A propósito da Rota dos Artistas: entre o currículo escolar, o social e a preparação profissional

Estou e escreve-vos de um ângulo que me permite observar a nossa região, um território com uma demografia heterogénea, por um lado, jovem e relativamente urbanizada, por outro, uma população de baixa densidade, envelhecida e ruralizada. No geral, uma população com qualificações académicas baixas, nomeadamente, 12,4 % da população com 15 ou mais anos não apresenta o 1º ciclo completo, 33,6% apenas possuem 1ºciclo e 17% completa o 2º Ciclo, o mesmo acontece com os níveis de ensino superior (3º ciclo e secundário). Estes são dados do Plano Integrado e Inovador de Combate ao Insucesso Escolar do Tâmega e Sousa (PIICIE-TS) que tão bem descreve a nossa realidade e de onde se depreende que é necessário qualificar a nossa população, no entanto, é necessário “criar condições para que as crianças e jovens se mantenham na escola, com aproveitamento.” (PIICIE-TS, 2018, p.14)

As discussões que pretendem contribuir para resolução deste problema maior abordam problemáticas já tão conhecidas e que se repetem, independentemente das comunidades educativas ou onde estas emergem, tais como o fraco aproveitamento dos alunos, as disciplinas ou as áreas que devem ou não fazer parte do seu percurso escolar, a frequência ou não de cursos académicos ou de cursos profissionais, entre outros, o abandono escolar que, em meios rurais, ainda se “justifica” com o motivo de casamento ou necessidade de enveredar no mundo do trabalho.

Em jeito de resposta para minimizar tais problemas, fala-se no necessário acompanhamento psicológico ou avaliação vocacional aos alunos no sentido de os ajudar, de os influenciar a escolher a área de estudo mais indicada. O que por vezes acontece é que este aconselhamento acaba por ser limitado e não dá seguimento à vocação do aluno propriamente dita, mas concretiza-se num aconselhamento por vezes, orientado pelos contratempos existentes do contexto, tais como: os objetivos pessoais de cada aluno a limitada logística familiar para o concretizar e/ou as respostas anuais da própria escola que acabam por originar saídas idênticas para todos os alunos, a não ser que estes jovens decidam mudar de comunidade escolar à procura de outras respostas.

Eu colocaria em cima da mesa uma outra dimensão do problema. A final de contas, o que é que o mercado de trabalho espera de um jovem? O que é que o mercado de trabalho valoriza ou deveria valorizar? Estará a escola a formar recursos humanos com competências necessárias para os quadros que estão vagos, atualmente, ou que irão abrir num futuro próximo? Sem esquecer que o futuro é já hoje.

Partilho uma experiência de dois anos que tive enquanto cocoordenadora de projetos de cooperação portuguesa à responsabilidade do governo português. Na altura, 2010-2011, integrei uma equipa de recrutamento que tinha como finalidade recrutar professores que iriam ser enviados para a Guiné-Bissau. Para além de terem de viver juntos no mesmo local e de trabalhar em equipa, a função destes professores era extremamente importante e diversificada, pois tanto poderiam ser chamados a ministrar formação direta a quadros do governo guineense, a professores de escolas públicas, a elementos da comunidade ou mesmo a crianças, para não falar das suas funções de gestão de projeto, de monitorização e de reportação de dados à coordenação. Para terem uma noção, todas estas funções eram executadas num contexto social e profissional alternativo, desconhecido e envolto numa cultura diferente.

As entrevistas eram realizadas a homens e/ou mulheres jovens, que apresentavam o seu Curriculum Vitae (CV) com maior ou menor aproveitamento académico e com maior ou menor poder de comunicação. O problema é que o que procurávamos, verdadeiramente, não estava explanado nos CV, mas no carácter da pessoa e respetivos valores, nas entrelinhas dos discursos, nas temáticas escolhidas para a conversa, nas histórias que contavam e na perspicácia com que resolviam situações problemáticas que expúnhamos para serem avaliadas e resolvidas, entre outras: (1) Como reagiria se lhe faltasse a água logo pela manhã, o que o obrigaria a ir trabalhar sem banho e sem pequeno-almoço? (2) Como procederia se, no meio de uma formação no Ministério de Educação, lhe faltasse a eletricidade? (3) O seu objetivo para aquele ano é desenvolver um manual de estudo, no entanto, a sua equipa de trabalho não concorda em relação a determinadas temáticas ou teorias pedagógicas. Como procederia?

