Breve incursão às Minas de Vieiros, 101 anos depois

Galeria da mina à quota 100 (Foto AM).

Por via das minas, Vieiros, lugar da freguesia de Rebordelo, em Amarante, já fervilhou de gente. Em meados do século XX, nos tempos de maior atividade mineira, contavam-se ali para cima de 400 almas. Hoje não são mais de trinta!

O primeiro campo de golfe existente no concelho de Amarante foi construído em plena Serra da Meia Via, em Vieiros, freguesia de Rebordelo, provavelmente no ano de 1926, e esteve associado à exploração das Minas de Vieiros pela SMIT – Societé Minière et industrtrielle du Tâmega, SA, empresa a quem, “em 1917, 1921, 1922 e 1928 foi concessionada a exploração do jazigo pegmatítico de Vieiros”[1].

O campo de golfe, (de mini-golfe, diga-se, na verdade), terá existido no local onde, mais tarde, no final da década de 1950, veio a ser construído o campo de futebol do Grupo Recreativo Minas de Vieiros, no âmbito de uma política fomentada pelo Estado Novo, que promovia a criação de Centros de Recreio Popular, mais tarde designados de Centros de Alegria no Trabalho, enquadrados pela FNAT (Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho) que, a seguir ao 25 de abril de 1974, daria origem ao INATEL.

Curiosamente, o campo de futebol de Vieiros seria, também, o primeiro de Amarante a ser construído fora do perímetro da vila!

Regressando ao golfe de Vieiros, segundo testemunhos orais[2] obtidos, ele seria utilizado pelos diretores e engenheiros da SMIT, ao final da tarde, quando as suas esposas saiam de casa para tomar chá no chalet existente defronte para o percurso de, não mais, meia dúzia de buracos.

A existência de um campo de (mini) golfe em Vieiros, simboliza a prosperidade associada à exploração mineira, que, no caso deste lugar de Rebordelo, terminou definitivamente em 1972.

A exploração Mineira no Marão
Voltaremos a Vieiros e às suas minas, que são, afinal, a razão desta peça, mas, antes, convirá referir, em modo de contexto, a importância da exploração mineira na serra do Marão, de que a Meia Via é um prolongamento natural.

Essa exploração remontará ao período romano, quando o que se procurava nas entranhas da serra seria o ouro, “existente, pontualmente, nos sulfuretos, por vezes apenas em quantidades vestigiais”[3].

O que aponta para essa atividade pelos romanos em algumas minas do Marão é o facto de “duas vias romanas atravessarem a serra em zonas de existência de minério”, como escreveu Arménio Miranda[4]: uma a norte, que seguia pelo lugar de Rua e subia em direção ao Alto de Espinho, passando junto às minas do Pedrado (Aboadela); e outra, a sul, que, com traçado junto à Corvachã (Candemil), seguia em direção a Murgido, com o seu trajeto a incluir a proximidade das minas de Teixo, também conhecidas como do Penedo Ruivo. 

A existência de provas materiais de povoamento romano na zona de Corvachã, como é o caso da descoberta de três vasos cerâmicos com moedas datadas do séc. I ao IV, reforça a ideia da provável exploração mineira por aquele povo[5], de acordo com Arménio Miranda.

Do que aquele autor não tem dúvidas, é da existência de ouro na serra, que, “até meados do século XX, era procurado de aluvião nos rios Marão e Ramalhoso”[6] .

O auge da exploração mineira da serra do Marão aconteceu no final dos anos 30 e nos de 40 e 50 do século XX, por razões associadas ao fabrico de armamento para a II Guerra Mundial, mas, tal como as de Vieiros, também as minas integradas no Couto Mineiro do Marão, donde se extraía estanho e volfrâmio, haviam tido já atividade anterior. Com um estudo de viabilidade económica datado de 1865, a sua exploração foi concedida por alvará de 1922[7].

