José de Abreu: o homem que construíu o império TABOPAN

Deputado da Nação, Presidente da Câmara e Industrial, José Abreu disse nunca ter permitido que a PIDE prendesse em Amarante (Foto AM).

Falecido há 19 anos, a José de Abreu foi, recentemente, atribuída pelo Município, a título póstumo, a Medalha de Honra, que “distingue pessoas que hajam prestado serviços relevantes a Amarante”. José de Abreu foi, de facto, uma dessas pessoas, pelo que a distinção é plenamente merecida. Em 1996, AMARANTE MAGAZINE fez uma “estória” com José de Abreu, que agora republicámos, e que já há 25 anos pretendia mostrar o homem que chegou a dar trabalho a 2 300 pessoas e que, a seguir ao 25 de abril de 1994, viu o seu “império” começar a ruir. Esta “estória” é a primeira de um trabalho que produzimos. Na segunda, escreveremos sobre a “ascensão e queda” da Abreu e C.ia, que todos conheciam como Tabopan.

UM LUTADOR! Assim apetece definir José de Abreu, senhor de mais de uma dezena de comendas, em tempos Presidente da Câmara de Amarante e Deputado da Ação Nacional Popular e, até finais dos anos de 1980, um dos grandes patrões da indústria portuguesa, um conversador nato, excelente comunicador e, indiscutivelmente, um dos melhores oradores do país.

Algum relacionamento pessoal e quase quatro horas de conversa na sua casa de Pousada, em Fregim, não permitirão, tenho a certeza, traçar com fidelidade o perfil deste homem de oitenta e dois anos que continua a alimentar sonhos e projetos, o maior dos quais é reabrir a Tabopan.

“Não hei-de morrer sem pôr as fábricas de novo a trabalhar”, diz, com convicção, manifestando confiança de que a decisão do Supremo Tribunal da Justiça, para onde recorreu do processo de falência, lhe será favorável. “No mesmo dia em que isso acontecer, estarão ali uma dúzia de trolhas, dez ou quinze vidraceiros e pintores, vinte mecânicos, preparando tudo. Trinta dias depois, as indústrias Tabopan estarão, de novo, a produzir”.

José Joaquim Gonçalves de Abreu é o mais velho de nove irmãos. Nasceu em Freixo de Cima, em 18 de março de 1914, e, porque seu pai foi convidado a trabalhar nas Minas de Vieiros, frequentou a escola primária na freguesia serrana de Canadelo, onde concluiu a quarta classe.

Esta passagem pelo Marão haveria de marcar decisivamente as suas opções futuras. O Estado procedia, na altura, à florestação das encostas da serra, trabalhos a que o pequeno José assistia nas suas deslocações de e para a escola. Fascinava-o o lançamento do penisco e, por vezes, não resistia a dar uma dentada nas sementes que caíam nas rochas nuas. Curioso, perguntava-se se “aquilo” nasceria e foi deslumbrado que assistiu ao aparecimento e crescimento dos primeiros pinheiros.

Trinta a quarenta anos mais tarde, a florestação do Marão ajudá-lo-ía a abastecer a Europa de aglomerados de madeira da marca TABOPAN e a fazer da sua empresa a maior da Península Ibérica no setor das madeiras.

De Vieiros, José de Abreu foi morar para Vila Chã. Seu pai abrira, entretanto, uma oficina na vila de Amarante, na rua Cândido dos Reis, e para aí se deslocava todos os dias, ajudando-o. Os estudos seriam prosseguidos por correspondência, deslocando-se a cada mês a Lisboa para prestar provas. Foi assim que concluiu o Curso do Comércio. Na década de 1960 voltaria a estudar, frequentando, então, um curso de Relações Públicas na Associação Industrial Portuense e o Instituto Francês.

