Amarante e o turista apreendedor ou aprendente

Conjunto monumental das Igrejas de S. Gonçalo e S. Domingos (Foto AM).

Através da leitura deste artigo, proponho-vos uma viagem não só no tempo, mas através das perspetivas e dos conceitos que estão na base do tema que vos trago – Turismo em Amarante. Mas antes de iniciar a viagem, queria fazer-vos um enquadramento da situação.

Em setembro de 2017, a ideia que está na base do Stay to Talk – Instituto de Imersão Cultural, empresa de animação turística, programação e investigação local, foi reconhecida com o segundo lugar na categoria “Ideias com Futuro”, da 2ª edição do concurso “Tâmega Sousa Empreendedor – Onde as ideias se concretizam” promovido pela Comunidade Intermunicipal do Tâmega e Sousa (CIM-TS). 

Desta feita, há quase quatro anos, com o objetivo de colocarmos esta ideia de negócio em andamento, tivemos a necessidade de realizar visitas de campo, ou seja, ir para as ruas, ficar e registar tudo o que por nós era observado, evidencias estas necessárias para justificar o propósito da nossa intervenção. Entre outros, o centro de Amarante foi um dos lugares de observação, de análise e de recolha de evidencias ligadas ao turismo, área em que o Stay to Talk se propunha afirmar. 

Na altura a aposta no turismo era enorme, quer a nível nacional quer internacional, e isso era já bem evidente no nosso contexto. Assim, gostaria de partilhar um texto escrito, precisamente, na terça-feira, 26 de setembro de 2017 e que, ao ser revisitado, depois de tudo o que nos aconteceu, quer ao nível económico e social nos tocou e nos fez viajar. Apercebemo-nos de tempos distantes e de realidades que se tornaram extremas para esta área, pois deixamos de trabalhar num turismo de massas e para um turista passivo, para servir o nanoturismo e satisfazer turista ativo.  

De referir que, já na altura, o nosso foco era o turista ativo e ponderávamos servi-lo com formas comunitárias de ação. Assim sendo, somos a partilhar como nasceu a ideia de experiências de aprendizagem que agora se enquadram, perfeitamente, nos tempos pandémicos que decorrem. Boa viagem!

Terça-feira, 26 de setembro de 2017

“Melhor ano de sempre para o turismo português”. Títulos semelhantes a este têm sido escritos, ultimamente, para introduzir notícias de cariz bem animador para Portugal. Prevê-se que o impacto em 2017 chegará a mais de 30 mil milhões de euros (cerca de 16,6% do PIB nacional)[1]. Ou seja, é um dos setores mais dinâmicos e atraentes da nossa projeção económica e presença cultural.

Considerando os estrangeiros que vieram passar uma ou mais noites ao nosso país, segundo Economia Online (ECO, 15 fev. 2017), escolheram particularmente a região do Norte (+25,3%), só depois o Centro (+18,8%), o Algarve (+16,3%) e por fim a Área Metropolitana de Lisboa (+14,6%). Tal fenómeno tem-se vindo a comprovar em ligeiras transformações na vida de cada um de nós, nomeadamente, pelo (1) aumento do número de pessoas nas ruas mais representativas da terra; (2) pela maior procura dos cafés, dos bares, das tascas, dos restaurantes e das lojas mais pitorescas da região; (3) pelo escoamento dos produtos mais típicos da terra, assim como, (4) pela língua hibrida que por vezes se ouve aquando à tentativa de comunicação entre os nossos queridos visitantes e o nativo da região.

Ao ver estas mudanças quotidianas dou por mim a questionar sobre o motivo que moverá estas pessoas. Que motivo as levou a viajar? Quem são? O que pretendem? Que tipo de turista nos visitará?

Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE, 2016) o principal motivo que leva as pessoas a viajar, é o querer “visitar familiares ou amigos” (44,1% do total), em segundo lugar por motivos de “lazer, recreio ou férias” (43,8%) e por último por motivos “profissionais ou de negócios” (8,2%). De destacar que neste ano identificou-se um aumento de 9,3% nas deslocações por motivos de “lazer, recreio ou férias”, face ao ano anterior de 2015.

Amarante não é exceção e, tal como outras cidades do Norte de Portugal, tem vindo a receber um enorme número de visitantes, em férias ou em pausas de lazer. Segundo o registo realizado pela Loja Interativa de Turismo (LIT) de Amarante, no ano de 2015, foram cerca de dez mil forasteiros que visitaram a nossa terra. Como refere a página do município, a terra de Pascoaes pode estar perante uma maior expansão turística, isto porque também se deve ter em conta os turistas que visitam a cidade, mas que por qualquer motivo não contactaram a LIT. 

Tal cenário é hoje bem evidente aos nossos olhos, a Praça da República em Amarante ou o tão conhecido largo de São Gonçalo passou de uma praça quase deserta em dias de semana (memórias de infância) para uma praça com vida, com movimento, onde se pode descrever um barulho saudável de fundo (por agora) dos múltiplos passos que se fazem sentir e pelas diferentes línguas em que se comunica. São passos e vozes que se demoram por ali, a maioria das pessoas encontra-se integrada em grupos de alemães com o respetivo guia turístico, de espanhóis que chegam em autocarros, de franceses, de brasileiros e/ou de chineses.

