Manuel Nogueira, o último mineiro

Manuel Nogueira (Foto AM).

Manuel Nogueira, 71 anos, iniciou aos 13 o seu trabalho nas Minas de Vieiros. Quando estas encerraram, em 1972, conseguiu trabalho nos Serviços Florestais, dos quais se reformou vai para um ano.

No primeiro telefonema, marcámos encontro com Manuel Nogueira para um sábado, às nove horas. Uma alteração de agenda a que fomos forçados, levou-nos, de véspera, a novo contacto, sugerindo-lhe a tarde. 

“Não faz mal, disse-nos. Até me dá jeito, já que assim posso ir a Amarante, ao mercado, comprar flores para os meus filhos”.

Acertamos a hora e, algo intrigados, despedimo-nos. À tarde, tendo-se apercebido da nossa chegada à aldeia, rapidamente Manuel Nogueira veio ao nosso encontro, acompanhado do genro, Vítor Costa.

Sim, tinha ido a Amarante, comprara flores e ido ao cemitério de Fridão arranjar a campa dos filhos, Mário Rui e Joaquim Paulo, falecidos na sequência de um acidente de viação, numa tarde de chuva e nevoeiro, em Santa Maria da Feira, que ceifou também a vida a outros três jovens. Os cinco regressavam a casa depois de uma semana de trabalho.

Da data do acidente não tinha Manuel Nogueira memória. Acontecera há uns anos, mas não conseguiria dizer concretamente há quantos.

Manuel Nogueira foi pai de 10 filhos.  Sete rapazes e três raparigas sendo que apenas Cristina Maria ficou em Vieiros. Os outros fizeram-se à vida, tal como o pai que, no dia em que fez 13 anos, começou a trabalhar na mina. Fazia de tudo: “nas obras, com carretas a acartar terra, a ajudar a fazer muros… O que fosse preciso”, disse. 

“O trabalho era muito duro e, de início, eu não estava habituado. No meu primeiro dia, cheguei à noite com as mãos cheias de borrachas”, contou.

Manuel Nogueira trabalhou na mina até ao seu fecho, em 1972, seis anos ao todo. Cinco deles passados no exterior, em trabalhos de construção civil, e apenas um dentro das galerias, “nas minas da cota 100 e 105”.

Com a gestão da Nortenha, as condições de trabalho dos mineiros terão melhorado muito, mas o nosso entrevistado não tem saudades daqueles tampos, pela dureza do trabalho e dos riscos inerentes. É verdade que os martelos de perfuração passaram a ter água, evitando que as brocas produzissem grandes quantidades de pó, que, caso contrário, como antes acontecia, se iria entranhar nos pulmões dos mineiros, provocando doenças irreversíveis. Porém, o interior das galerias, húmido e sujeito a desmoronamentos, inquietava qualquer um.

Nos primeiros anos, Manuel Vieira recebia, por dia, 10 escudos. Havia meses em que o salário melhorava com “a prima” (prémio) a que os trabalhadores tinham direito sempre que fosse atingida a produção de oito toneladas de minério.

A nova concessão havia introduzido, de facto, melhorias no dia-a-dia dos trabalhadores e das suas famílias, concorda Vítor Costa. Entre outras intervenções, foram feitas obras nas casas dos mineiros, nas quais, por exemplo, até à chegada da Nortenha, o chão era em terra. E os trabalhadores passaram a ter, nos dias úteis, almoço pago na mercearia que se instalou em Vieiros.

Para muitas pessoas, passou a ser atrativo trabalhar e/ou morar em Vieiros, onde, nos anos sessenta do século XX, “morava mais gente do que em todos os outros lugares da freguesia de Rebordelo”, afirma Manuel Nogueira.

No início dos anos de 1970, nas minas de Vieiros praticamente já só se procurava estanho. “E faliram, porque o que se ganhava com a sua venda não cobria, sequer, os custos de produção. Com o aparecimento do plástico, quase deixou de se fazer soldas. Antigamente, era tudo folha: os cântaros, os jarros ou os regadores”, lembra Vítor Costa.

Encerradas as minas em 1972, Vieiros veria, lentamente, partir quase todos os seus habitantes. Muitos dos que trabalhavam na extração de minério encontraram trabalho nas “fábricas do Abreu” e outros emigraram.

Manuel Nogueira é, em Vieiros, o último mineiro!

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