Sem formação académica superior, José Abreu é, porém, hoje, Doutor Honoris Causa por várias universidades, entre as quais a do Mediterrâneo e Humanística de Roma, sendo, por exemplo, também, membro do Conselho Social da portuguesa Lusíada. É, afinal, o reconhecimento de uma experiência ímpar na área das madeiras que José de Abreu adquiriu ao longo de uma vida que leva já mais de oito dezenas de anos.

É que, como empresário, nunca se limitou a gerir um negócio de deve e haver, antes acompanhando também todos os processos de investigação, fabrico e apuro dos produtos da sua indústria. Assim o exigiam os seletivos mercados com que trabalhava e que, de resto, haveriam de lhe reconhecer o esforço, fazendo-o, várias vezes, Comendador.

De facto, entre outras, foi distinguido com as Comendas da Grã-Cruz da Ordem de Mérito da República Federal Alemã – a mais alta Condecoração daquele país; a de comendador de Graça Magistral; Grande Oficial da Ordem de Mérito Industrial e Banda de Grã-Mestre da Amaranther Orden da Suécia, sendo, ainda, galardoado com o Troféu de Paz e Cooperação em Roma, Moscovo, Istambul e Malta.

“Em Amarante nunca ninguém foi preso pela PIDE”

Com a sua empresa a exportar para vários países, José de Abreu fez inúmeras viagens, adquirindo uma cultura universal que só os contactos com diferentes civilizações e modos de vida permitem. Guarda dessas viagens estórias e amizades sem conta, buscando, sempre, nas suas deslocações, a descoberta de um apelido português, de uma referência lusa.

Descobriu muitas, como uma rua no Cambodja com o nome de Diogo Veloso. Soube, depois, tratar-se de um  amarantino do lugar da Torre, embarcado numa nau das Descobertas, náufrago, e, fruto da sua valentia, mais tarde genro do Rei; ou, ainda, de D. António do Prado Pimentel, fidalgo amarantino que deslumbrou a rainha da Suécia e que esteve na origem da Ordem de Amarante, a mais prestigiada ordem honorífica daquele país escandinavo.

Industrial prestigiado desde, sobretudo, os anos de 1950, José de Abreu movimentava-se à-vontade nos corredores do antigo regime. Serviu-o, aliás, como deputado e autarca. Na Câmara de Amarante, esteve 24 anos (de 1950 a 1974), oito dos quais como Presidente. Nos restantes, foi vereador e membro do Conselho Municipal.

Orgulhoso de Amarante, para onde chamou várias realizações ao longo dos anos (reunião da Amaranther Orden da Suécia; da ISO – Organização Internacional de Standardização e da FAO – Organização para a Agricultura e Floresta) e onde trouxe todos os embaixadores acreditados em Lisboa e todos os cônsules acreditados no Porto, José de Abreu tem da sua vida de edil algumas obras de referência: a eletrificação de 23 freguesias; a construção de 40 salas de aula; a instalação do liceu, do ciclo preparatório e da escola industrial; a construção da “ponte nova”, inaugurada em 27 de setembro de 1967 por Américo Thomaz; a instalação das esquadras da PSP e GNR; o Museu Amadeo de Souza-Cardoso ou a construção de dois bairros de habitação social.

Como deputado, José Abreu serviu o regime entre 1973 e 1974. Caiu com o 25 de abril. O poder emergente com a revolução trouxe-lhe alguns dissabores, sobretudo em termos empresariais, mas o Comendador reconhece que havia necessidade de uma mudança. “Pena foi que Salazar, depois de ter posto as Finanças direitas e o País em ordem, não tenha conseguido retirar-se”, considera.

Os excessos da revolução, no tempo do PREC (Processo Revolucionário em Curso) combateu-os com a escrita, editando livros e colaborando em jornais, o que o fez “estar presente, por várias vezes, na barra dos tribunais. Cometi alguns delitos de opinião”, diz com ironia.