As três concessões das Minas de Vieiros

Regressemos a Vieiros. Ali as minas tiveram três concessões diferentes. A primeira foi atribuída à belga SMIT, que lá terá laborado de 1922 até início dos anos de 1930; a segunda, à empresa “Melo Castro & Jerónimo da Fonseca”, com atividade entre 1938 e 1956 e, a partir daquele ano até ao seu encerramento (1972), à “Nortenha”, uma empresa do Porto liderada por Fernando Almeida Correia, por curiosidade avô do atual ministro das Finanças, Fernando Medina.

Joaquim da Costa, encarregado das obras de construção civil das minas, falecido em 2017, com 90 anos, escreveu, em 2002 a (sua) História das Minas de Vieiros, as quais, nos seus primórdios, antes ainda da concessão à SMIT, terão tido como “proprietário”, segundo testemunho oral que diz ter recolhido, um homem de nome Estevão Bonito, que tivera “uma mesa manual junto do filão da Ramificação, do qual extraía a terra à superfície, que era lavada no local onde passa a atual estrada da mina”.

De acordo com Joaquim Costa, “os belgas compraram em Vieiros uma propriedade à senhora Elizarda Ribeiro, na qual, para além das instalações industriais, construíram um conjunto de casas para instalarem o pessoal encarregado; e outras com dormitórios para o pessoal que trabalhava na lavra, muito do qual se deslocava de terras longínquas e que só ia a casa para se encontrar com as famílias quando recebia”.

Costa dá uma ideia do trabalho gigantesco a que a SMIT teve que meter mãos para poder iniciar a exploração da mina, referindo que a empresa foi procurar água ao rio Olo, em cujo leito instalou uma bomba “que elevava a água até um depósito que tinha no canto da propriedade; daí, outra bomba conduzia a água a novo depósito que se encontrava a 200 metros da lavaria e, de lá, mais uma bomba elevava-a até ao destino final”. E acrescenta: “também construíram dois depósitos de grande capacidade no ribeiro de Porto Pereira, sendo a água aí captada transportada por uma conduta de grês”.

Sobre a forma como a terra com o minério chegava à lavaria, ida dos filões Grande, Ramificação, Ricotti, Luísa e Fontão, escreveu Joaquim Costa que “era em vagonas, quer puxadas por pessoal, quer por tração animal (bois e cavalos): o filão Ricotti era transportado em vagonas puxadas por uma locomotiva”.

Forçada a montar de raiz toda a logística, a SMIT fez grandes investimentos que não conseguiria rentabilizar. Para fazer chegar a Vieiros os materiais de que necessitou para construir as instalações industriais e habitacionais, a empresa recorreu, inicialmente, “a zorras, que eram puxadas por várias juntas de bois”. Mais tarde, decidiu-se pela “abertura de uma estrada, desde a Casa da Guarda de Fridão até à lavaria”.

Porém, quando a estrada chegou a Vieiros, depois dos vultosos investimentos realizados, a SMIT não aguentou e abriu falência, pelo que, conta Joaquim Costa, “o povo dizia: estrada à porta, mina morta”.

O cheiro a guerra

A SMIT viria a suspender a laboração em 1929 e, durante alguns anos, as minas estiveram sem atividade. Porém, as notícias que, a partir de 1935/36, iam chegando da Europa e em concreto da Alemanha, traziam cheiro a guerra e muita necessidade de volfrâmio para usar na fabricação de armamento.

Joaquim Costa escreveu que “começou, então, de novo, a febre dos minérios, com muitos apanhistas (os “pilhas”) no rio Olo que, aos poucos, foram chegando aos filões da mina”. E é aqui que entra em cena a empresa “Melo Castro & Jerónimo da Fonseca”, com sede na avenida General Silveira, em Amarante, que, a partir de 1939, toma conta da concessão.

Na sua “História das Minas de Vieiros”, Joaquim Costa refere que, ao senhor Aníbal Cerqueira de Melo e Castro, com bons contactos com antigos administradores da SMIT e conhecedor dos cantos da casa (leia-se minas), “lhe foi fácil arrendar as concessões e explorar a mina durante um período difícil, que se tornou fácil porque havia muita oferta de mão de obra e os salários eram muito pequenos”.

