Em Amarante, a Doçaria Mário

“Vou à Mário”, “encontras-me na Mário”, “tomamos um café na Mário”, “conversamos na Mário”, continuam a ser expressões comuns em Amarante. A doçaria da casa mantém a qualidade dos seus tempos áureos e o espaço continua a abrir-se ao lançamento de livros e a exposições de arte de consagrados ou de jovens em início de carreira.

A Doçaria Mário é uma das principais “lojas históricas” de Amarante e referência incontornável na área da confeitaria em geral e, particularmente, na da doçaria (dita) conventual. Tem instalações na rua Cândido dos Reis, com vistas soberbas sobre o rio Tâmega, seja a partir do seu interior, com uma parede rasgada de vidro; seja da esplanada, onde uma glicínia fornece sombra, de verão, a quem ali vai procurar recato.

Mário Silva, 89 anos feitos em março é, com a mulher, falecida prematuramente aos 47 anos, o “criador” da Doçaria Mário. Nascido em Figueiró, freguesia do concelho de Amarante, chegou à cidade com apenas 13 anos para trabalhar numa farmácia, mas rapidamente mudaria de rumo, ante um convite da Casa Alcino dos Reis, que haveria de definir o seu futuro profissional.

Durante quatro anos, Mário trabalhou na Alcino dos Reis, criada por um flaviense do mesmo nome, que chegou a Amarante “para trabalhar no Osório”, mas que em pouco tempo começou a criar os seus próprios negócios.

“O Alcino dos Reis, recorda Mário Silva, começou por ter uma casa que era como que um supermercadoVendia de tudo: cabedais, mercearia e outros produtos, no rés do chão. No primeiro piso tinha um salão de chá e vendia doces”.

Alcino dos Reis era, segundo Mário Silva, um empresário multifacetado, tendo entrado também no negócio do alojamento – com 14 quartos na antiga Casa das Lérias – e da restauração. “Criou o Restaurante Parque. Uma vez servi lá o Vasco Santana”, recorda. E explorou, durante anos, a Pousada do Marão.

Mário Silva, 89 anos (Foto AM).

A entrada de Alcino dos Reis no negócio dos doces, terá a ver com o facto de a família de sua esposa, D. Júlia, ter tido uma confeitaria no Porto, tendo trazido depois para Amarante o conhecimento ali adquirido. Da doçaria genérica passaria, em breve, à confeção de doces conventuais, a cujas receitas poderá ter tido acesso, admite Mário Silva, na Casa da Calçada, onde, inicialmente, trabalhara.

Os papos d’anjo, as brisas do Tâmega, os foguetes e os S. Gonçalos passaram, então, a ser uma marca da Alcino dos Reis, que haveria de criar (ou moldar) a léria. “A léria começou por ser um rosquilho de amêndoa. O Alcino dos Reis deu-lhe a forma atual”, explica Mário Silva.

Um negócio a dois

Ao fim de quatro anos e meio na Alcino dos Reis, Mário Silva foi trabalhar na Confeitaria Villares, em frente ao mercado do Bolhão, no Porto, onde esteve quatro anos. Dali, foi para Águeda “para um estabelecimento que era confeitaria, restaurante, café e adega, tinta de tudo”, refere.

De Águeda, Mário Silva rumou a Tancos, para cumprir o serviço militar, tendo, em 1955, regressado a Amarante para se tornar sócio (e trabalhador) da Confeitaria Faria. Em 1969, adquiriu a totalidade do negócio, nascendo, por essa via, a Doçaria Mário, que, em 1984, haveria de mudar para as instalações atuais, do outro lado da rua e com vistas para o Tâmega, cujo layout seria criado pelo arquiteto Acácio Brochado.

“Tinha tudo pronto para a mudança algum tempo antes, mas com a morte da minha mulher, aos 47 anos, fiquei muito abatido e durante meses não consegui mudar. A minha esposa era fundamental no negócio. Era o meu braço direito e o meu braço esquerdo. Éramos os dois que fazíamos os doces”, confessa, nostálgico, Mário Silva.

Referência incontornável da doçaria em Amarante, “a Mário”, como é familiarmente chamada, teve o seu apogeu até ao início do século XXI. “Há uns anos, trabalhávamos até à meia-noite. Hoje, fechamos às sete da tarde”, diz Mário Silva, que tem as suas próprias explicações para a diminuição da procura pelo seu estabelecimento.

“O problema está, refere, convicto, nas alterações de trânsito havidas na rua Cândido dos Reis e na realização tardia de acessos à autoestrada 4 (A4) para a zona oeste da cidade”.

A qualidade dos doces da “Mário” mantém-se inalterada e a genuinidade dos conventuais é garantida. Para além destes, a Doçaria inovou, criando outros. É o caso do “mário”, um doce à base de nozes; dos “frades” e das “freiras”. A sua produção passa, ainda, pelas cavacas, suspiros e galhofas e pelo bolo-rei, inicialmente feito em forno aquecido com carqueija da Serra do Marão. 

“Em alguns natais, chegámos a fazer mais de uma tonelada de bolo-rei”, lembra Mário Silva, que assegura que todo o processo de fabrico dos doces da “Mário” se mantém artesanal, exemplificando: “a amêndoa continua a ser moída por nós e os ovos ainda são comprados inteiros”.

Sessenta e oito anos depois, já não se fazem tertúlias na “Doçaria Mário” que, nos seus tempos áureos, juntavam clientes de formação diversa (advogados, jornalistas, escritores, empresários…) em longas conversas e partilha de saberes. Mas o seu espaço ainda se abre a exposições de pintura ou de fotografia e ao lançamento de livros.

Nota: Esta “estória” foi originalmente publicada em 17 de abril de 2023.

Doçaria Mário

Conteúdo patrocinado pela CLÍNICA DO CAMPO DA FEIRA

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