Conclusão, em geral, o professor que tinha melhor desempenho, quase sempre, não era o que tinha melhores notas à saída da faculdade, ou que tinha vários anos de experiência na escola, mas sim aqueles profissionais com cultura geral mais alargada, aqueles que para além do percurso escolar acabavam por ter um percurso de vida alternativo e paralelo. Aqueles que possuíam um “currículo social rico”, que entre outras situações, se tinham edificado com o resultado de experiências de voluntariado, de viagens por diversos países e culturas que os obrigou a improvisar, a adaptar-se a novas formas de ser e de fazer, permitindo-lhes adquirir as competências fundamentais para reagir, responder, arquitetar situações de improviso em contextos adversos e que são fundamentais para moldar seres resilientes que se adaptam a novos contextos. Sabíamos que, desta forma, estaríamos a evitar que estes professores regressassem a casa na mesma semana em que chegaram ao terreno.

Segundo Pacheco (1996) o currículo é um projeto cujo processo de construção e desenvolvimento é interativo, que requer unidade, continuidade e interdependência entre o que se decide ao nível do plano normativo/oficial e o plano real/processo ensino-aprendizagem. Podemos dizer ainda que “o currículo é uma prática pedagógica que resulta da interação e confluência de várias estruturas (políticas, administrativas, económicas culturais, sociais, escolares, …) na base das quais existem interesses concretos e responsabilidades compartilhadas (Pacheco, 1996, p. 20). 

A quem interessa formar bons profissionais, cultos e boas pessoas? Para além dos próprios alunos, por razões óbvias, interessa aos pais, às escolas, às empresas, e aos municípios, pois cidadãos que conhecem a terra, que se orgulham da mesma, podem sempre voltar e investir na sua terra berço.

Para além das fundamentais competências profissionais do currículo académico/escolar, os jovens não podem sair da sua região sem terem uma cultura geral local bem vincada, sem terem tido experiências de aprendizagem em diversos contextos (empresas, lojas, voluntariado, investigação, associativismo…) sem assumirem, nem que seja por curtos períodos de tempo, aprendizagens em processos comunitários, em trabalho de cooperação em equipa, desafios inovadores, tudo isto no seu contexto, no meio em que vivem, na sua zona de conforto sem terem medo de errar, de se superarem. Só assim, depois de testarem as suas competências, a sua criatividade sob uma plataforma de segurança que lhe é familiar é que estarão aptos para um desempenho adequado e exemplar perante futuros cenários reais profissionais e/ou pessoais.

Neste sentido, cabe às entidades já referidas aproveitar o Decreto Lei nº55/2018 que permite às escolas uma maior autonomia na gestão do currículo dos alunos, tendo por base o projeto educativo e completando as necessidades especificas dos alunos de cada agrupamento de acordo com o meio em que se inserem, para edificar e desenvolver currículos que promovam a complementaridade entre ensino formal e informal, baseado nos conhecimentos locais, na cultura local e suas especificidades, tais como: tradições, histórias, personalidades, entre outros, o património material e imaterial da sua terra, pois só assim os nossos jovens se apropriam da nossa essência e identidade.

Foi nesta visão sustentável que o Stay to Talk Instituto construiu o Itinerário Turístico-Pedagógico – ROTA DOS ARTISTAS, pensando não só nos visitantes, mas também nos que cá estão, no sentido de proporcionar às novas gerações a passagem da memória e do conhecimento local por nós herdado. No entanto, como diz Guilherme d’Oliveira Martins em Cinco Lições sobre Património Cultural (2021), preservar a memória não é só escrever ou recordá-la, mas é também vivê-la, nesta ideia de cuidar do outro. A Rota dos Artistas cuida dos lugares dos artistas e cuida das futuras gerações, pois proporciona aos mais jovens e/ou jovens de espírito experiências de aprendizagem desafiando-os a vivenciar os lugares com a comunidade de forma a complementar os currículos formais das escolas, das escolas profissionais, das universidades sénior e, entre outros, das entidades responsáveis pelas atividades de tempos livres (ATL). Com esta dinâmica comunitária de aprendizagem sabemos que os nossos jovens vivenciam experiências de aprendizagem com a comunidade, que se apropriam da sua identidade e, entre outros, desenvolvem competências que lhe permitem FAZER e SER muito mais que o currículo formal académico e do CV que eventualmente possam apresentar numa futura entrevista de trabalho.

Referências

CIM-TS (2018). Plano Integrado e Inovador de Combate ao Insucesso Escolar do Tâmega e Sousa (PIICIE-TS). 

Pacheco, J. A. (1996). Currículo: teoria e práxis. Porto: Porto.

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