Além disso, os apanhistas, trabalhando por conta própria, “eram obrigados a vender o minério na concessão por um preço de trinta escudos o quilo, para o concessionário o vender por setenta ou oitenta escudos a mais, sobretudo quando havia um barco à espera de completar carga”.

Alguns anos depois de terminada a II Guerra Mundial, e com a consequente diminuição da procura pelo volfrâmio, em Vieiros explorava-se sobretudo estanho, em duas galerias, conhecidas na gíria mineira como “mina da cota 100” e “mina da cota 105”, construías nas entranhas da serra e com um comprimento próximo de um quilómetro cada.

Em 1956, a gestão dos trabalhos nas minas passa para a responsabilidade da empresa “Nortenha”, que há de explorar ininterruptamente os filões existentes até junho de 1972, data em que “suspende a lavra, depois de pagar a todo o pessoal até ao último escudo e a todos os fornecedores, não havendo uma única reclamação, graças à boa coordenação e caráter do seu administrador, o Ex. mo Sr. Engenheiro Fernando de Almeida Correia”, escreveu Joaquim Costa.

A gestão da Nortenha terá marcado, de facto, os mineiros e suas famílias, devendo-se à empresa a criação de um posto médico e de enfermagem (que teve como clínico Augusto Barros), um refeitório e um salão de convívio que se abria a todos os habitantes de Vieiros, com televisão e um gira-discos que animava bailes aos fins de semana e onde se realizavam festas da comunidade e “bodas”, como casamentos ou batizados. A administração da Nortenha terá promovido, também, a criação de um grupo desportivo, com campo de futebol dotado de balneários.

Quanto aos imóveis, e à Casa da Direção, em concreto, “todo o recheio ali continuou, ficando o guarda com a chave para dela tratar e abrir as portas sempre alguém viesse. O tempo foi passando com normalidade até ao dia 15 de setembro de 1989, quando o incêndio que deflagrou na serra da Meia Via tudo devorou. Além das árvores, a Casa da Direção, a Casa de Ricotti e oficina de carpintaria ficaram em cinzas, restando apenas os esqueletos que hoje são visíveis, as máquinas calcinadas, quer as que estavam assentes para fazer trabalhos de carpintaria, quer ainda as que se encontravam armazenadas nos fundos da Casa da Direção, à espera de serem utilizadas”, escreveu Joaquim Costa.

Ao incêndio, seguiu-se um período de saque, de roubo, pilhagem e vandalismo, que destruíram o interior da mina de Porto Pereira, de onde foi retirado tudo o que poderia ser vendido, com destaque para o cobre.

Tendo queimado tudo à sua passagem, o incêndio haveria também de pôr a descoberto, em terreno baldio em redor de Vieiros, para cima de uma dezena de perfurações verticais no solo, “algumas com mais de 100 metros de profundidade”, segundo compartes conhecedores da sua localização. Estas perfurações, das quais não há qualquer aviso, nunca foram sinalizadas e são um perigo evidente para caçadores, populares e caminheiros incautos.

Da euforia à depressão

A atividade mineira terá feito aumentar exponencialmente a população da serra[8], até porque muitos trabalhadores se faziam acompanhar de familiares diretos que passavam a habitar os bairros mineiros, como também havia muitos outros, pendulares, que, de locais algo distantes, se deslocavam, todos os dias, para o trabalho nas minas, em muitos casos feito por turnos.

Os homens da lavra nas Minas de Vieiros seriam, maioritariamente, originários das freguesias de Rebordelo, Canadelo, Fridão e Olo. Com os trabalhos a decorrerem, ali, em sete grandes filões, a exploração envolvia, em permanência, uma centena de mineiros no interior das galerias, a que havia que acrescentar os “pilhas” e os “tarefeiros”, muitas vezes pequenos lavradores que, com as suas juntas de bois, ajudavam à retirada de inertes e detritos.

