António Mota: onde estava no 25 de Abril?

António Mota (Foto de Daniel Mordzinski)

António Mota, 67 anos é, hoje, um dos mais premiados escritores de literatura infanto-juvenil, embora tenha também emprestado o seu talento a escritos de outra natureza. Natural de Baião, onde vive e onde a biblioteca pública municipal tem o seu nome, editou já para cima de uma centena de títulos, mais de 50 dos quais integram o Plano Nacional de Leitura. Perguntamos-lhe onde estava no 25 de Abril e como viveu esse dia e os meses que se seguiram ao golpe de Estado.

Nesse dia estava em Penafiel. Frequentava o então primeiro ano do Magistério Primário e era hóspede num quarto alugado à  D. Lelé no número 17 do largo da Ajuda, também frequentado por cabos, furriéis e aspirantes que não pernoitavam no quartel RAL 5, e marchavam para a Guiné.  

Nessa altura eu sonhava secretamente ser escritor, e dedicava-me a garatujar poemas que o sr. Armando Silveira, que usava suspensórios e fumava cachimbo, publicava no jornal Notícias de Penafiel. 

_Como viveu o dia 25 de abril de 1974 e os meses que se seguiram?

Lembro-me que quando entrei no edifício do Magistério, algumas das minhas colegas estavam muito inquietas, alvoroçadas, cheias de medo porque os seus pais e namorados eram da GNR. Não sei porquê- talvez pelos meus verdes dezassete anos, achei piada àquela inquietude. Não houve aulas, e eu lá tive de gastar dez tostões no quiosque para comprar um jornal que veio de Lisboa  em vez dos quatro cigarrinhos, porque não havia cabedal para mais.

No fim dessa tarde aprendi a dizer o povo unido jamais será vencido, liberdade, liberdade, e segui na enorme procissão onde estavam alguns professores, que foi até ao largo da Feira.  Deitei-me tarde, tomei conta de uma cadeira no café Alvorada a ver a televisão a preto e branco, e estava toda a gente muito feliz a beber Magos e finos e a comer tremoços. 

Alguns dias depois, já não sei quantos, um aspirante que tinha participado na revolução, lá em Lisboa, pousou a mala de cartão em cima da cama do quarto alugado à D. Lelé pelo irmão e disse-nos, com os olhos rasos de lágrimas,  que tinha com ele os cravos verdadeiros da revolução. Abriu a mala e nós vimos que estava pejada de cravos que tinham sido vermelhos.

Quando penso no Vinte e Cinco de Abril, consigo ver os cravos a murchar dentro da mala de cartão. E isso entristece-me.

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