Linha do Tâmega: morreu Manuel Andrade, o último dos maquinistas

Manuel Andrade morreu aos 89 anos.

Manuel Andrade foi o último dos maquinistas que fizeram a Linha do Tâmega no troço Amarante-Arco de Baúlhe, quando encerrou em 1990. Morreu este Natal, aos 89 anos. AMARANTE MAGAZINE republica, aqui, uma peça que com ele publicámos na nossa edição em papel número 34 (verão 2018).

De dia, os comboios da Linha do Tâmega cruzavam pela propriedade da família, em Vila Caiz. À noite, enchiam-lhe os sonhos. Hoje, octogenário, Manuel Andrade reflete, para AMARANTE MAGAZINE, sobre uma vida profissional dedicada ao caminho de ferro que, ironicamente, começou com um par de calças em chamas.

Em criança, lembra-se da linha do Tâmega cruzar um terreno da família, em Vila Caiz, e de que o comboio lhe enchia a cabeça de sonhos. Hoje, com 86 anos, Manuel Andrade, antigo maquinista, ainda recorda, como se fosse ontem, as estórias e episódios de uma vida inteira dedicada aos caminhos de ferro.

Conta que, em 1957, após concluir o serviço militar, assentou praça em Sernada do Vouga, um entreposto de material circulante, ao serviço da Comboios de Portugal (C.P.). O primeiro posto: limpador de locomotivas a carvão.

“Removia-se a jorra (resíduos de carvão queimado) das caldeiras das máquinas. Eram carros e carros daquilo. Havia alturas em que era tanta e tão quente, que até as calças pegavam fogo”, recorda.

Entretanto, progrediu na carreira: já em Vila Nova de Gaia, no início dos anos 60, passou pelos vários estágios de fogueiro. Mais tarde, em Campanhã, fez o exame de maquinista, cargo que começaria a exercer em 1967.

“Pouco depois fui convidado para meter os papéis para inspetor, mas eu tinha outras ideias. Nessa altura, o que mais desejava era passar a maquinista das automotoras”, explica.

É que, conta, já andava de olho na linha do Tâmega, na altura servida por automotoras a diesel de via estreita. Mas ainda teria que esperar alguns anos e percorrer praticamente todas as rotas ferroviárias do Norte: Porto, Barca d´ Alva, Régua, Monção e Coimbra, figuraram entre muitos outros destinos.

Do vapor, tem algumas saudades, mas muitas memórias de dificuldades: locomotivas cansadas e sem força ou “embalo” para ultrapassarem troços inclinados, da tortura de atravessar longos túneis, do fumo, sempre presente, e da falta de visibilidade.

“Havia alturas que fogueiro e maquinista não se conseguiam enxergar um ao outro”, relembra.  Nos túneis, a fuligem e humidade conspiravam entre si contra as locomotivas, que patinhavam na via, à procura de aderência ao ferro.

Finalmente, em 1974, já certificado para conduzir automotoras, entra ao serviço da Linha do Tâmega, como maquinista. Aqui já se permitia pequenos luxos, como passar a noite em casa, em Amarante. E ainda havia a segurança de a conhecer a linha, de uma ponta à outra, como se fosse a própria palma da mão.

No pior dos casos, teria que pernoitar em Arco de Baúlhe onde, conta, os funcionários da ferrovia gozavam do pequeno privilégio de ter uma mesa reservada, no café central.

Manuel Andrade com a “sua” locomotiva, na estação da Livração.

“É verdade. A mesa tinha um baralho de cartas e um jogo de dominó, só para os ferroviários. Quem estivesse naquela mesa sabia, e respeitava, o facto de que tinha que se levantar quando nós chegávamos”, relembra.

De boas memórias, ainda retém a da beleza da linha e dos turistas estrangeiros que, nos anos 80, se acotovelavam na estação de Mondim de Basto, a tirar fotografias aos azulejos do edifício, hoje em avançado estado de degradação.

Aliás, a entrada em declínio da linha ainda lhe causa mágoa e admite desconhecer o estado atual de muitas das estações. A última visita que lhe fez, foi antes da sua reconversão em ecopista entre Amarante e Arco de Baúlhe. Não guarda boas recordações dessa viagem.

“Foi uma pena, o encerramento daquele troço, foi o fim para muitas das localidades que servia.” 

Reformou-se em 1992 e rejeita arrepender-se da decisão: “Quando apareceu a famosa circular cor de rosa, que falava do encerramento da linha, decidi que já não valia a pena continuar”, diz. E garante que, em termos profissionais, se sente realizado. “Em 26 anos como maquinista, nunca apanhei uma trincheira a desabar, nunca descarrilei um comboio e nunca alguém se atirou para a frente da minha máquina. Sinto-me um homem de sorte”, conclui.

PUB.

CONTINUAR A LER

Deixe um Comentário

Pode Também Gostar