Das guigas e outras embarcações do Tâmega que a História quase esqueceu

Barcos houve muitos no Tâmega, mas só a guiga conseguiu capturar os corações de gerações de entusiastas que a utilizaram para atividades lúdicas e turismo. Única de nome e de desenho, a guiga encerra em si uma história dos ofícios e da transmissão oral do saber, ao longo de séculos. Imortalizada pela lente de Eduardo Teixeira Pinto e, mais tarde, por legiões de turistas de câmara em punho, a guiga acena-nos, sobretudo, com uma história ainda por escrever da importância que os barcos e barcas tiveram, ao longo dos tempos, nas zonas ribeirinhas de Amarante.

 

Apesar de ser considerada um dos ex-libris da cidade e objeto obrigatório nas coleções de postais da cidade, pouco ou nada mesmo se sabe sobre as origens da guiga ou como esta embarcação de lazer apareceu nas margens do rio Tâmega. Certo é que os detalhes da sua construção se transmitiram oralmente ao longo de várias gerações de, sobretudo, carpinteiros e na sua última iteração, serralheiros.

Aliás, este tipo de embarcação usada na pesca e passeios ao longo do rio é o único que sobreviveu até aos nossos dias da pequena frota de barcos e barcas que, durante séculos, garantiam passagem de pessoas e bens entre as margens do Tâmega.

“Acredito que é única e exclusiva a este rio e, mais precisamente, a Amarante” – explica António Patrício, atual descendente de construtores de guigas – “pois é um barco elegante, diferente de todos os outros”.

O que distingue uma guiga das outras embarcações, afinal?

Comecemos pelo fato de que a popa é proa e a proa é popa. Sendo iguais, o remador pode decidir na direção em que se desloca, para trás (a melhor opção) ou para a frente.

Por seu lado, os remos trabalham a partir de um ponto ligeiramente distanciado da meia-nau e do assento do remador. A combinação destes pormenores confere à guiga um dos seus aspetos mais venerados, assim por dizer, por quem a melhor conhece:  ao deslocar-se, a proa ergue-se ligeiramente, a popa afunda-se e a embarcação, qual animal empinado, “desliza como uma folha” na água.

“Rema-se com facilidade, mas precisa de um remador experiente, que conheça o rio, para se poder orientar e manter o curso”, acrescenta António Patrício. Isto porque não tendo uma popa “cortada e reta” como a maioria dos barcos de rio, a guiga tem a tendência de se desviar da sua rota facilmente.

Há mais pormenores que a distinguem das restantes embarcações, contudo. Tanto proa e popa (construídas de carvalho, o restante em pinho) são fechadas por uma cobertura em arco que, aliás, se irá transformar numa importante medida de segurança em versões mais modernas.

Em termos de medidas, o desenho geralmente cumpre as regras que se estabeleceram, não se sabe por quem nem quando: não mais de cinco assentos, entre os quatro e os cinco metros de comprimento, um de largura e quarenta centímetros de altura.

Mas os detalhes não se esgotam aqui: na pintura, a tradição manda que se alterne entre o branco, comum a quase todas, e uma cor contrastante à escolha do construtor. E com a adição de um importante detalhe estético: uma pequena faixa horizontal preta, ao longo da linha de água, para dissimular a sujidade que se vai acumulando naquela zona.

“E há outro pormenor interessante: tanto quanto sei, há poucos barcos de rio que tenham uma designação própria. Guiga de nome, só mesmo em Amarante”, acrescenta António Patrício.

Apesar de todas as suas vantagens, a guiga de madeira era uma “dor de cabeça” no departamento da manutenção. Pesada, raramente se retirava da água pois uma vez seca, era preciso repetir todo o trabalho de calafetação e isolamento antes de a devolver ao rio. E a pintura tinha que ser renovada cada dois anos, altura em que se procedia à reparação de eventuais danos na estrutura. Isto para não falar das questões de licenciamento, que requeria o pedido e emissão de dois documentos.

“Não obstante, havia um verdadeiro sentimento de orgulho, mesmo de vaidade, por parte de quem as construía, tanto por ter o dom do saber fazer como dos anos e anos que duravam no rio”, acrescenta o nosso interlocutor.

Tarde de Verão – Eduardo Teixeira Pinto
Cortesia da Associação para a Criação
do Museu Eduardo Teixeira Pinto

Guiga, versão 2.0

Tal como outros ofícios locais, a arte de construir guigas de madeira começou a perder terreno a novos métodos de construção, por altura dos finais dos anos setenta do século passado. De que haja memória, os irmãos Patrício (Sílvio e Fernando) e António “Pisco” Ribeiro foram os últimos artesãos a trabalhar com este material.

Após regressar de França, onde esteve emigrado, o serralheiro Joaquim Aguiar decidiu tentar reproduzir a guiga numa versão em chapa de ferro. O desenho não lhe era estranho, pois cresceu praticamente em frente à carpintaria da família Patrício, em São Pedro.

“Fui ao rio tirar as medidas a uma e quando comecei a cortar o fundo, pensei que me tinha enganado. Pareceu-me tão pequeno que decidi adicionar mais uns centímetros. Ora, quando a comecei a montar, por causa aquelas proas elevadas, a guiga cresceu e acabou por ser 20 centímetros maior que o normal”, relembra.