Forma peculiar, esta, de combater o PREC, sem apoiar ou ter ligações ao ELP (Exército de Libertação de Portugal), MDLP (Movimento Democrático para a Libertação de Portugal) ou aos CODEC (Comandos para a Defesa da Civilização Ocidental) ou a chamada Rede Bombista que muitos outros ligados ao anterior regime estimularam ou financiaram.

Ou seja, a escrita como arma para quem, afinal, tem várias publicações – algumas especializadas, outras descrevendo as suas viagens pelo mundo – , foi membro da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto e fundou dois jornais: o “Notícias de Amarante” e o “Notícias de Vila Pouca” e, ainda, o “Boletim Cultural da Tabopan”.

Perante a revolução do 25 de abril, José de Abreu diz, aliás, que nem sequer chegou a abandonar o país. Acha que a sua figura era consensual em Amarante, as pessoas conheciam a sua prática e sabiam dos seus princípios.

“Nunca escolhi os meus amigos pelas suas opiniões políticas, mas pelo que, realmente, eram enquanto indivíduos. E durante o período em que governei Amarante, ninguém foi levado pela PIDE”, afirma perentório.

José Abreu morreu sem ter conseguido reabrir a Tabopan (Foto AM).

O “Patriarca” que empregava 2 300 trabalhadores

A imagem que o Comendador José de Abreu tinha à época do 25 de Abril era a de uma espécie de “Patriarca” que dava emprego direto a 2 300 trabalhadores e proporcionava cerca de 1 500 postos de trabalho indiretos. 

Ao contrário do que acontecia em outras terras, em Amarante não havia desemprego e para a Tabopan iam todos os que precisavam de ganhar dinheiro: os válidos e menos válidos, muitos até com deficiências físicas e que dificilmente arranjariam emprego noutro lugar. Aos trabalhadores, tratava-os José de Abreu, segundo diz, como gostaria que fossem tratados os seus filhos em idêntica situação.

De forma que, a seguir ao 25 de Abril de 1974, não foi apelidado de “facista” ou “explorador” e alguns problemas que teve com os seus empregados atribui-os a “instigações de uns quantos que se queriam apoderar da gerência da Tabopan e vê-la cair”.

Com uma vida intensa e rica de vivências e acontecimentos até há alguns anos, José de Abreu tem, hoje, um dia-a-dia mais calmo, embora lhe continue a sobrar energia para lutar por aquilo em que acredita. E, embora o Tribunal tenha declarado a falência da Tabopan, ainda é a empresa que lhe ocupa grande parte do tempo. 

Apostado em provar a sua viabilidade e em retomar a gerência, desdobra-se em contactos, gere as ligações de outros tempos, recebe encomendas via fax ou por telefone e pede paciência aos que lhe buscam as “Tábuas Prensadas Nacionais” (Tabopan). Os seus objetivos refletem-se nos tempos em que não havia desemprego em Amarante e diz com convicção: “Ainda hei de tirar da rua as pessoas sem esperança”.

Enquanto aguarda pela decisão do Supremo Tribunal da Justiça – que espera não confirme a decisão dos tribunais de Primeira Instância e da Relação, que decretaram a falência -, o tempo de José de Abreu é também feito de escritas e leituras. De livros de História, de Camilo, Miguel Torga, Fernando Pessoa e Pascoaes. E de recordações.

Do Poeta de S. João de Gatão tem algumas, de vivências comuns no Alcino dos Reis e de caminhadas várias. Lembra o autor de “Marânus” como um homem “inteligentíssimo e de rara sensibilidade, mas de aparência humilde e de roupas modestas. Um nobre, afinal, para quem a imagem nada dizia”!

Em pensando nisto, não resiste a uma comparação com algumas “personagens” de hoje, com vastos sinais exteriores de riqueza, que fazem gala da ostentação, pensando esconder desta forma o vazio interior de formação e bens cultuais.

Do homem, mostra-se sempre uma parte: um gentleman, um cavalheiro de educação esmerada, um ilustre cidadão de Amarante. E do mundo. As suas memórias enriquecem qualquer património.

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