Nova vida para a Hidroelétrica de Ôlo?

“Acredite-se que, no decorrer da comemoração do centenário da Hidroelétrica de Ôlo, em 2018, uma vaga de fundo, em que as sinergias da população ribeirinha do rio Ôlo, em estreito abraço e em sintonia com as entidades públicas e privadas, se desenvolverá para uma intervenção conducente à recuperação desta Central e equipamentos adjacentes e, – quem sabe? – erigir um espaço museológico condigno para a História de Amarante (…)”.

Este é um desejo expresso num folheto distribuído, em fevereiro, aos participantes na “Marcha das Papas”, integrada na Feira das Papas de Ôlo, cujo percurso incluía uma passagem por aquele equipamento, desativado na década de 1980 e, desde então, vítima de vandalismo e de roubos sucessivos, sobretudo de cobre, um material transacionado a bom preço no mercado.

Para que o edifício da central pudesse ser visitado, foi necessário cortar o mato à sua volta, que ali foi crescendo sem qualquer manutenção, tendo a visita dos “marchantes” constituído uma ação de sensibilização destinada a ganhar adeptos para a causa da preservação do que resta daquele empreendimento que, durante cerca de três décadas, abasteceu de energia elétrica a cidade de Amarante.

Pertença do Município, a propriedade da Central Hidroelétrica de Ôlo chegou, na segunda metade dos anos de 1990, a ser a reivindicada por um investidor da região, que ali pretendia instalar uma mini-hidrica, um investimento muito em voga naquela altura. Tal não viria a concretizar-se e a propriedade pública do equipamento foi afirmada.

A eventual criação de uma área museológica voltaria a dar vida à Central e não deixaria de ter repercussões na freguesia de Ôlo, pelos visitantes que ali levaria, vindo a ser mais um atrativo com repercussões na vida e economia locais. A União das Freguesias de Olo e Canadelo prepara-se para celebrar o centenário da conclusão das obras da Central, acrescentando força e visibilidade ao desejo de lhe dar um novo futuro. 

Entretanto, António Aires, professor, licenciado em História, terá já nas bancas, nessa altura, um livro sobre a Hidroelétrica do Rio Ôlo. Nas páginas seguintes, o autor conta um pouco da história da Central.

E a 4 de abril de 1918 fez-se luz!

António Aires

A 16 de Março de 1912 e ao que parece pela primeira vez, o Dr. Lago Cerqueira, “apresenta um anteprojeto e orçamento duma instalação hidroeléctrica para a iluminação da vila, serviço este que intende deve ser municipalizado…” na sequência fez ainda várias considerações sobre o assunto e procurou mostrar com números, as vantagens que para os munícipes e para o cofre municipal podiam advir daquele melhoramento, propondo mesmo que se contraia um empréstimo para o levar a efeito”. 

Aquela proposta foi aprovada na mesma reunião de Câmara, mas para o avanço da obra era indispensável, porque imposto pela lei (Código Administrativo de 1896), que fossem ouvidos os 40 maiores contribuintes do concelho.

Procedeu-se, pois, à convocação dos 40 maiores contribuintes de Amarante, pela Circular nº 70 de 20 de março de 1912, e a reunião veio a realizar-se uma semana depois, a 27 de março, contando com a presença de mais de metade dos convocados que “acordaram por unanimidade, que pela Câmara fosse contraído um empréstimo  até à quantia máxima de 20 contos de reis, ao juro de 5%, a amortizar em 20 anuidades, para ser levado a efeito tão grande melhoramento, impondo, contudo, com a condição porém que do competente processo conste documento bastante, assinado por um engenheiro hidráulico fornecidos à Câmara pelo ministério do Fomento, no qual prove que o caudal do rio Ôlo, convenientemente aproveitado em qualquer ano de estiagem, será suficiente para garantir o perfeito funcionamento de uma turbina capaz de fornecer 65 H.P. de força, que pelos estudos já realizados é suficiente para produzir 42/50 KWA, com a tensão de 250 volts, energia com que a casa Siemens Schuerckert-Werke garante a iluminação das ruas da vila e casas particulares, como consta do orçamento apresentado, podendo essa energia durante o dia ser aproveitada para abastecimento de água”. 