Com o seu fecho, o caminho foi a emigração, sobretudo para França, mas muitos houve que conseguiram emprego na Tabopan (Abreu e Cª), então no auge; outros, em menor número, foram absorvidos pelos serviços florestais.

Nos seus tempos áureos, em Vieiros terão morado para cima de quatrocentas pessoas, associadas aos trabalhos das minas, e o lugar tinha uma economia florescente. Havia mercearia que também era talho, restaurante e taberna, e o negócio prosperava. A escola estava cheia de crianças que, em 1999, em reportagem que ali efetuámos, eram apenas três, nenhuma com seis anos. No ano seguinte, o estabelecimento fechou.

Hoje, vivem na aldeia 30 pessoas. Destas, a maioria são descendentes de antigos trabalhadores das minas, que se recusaram a partir e que conseguiram ficar com a propriedade das casas que habitavam no bairro mineiro, comprando-as na massa falida da Nortenha. 

Negócios de oportunidade para segundas habitações fizeram também pessoas de fora ou vieirenses emigrados. No primeiro caso, o que se procura é o sossego e a tranquilidade da serra (que a pandemia potenciou) e, no segundo, o regresso às origens, ainda que por algumas semanas, havendo vários pequenos edifícios em fases de reconstrução ou restauro.

Tomados pela saudade e revivalismo, alguns vieirenses meteram mãos, em 2016, à realização de um encontro na aldeia, a pretexto da celebração do Sagrado Coração de Maria, com nicho logo à entrada, mandado construir por Avelino Ferreira Torres, em 2004, na campanha para as eleições autárquicas. 

A festa realizou-se no “domingo antes de 17 de setembro”, juntou mais de 150 pessoas, recorda Vítor Costa, um dos seus dinamizadores, e a data ficou instituída, tendo-se a celebração mantido mais dois anos, até 2019, e sido suspensa com a chegada da pandemia.

Um dos entusiastas dos encontros em Vieiros era Francisco Gonçalves, vieirense que, em Lisboa, é dono da “Tasca do Xico”[9], e que, nos três anos em que a festa se realizou, de lá trouxe a animação, maioritariamente construída com fado.

Independentemente das condições de trabalho ou dos baixos salários, a exploração mineira no Marão e na Meia Via correspondeu a um período de prosperidade em Amarante, quando, diz a voz popular, “nos restaurantes da vila havia gente que acompanhava as refeições com pão de ló”!

Referências
[1] In “A Rota do Estanho no Vale do Tâmega”. Org. Alexandre Lima e Romeu Vieira
[2] A história das Minas de Vieiros é, em grande parte, feita de testemunhos orais. Em 1989, um incêndio florestal de grandes dimensões destruiria, no seu percurso, a “Casa da Direção”, também conhecida por “Casa dos Engenheiros”, edifício que funcionava como casa forte para a guarda de dinheiro e que também teria no seu interior inúmeros documentos.
[3] MARTINS Carla Maria Braz – A mina do Teixo, Serra do Marão. Ata do II Congresso Histórico de Amarante, PATRIMÓNIO ARTE E ARQUEOLOGIA, ed. Câmara Municipal de Amarante, 2009, p. 126
[4] MIRANDA, Joaquim Arménio – Marão, a Minha Serra, Ansiães e o seu Baldio ao longo do tempo. Ed. do autor, 2016 – p. 109
5] MIRANDA, Joaquim Arménio, Idem.
[6] Explorado, provavelmente, de forma inorgânica, em regime de pilha, envolvendo populares aventureiros: os “pilhas”
[7] MRANDA, Joaquim Arménio – Idem, p. 110
[8] PEDROSA Fantina Tendim escreveu que, em 1950, viviam em todas a serra do Marão 114 739 habitantes, contra os 76 775 em 1864, o que poderá ter a ver quer com a exploração mineira, quer com a florestação, onde trabalharam muitos assalariados.
[9] Entre muitos outros nomes grandes do fado, a “Tasca do Xico” foi palco, durante vários anos, para Ana Moura (V. AMARANTE MAGAZINE, edição 33 – outono/inverno 2017).

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