No geral são pessoas com idades superiores a 50 anos e aparentam ser indivíduos descontraídos, devidamente equipados pela máquina fotográfica profissional ou semiprofissional, pelos tablets ou, simplesmente, pelos smartphones que registam o momento. Numa primeira análise podemos dizer que são turistas apreendedores, aqueles que pretendem apanhar, capturar o máximo de informação que podem do local registando-a. Aparentam algum poder económico, uns mais intelectuais que outros, mas todos com vontade de conhecer, de experienciar, de “ser turistas” como dizia Cecília Meireles[2] de desfrutar prazeres de ordem material (um hotel confortável, souvenirs, fotografias, compras…) (Mendes & Bueno, p. 226, 2013) todos com a ânsia de posteriormente, em contextos diferentes, poder afirmar “eu estive lá”.

Mas os turistas por amarante são algo mais, são corpos forasteiros que se movimentam sobre um chão de granito do século XVIII, que se demoram pelo largo, que se fascinam perante as paredes históricas do mosteiro de São Gonçalo, que lambiscam os doces regionais nas barracas da Alameda Teixeira de Pascoaes, que navegam pelas paisagens rurais e alegorias fluviais. 

Num segundo ângulo mais demorado de análise, não estaremos mais perante um tipo de turista aprendente – aquele que quer aprender algo novo? Aquele que quer sentir o local com os cinco sentidos e desta forma experimentar o calor do sol que lhe afaga a pele na esplanada histórica do Café Central, de sentir o sabor dos doces conventuais e/ou salgados regionais, de ensaiar uma peça regional em barro, de construir uma cesta de vime, de ver os socalcos do Rio Tâmega, a sua ponte em tempos romana e o reflexo das suas águas nas paredes lendárias gonçalinas? Um turista aprendiz, no sentido que refere Cecília Meireles, ou seja o de um viajante, aquele que busca de prazeres espirituais (beleza, aprendizado, contemplação) (Mendes & Bueno, p. 226, 2013), sem não esquecer que, ao final do dia este possa ter acesso a todo o conforto que lhe é possível.

Sem se aperceberem sigo um grupo de alemães, alguns entram na sapataria da rua cinco de outubro junto ao largo de São Gonçalo e entre eles disfarçadamente faço-me presente, quando de repente, oiço uma das visitantes questionar a dona da loja, no sentido de perceber como se diz “obrigado”? 

Situação caricata o registo deste acontecimento, pois no fundo é uma situação tão usual em contextos turísticos, e que acaba sempre por provocar largos sorrisos por parte dos presentes. Logo a seguir à explicação que lhe é dada, testemunha-se a mesma senhora turista a repetir cinco ou seis vezes o mesmo vocábulo no sentido de o assimilar, enquanto sai da loja a sorrir.

Pensem comigo: não será também a língua uma das necessidades e/ou exigências dos turistas aprendentes? Se é, e eu acredito que seja, atualmente não estamos a valorizar a língua e aproveitá-la para com ela promover experiências de aprendizagem com os locais os melhores conhecedores da terra.

Olhando para o idioma/língua como motivo impulsor de viagens de turismo, Portugal ainda não tem essa resposta para oferecer, embora isto do turismo idiomático seja considerada uma oportunidade para Portugal (Silva, 2014). 

Estou convencida de que um lugar só estará “apto a atender turistas, e recompensar os investimentos de viagem, se [este] lhes (…) [proporcionar] um contato sincero com (…) duas instâncias: terra e povo” (Mendes & Bueno, p. 229, 2013). Por outras palavras, é certo que Amarante só será uma cidade verdadeiramente boa anfitriã, se souber receber o turista aprendente, se permitir que o seu povo comunique, diretamente, não só com a terra e respetivos encantos, assim como, com o seu povo e sua cultura, nomeadamente, a sua língua e modos de vida.

Referências Bibliográficas

MENDES & BUENO. Cecília Meireles e a crónica de viagem: roteiro para turistas aprendizes. In Revista Estação Literária, LondrinaVol.11, pp.225-236, jul.2013.

SILVA, H. (2014). O turismo idiomático de língua portuguesa: uma oportunidade para Portugal. (Dissertação de Mestrado), Departamento de Economia, Gestão e Engenharia Industrial da Universidade de Aveiro.

[1] Ver em http://www.portugalglobal.pt/PT/PortugalNews/Paginas/NewDetail.aspx?newId=%7B4E4CA107-B3E3-400F-B9E3-AF11BCD1E3E6%7D

[2] Uma poetisa e cronista brasileira que escrevia sobre turismo na categoria de crónicas de viagem. Escreveu obras como: “Crónicas de Viagem”, “Três Marias de Cecília”, entre outras o livro “Episódio Humano (2007)”.

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