época Romana. 

Cruzeiro da Ponte de Fundo de Rua

O Cruzeiro da Ponte de Fundo de Rua fica adossado ao seu parapeito. Construído em 1630, é constituído por um plinto quadrangular epigrafado na parte frontal (1630/ RMO) e com moldura superior em quarto de círculo invertido, onde se encontra um encaixe para o fuste cilíndrico que, por sua vez, suporta um capitel esférico achatado, encimado por cruz latina de secção circular.  Por se estar numa via de muita passagem para o Alto Douro e Trás-os-Montes, o cruzeiro terá sido construído como símbolo de protecção aos viajantes e à própria estrutura. 

Pelourinho de Honra de Ovelha

Construído, muito provavelmente no séc. XVI, aquando da concessão do Foral Novo de 1514, por D. Manuel I, o pelourinho de Honra de Ovelha é constituído por um soco quadrangular de cinco degraus simples, sobre os quais assenta um soco de planta quadrada e de base circular, onde encaixa um fuste cilíndrico com esfera. A coroar o pelourinho pode ver-se um remate em pinha piramidal sob um capitel de secção quadrangular com dois filetes e um plinto. O pelourinho, para além de ser um símbolo de poder municipal e judicial, era um local de condenação.  

Porta de entrada para o Marão

A localização estratégica e as evidentes potencialidade de Aboadela (sobretudo através da Aldeia Histórica de Rua) e, de algum modo, de Sanche e Várzea, agora juntas numa União de Freguesias, levam Henrique Monteiro, Presidente da autarquia, a querer desenhar uma estratégia que passe por fazer do território que gere a porta de entrada no Marão para quem, vindo do Grande Porto, procura Natureza, desportos de montanha (BTT, escalada, trail…), qualidade ambiental ou, mesmo, neve no inverno.

Em Rua, de resto, existe, desde há alguns anos, o Centro Interpretativo do Marão, que proporciona também estadia a visitantes e que, se bem potenciado, poderá funcionar como uma verdadeira “receção” para os turistas. Conjugar história, ruralidade, rio e serra num único pacote turístico pode também ser caminho para o desenvolvimento local e para o crescimento da economia do território. É neste contexto, aliás, que em Rua se realiza, anualmente, a Feira do Mel; em Sanche, o Festival do Verde e em Várzea se começou, há um ano, a organizar a Festa do Rojão.

Recorde-se, ainda, que, no caso de Aboadela, a freguesia se estende serra do Marão acima, por uma área de 2.000 hectares de terreno baldio, com cursos de água e espécies arbóreas e vegetação únicas. É no baldio de Aboadela que se situa Covêlo do Monte uma das mais míticas aldeias do Marão, mesmo ao lado das antigas minas de Pedrado (Fonte da Figueira), conhecida por, em tempos idos, ter tido uma marcante arquitetura em xisto e onde hoje se cria o gado maronês, alimentado em pastos naturais, e cuja carne se quer certificar.

Covêlo do Monte é, aliás, na serra do Marão, juntamente, com Canadelo, Murgido, Póvoa (em Amarante) e Mafómedes (em Baião), uma “aldeia com futuro”, assim classificada pelo “Estudo Estratégico de Valorização de Aldeias”, promovido pela DOLMEN, em 2015. Naquele documento, pode ler-se que “Covêlo do Monte apresenta características muito próprias, designadamente de paisagem e dinâmica rural e económica, que a distingue de todas as outras e lhe conferem especial interesse”.

“As características que justificam esta informação, acrescenta-se, estão sobretudo associadas a uma forte aposta na criação de gado bovino, ovino e caprino” e na exploração de alguns recursos intrínsecos ao baldio, como a resina. Em conclusão, refere-se que “Covêlo do Monte é uma aldeia com especiais particularidades e um elevado potencial, associado, sobretudo, à exploração de diferentes atividades no setor primário, mas também no Turismo”.

   

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