O ligeiro contratempo não o impediu, contudo, de introduzir uma série de melhorias no desenho: popa, proa, tubagem do cavername e até os assentos traseiros foram selados, originando caixas de ar estanques que evitam o afundamento da embarcação, caso se encha de água.

Mas o maior ganho traduziu-se no peso: no mínimo, assegura o seu construtor, 1/5 ou menos do das embarcações de madeira. Para além de ser mais fácil de remar, a nova guiga podia ser retirada do rio em altura de cheias e devolvida à água sem a necessidade de grande manutenção.

Estas vantagens não passaram despercebidas e não tardou muito que a guiga de chapa metálica se tornasse no barco predominante no rio. Aliás, graças ao novo método de construção, acabou por sair do Tâmega rumo a Mirandela, Braga e Vizela, entre outros, através de aquisições por parte de autarquias e privados.

Guigas em Amarante
Paulo Alexandre Teixeira © 2018

E depois, a gaivota

Apesar de todas as vantagens dos novos materiais, as guigas continuaram a apresentar desafios, sobretudo a quem as usava ocasionalmente, como era o caso dos alugueres de verão. Aliás, o aluguer de guigas para fins turísticos já se fazia há várias décadas, muitas vezes com os proprietários a servirem de remadores.

Barco imprevisível em termos de orientação, ainda apresentava algum esforço ao iniciante e muitas foram as que acabaram abandonadas, longe do seu local de aluguer, rio abaixo. Eis então que surgiu, pela mão de Joaquim Aguiar, a gaivota amarantina.

Inspirado numa jangada metálica que vira ser construída em França, idealizou a sua própria versão: dois tubos estanques que suportam um estrado com quatro assentos e um sistema de propulsão a pedais. Um guarda-sol colorido protege os utilizadores e dá um retoque estético que não passa despercebido a quem as vê das margens.

Tal foi o sucesso do desenho que, por alturas dos anos 90, havia mais de 50 gaivotas no rio e vários operadores a competir pelo negócio de aluguer. Heresia, disseram alguns, mas a realidade é que a gaivota era, e continua a ser, o barco preferido dos turistas.

“É o que pedem sempre: gaivota, gaivota, gaivota. Na altura criticaram-me e até compreendo que quem seja de Amarante prefira a guiga, mas acredito que a nossa gaivota, também um desenho único, fica muito bem no rio. É outro espetáculo”, conclui.

Uma gaivota no Tâmega
Paulo Alexandre Teixeira © 2018

Os outros barcos e os seus barqueiros, esquecidos pela História

Mas se guiga e gaivota ganharam um lugar na história da cidade, o mesmo não se pode dizer das restantes embarcações que, durante séculos, foram utilizadas para diversos fins comerciais, ao longo do Tâmega.

Da profissão de barqueiro, hoje só a alcunha se transmitiu aos descendentes. Contudo, ainda há quem se lembre da importância que esta atividade teve para as populações ribeirinhas do concelho.

“Quando fomos trabalhar nas minas de Vieiros (Fridão) era o barco e o seu barqueiro que nos atravessava de manhã e à noite. E de Fridão, vinham pessoas para trabalhar nas fábricas deste lado do rio”, relembra Júlia “Barqueira” Ferreira, de Gatão.

Hoje (2018) com 91 anos de idade, explica que ganhou a alcunha depois de se casar com Manuel “Barqueiro” Teixeira, muito provavelmente um dos últimos barqueiros do concelho.

As manhãs e tardes dos dias de trabalho eram pontuadas pelas travessias entre as margens, graças a um serviço “part-time” providenciado por, sobretudo, moleiros e outras pessoas que viviam ou trabalhavam por perto das margens do rio.

Manuel Barqueiro, já falecido há mais de duas décadas, era uma destas pessoas que herdou o serviço e a alcunha do seu pai, proprietário de um engenho de linho no local de Varões. Contudo, conta Júlia Barqueira, abandonou a prática algures entre os anos 50 e 60, para se dedicar à lavoura e, mais tarde, à profissão de ferroviário.

Os barcos, construídos por carpinteiros locais, tinham uma lotação máxima de oito pessoas e cada viagem custava, em média, cinco tostões. Porém, quando o rio estava mais bravo e a travessia era impossível, só sobrava uma alternativa.

“Tínhamos que nos levantar às três da manhã para fazer a viagem a pé, através da ponte de Amarante. E ao fim do dia, o regresso era feito da mesma forma.” relembra Júlia Barqueira. E acrescenta:

“A vida era dura, mas também tínhamos momentos felizes. É uma das coisas de que tenho saudades da vida de antigamente, apesar de ter passado por uns momentos negros: desde que houvesse por perto uma viola, cavaquinho ou realejo, rapidamente nos esquecíamos de que estávamos cansados, com fome e sede”, conclui.

Júlia “Barqueira” Ferreira
Paulo Alexandre Teixeira © 2018
Publicado originalmente na Amarante Magazine 33, verão de 2017
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