Costa Carvalho: onde estava no 25 de abril?

Costa Carvalho (Foto AM).

José Rodrigo Carneiro da Costa Carvalho, nascido em Amarante, onde viveu a sua infância e juventude, tinha 39 anos quando aconteceu o golpe do 25 de abril de 1974. Conhecido jornalista e professor, Costa Carvalho (é assim que é conhecido) tem, hoje, 90 anos e uma jovialidade e lucidez impressionantes. Recentemente, o Departamento de Cultura do Município editou o livro “O meu grande pequeno mundo”, com 24 crónicas de Costa Carvalho, ilustradas com fotografias de Eduardo Teixeira Pinto. AMARANTE MAGAZINE perguntou-lhe onde estava, há 50 anos, no dia 25 de abril.

Estava a fechar o jornal de que era chefe da redacção. Tinha 39 anos de idade. A Pide considerava-me do contra, mas sem fazer grandes ondas. Aí pela 1 hora da madrugada, o taxista sr. Varela, que me costumava levar a casa entre as 3 e as 4, telefonou-me duma cabina, intrigado com a emissão de marchas militares. Logo associei o facto à reunião, havida em Teixeira Tinto com vários oficiais a garantirem-me que iam resolver o caso atacando o terreiro do paço. Do que eu muito duvidei, dizendo-lhes mesmo que não tinham tomates para isso… Ainda assim, dei uma volta telefónica por todos os outros jornais, sem qualquer resultado. Das Redacções não estava ninguém, até porque as rotativas já estavam a imprimir. 

Às 4 da madrugada, arrisquei um telefonema para casa dum assessor de Spínola. Fui recebido com grunhidos e palavrões. E quando o informei de que andava tropa na rua, fui insultado por só àquela lho dizer. E desligou. Às 6, consegui falar com um colega do “Diário de Lisboa”. Que sim, mas também, só que usavam todos a mesma farda, pelo que nem ele sabia qual das equipas era a visitada ou visitante. Às 6,30, já quase dia, vejo dois tanques na Avenida dos Aliados, com os canhões virados para o jornal. Indiferentes, como se os tanques sempre ali estivessem como “a menina nua”, ia passando gente para o trabalho. Foi quando disse ao telefonista para recrutar o máximo de pessoal, pois de certeza havia merda no beco em tudo aquilo…

_Como viveu o dia 25 de abril de 1974 e os meses que se seguiram?

Sem comer nem dormir, mas muito fumar, 48 horas depois fui a casa tomar banho, mudar de roupa e regressar ao jornal, para pôr na ordem as facções partidárias que tentavam puxar cada uma para o seu lado. Comités reuniam a toda a hora e momento, mas trabalho era coisa que eu não via. Apodado de fascista e outras coisas mais, com a ajuda das delegações do jornal quase que tive de fazer sozinho o jornal. Cinquenta anos depois – vou dentro de meses para os 90 – claro que fiquei feliz com a liberdade de expressão, mas descontente com a expressão dessa liberdade. Sempre me norteei pela ideia de, como jornalista, nunca escrever o que não possa dizer como cavalheiro. O meu patrão, em 49 anos de jornalismo, foi um só: o leitor. e outro não conheci e recuso-me a conhecer. Fui demitido. Fiquei agradecido.

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