Há sempre uma primeira vez para tudo: o primeiro dia de escola, a primeira comunhão, o primeiro namorado, o primeiro filho e assim sucessivamente.
Ninguém esquece o primeiro dia de escola. Eu, muito menos: tive dois! Aos cinco anos, como aluna; aos vinte e três, como aprendiz de professora. Hoje, recordo com ternura a minha irreversível entrada na carreira.
Era num tempo, há cerca de trinta anos, em que muitos podiam “dar aulas”, o que, para mim, não é sinónimo de se ser professor (lembro-me de me terem dito um dia, alguns anos após estes momentos de início de profissão que agora recordo: “Ai dá aulas?!”, ao que respondi com o desdém de quem sente – ilusões de principiante! – que cumpre uma missão: “Não! Sou professora.”). Na realidade, era ainda estudante na Faculdade de Letras do Porto, e muito jovem. Como tal, ou talvez por isso mesmo, parecia-me fundamental “vestir o hábito”, pois não ajudaria a “fazer o monge”? Não ajudava, mas não o sabia, e a insegurança era assustadora. Por isso, encarnei a personagem: vesti um fato preto (na verdade, o da farda académica, o único que possuía), apanhei o cabelo e arranjei (compraria?) uma pasta preta tão séria quanto o fato e quanto queria parecer. Descurei os óculos… mas via tão bem!
Quando saí de casa para a minha primeira vez, minha mãe acompanhou-me até onde o olhar ansioso lho permitiu, tão temerosa quanto eu. Meu pai costumava confidenciar-lhe a sua pouca fé: nunca conseguiria “domar as feras”, era mole, era tímida, tinha um ar demasiado frágil! Felizmente, só muito mais tarde tive conhecimento das suas inquietações, quando já tinha dado provas.
Curiosamente, não me recordo da primeira aula propriamente dita, apenas tenho memórias vagas desse primeiro dia na Escola Infante D. Henrique, no Porto. Sobretudo do medo, muito medo, daquele que nos deixa com dores de barriga. Não sei como ultrapassei a barreira, ou seja, entrar na sala, apresentar-me, não fazer um papel ridículo. Mas fi-lo, provavelmente, “correndo para a frente”, arrumando o sorriso sob a capa da frieza e falando, falando para preencher o espaço e o tempo que eram certamente imensos até ao toque da campainha.
A experiência não terá sido traumática, uma vez que sou professora há quase três décadas. Neste período de tempo, foram muitas as histórias, os rostos e os olhares que cruzaram a minha vida; para o bem e para o mal, fizeram de mim um pouco do que hoje sou. Não saberei dizer se, para além do que os currículos estipulam, os meus olhares, os meus gestos, as minhas reprimendas e os meus incentivos também terão deixado qualquer marca, algum vestígio (não me atrevo a dizer uma pequena luz), nos caminhos que os meus alunos traçaram. Se não aconteceu, foi certamente porque me faltou competência.
Será ingenuidade pensar que um professor tem ou deveria ter um papel marcante na vida do ser humano? Talvez. Se a velha imagem do mestre, detentor de uma imensa sabedoria aliada a uma vasta experiência, inesgotável fonte de conhecimento, respeitável e respeitado por isso mesmo, está hoje ultrapassada, o papel do professor não perdeu relevância. Para não falar, como é banal ouvir-se dizer, do seu papel de pai/mãe, psicólogo e assistente social, o docente do séc. XXI tem de estar preparado para desenvolver atividades que promoverão aprendizagens e competências nas mais diversas áreas: estilos de vida saudável, prevenção rodoviária, consciência ecológica, educação financeira, educação para os média, educação para a sexualidade, educação… educação… educação…
A candidata a professora, com o seu fato a rigor, não imaginava a aventura (será uma peregrinação?) que a esperava…
E se soubesse? Faria provavelmente a mesma escolha, porque, afinal, talvez educar seja uma missão.