O mesmo projecto foi depois referendado perante as juntas de paróquia, como impunha a lei, e aprovado pela maioria delas.

Em Julho desse ano de 1912 o Dr. Largo Cerqueira pedia à Câmara “autorização para, desde já, proceder a todas as formalidades legais tendentes a obter do Governo a concessão da queda do rio Ôlo, necessária à instalação de luz elétrica nesta vila” que só foi concedida a 10 de setembro de 1942. 

O projecto foi submetido a consulta pública, por parte da autoridade competente (Primeira Direcção dos Serviços Fluviais e Marítimos), como o comprova a afixação de editais nas freguesias afectadas pelo empreendimento:

Na sequência desta consulta, alguns proprietários de engenhos ribeirinhos do rio Ôlo, apresentaram as suas reclamações, situação que veio a ser ultrapassada, tendo o Dr. António Lago Cerqueira chegado a uma solução conciliatória com todos eles. Todos receberam a indemnização acordada!

A concessão, tardia, foi emitida a 10 de Setembro de 1942, pelo Ministro das obras públicas e Comunicações, Duarte Pacheco, o que não impediu que a central entrasse em funcionamento em Março de 1918, dado que para o efeito tinha uma licença passada pela Primeira Direcção dos Serviços Fluviais e Marítimos.

 É um documento que se alarga em 34 artigos, sendo de realçar, a meu ver, o Artigo 1º, que se refere ao serviço concedido: 

Artº 1º- Serviço concedido: “A concessão a que se refere o presente caderno de encargos tem por objecto o estabelecimento e a exploração das obras hidráulicas e da oficina destinada a obter o aproveitamento hidroeléctrico da energia potencial do rio Ôlo, no sítio de Fridão, no troço do rio compreendido entre a secção que fica a 350 metros a jusante da confluência do ribeiro de Orde(n)s e a secção que fica 500 metros a jusante da confluência do ribeiro da Macieira, na freguesia de Fridão, e concelho de Amarante”.

A queda útil máxima é fixada em 26 metros. O caudal máximo concedido é de 1.000 litros por segundo. A potência instalada é de 224 C.V.”; e o Artigo 6º sobre as Obras principais: a) Açude; b) Canal de derivação; c) Câmara de decantação; c) Conduta forçada; d) Oficina hidroeléctrica; e) Equipamento mecânico-eléctrico “é constituído por duas turbinas Francis de 112 C.V. cada uma, acionando alternadores de 85 Kva (….)”

Finalmente, a 26 de Agosto de 1914, “o Sr. Presidente da Comissão Executiva apresenta o Projeto da instalação hydro-eléctrica (…)” da autoria do Eng. Tomaz Joaquim Dias. Realizaram-se depois os concursos para adjudicação das obras e equipamentos indispensáveis ao funcionamento da Central.

As obras hidráulicas foram arrematadas pela Companhia Geral das Construções Económicas pelo preço de 20.750$00. O material mecânico e eléctrico foi adjudicado à Empresa Eléctrica HBC (Henry Burnay & Cª) pela quantia de 35.108$60.

O empréstimo foi sendo alargado, desde os iniciais vinte contos de reis até ao empréstimo total de 120 contos, que se destinou igualmente a outras obras, para além da obra Hidroeléctica. 

A construção iniciou-se em Outubro de 1915, e as obras deveriam estar concluídas até 19 de Setembro de 1917, “(…) termo último para a conclusão das obras do contrato”.

A CMA vai tomar posse administrativa daquelas obras em 4 de Agosto de 1917 e dá-las por concluídas em Dezembro do mesmo ano, tendo o Dr. Lago Cerqueira relatado em reunião de 12 de Dezembro a forma como decorreram as obras desde que a Câmara delas tomou posse, e justificado com documentos todos as compras e pagamentos que foi necessário efectuar para a sua conclusão. 

Entretanto, em Amarante foram-se realizando as obras de instalação da rede pública e de alguns particulares, até que pela uma hora da madrugada do dia 4 de Abril de 1918… fez-se luz!

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