Agustina, a amarantina

Em 1994, AMARANTE MAGAZINE (AM) publicou uma entrevista com Agustina Bessa Luís. Falámos com ela de livros, era inevitável não o fazermos, nem que fosse apenas para lembrar “A Sibila”; questionámo-la sobre cinema e Manuel de Oliveira, que transformou em filme alguns textos seus, casos de Francisca (Fanny Owen) e “Vale Abraão”, também era óbvio; e falámos, claro, de Amarante.

Ao entrevistá-la, esse era, de resto, o nosso principal propósito: mostrar aos leitores de AM uma figura maior nascida em Amarante, ainda que, como a própria reconheceria, mantivesse com a sua terra de nascimento poucas relações. O que até é normal. Quantas pessoas, por razões diversas, não se vêem forçadas a deixar o sítio onde nasceram? Para ganhar a vida, correr atrás de um sonho, ou até para crescer?

No trabalho que então publicámos, Agustina explicava as suas poucas ligações a Amarante, mas nunca renegava o seu nascimento, reconhecendo mesmo possuir uma personalidade com traços característicos aos amarantinos. Aquilo a que, porventura, Eulália Macedo chamava de “espírito de lugar”.

Localmente, não faltou, então  quem se sentisse ofendido com uma afirmação da escritora, que definia os amarantinos, onde ela fez questão de dizer que se incluía, como “curiosos, metafóricos e manhosos”. Os ofendidos, porém, não terão relevado a teoria da escritora sobre a formação de Amarante. E que é esta: “Por razões geográficas, climatéricas e outras, penso que ali se terá fixado uma tribo restrita, um clã intelectualmente desenvolvido, que incluiria mestres, professores, com capacidades que viriam a ser absorvidas”.

 E acrescentava: “Também com influência nas classes populares, que têm uma forma muito peculiar de se exprimir. Aliás, eu costumo dizer que, mesmo em Nova Iorque, consigo imediatamente identificar uma pessoa de Amarante. Desde logo pela forma lenta de o amarantino se exprimir. Conta sempre uma história da maneira mais longa, acabando, invariavelmente, por dar uma sentença. Ora isto pressupõe a existência de uma cultura profunda, muito antiga”.

 Enfim. Esta prosa vem a propósito do partido que Amarante não tirou de Agustina enquanto viva. No texto a que nos temos vindo a referir, a escritora dizia-se completamente disponível para colaborar com Amarante, participando em eventos, em conferências, dando o seu contributo na área da cultura. Nunca terá sido solicitada e, é nossa opinião, terá sido até alvo de “represálias” e a sua obra desvalorizada.

Mas Agustina era assim. Franca. E curiosa – outra característica que via nos amarantinos -, o que a levou a aceitar ser Diretora do Teatro Nacional e do O Primeiro de Janeiro e candidata à Presidência da Assembleia Municipal de Amarante.

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