Amarante: a Gafaria de São Lázaro

iluminura do códice Speculum historiale de Vicente de Beauvais (c. 1184-1264), fl. 373r.

Celebrou-se recentemente (a 21 de março) o Dia de S. Lázaro. A propósito da efeméride, recordamos a Gafaria de São Lázaro, no contexto das Instituições de Assistência Social do Portugal Medievo.

«[São Francisco] havia ordenado que os frades da sua Ordem, andando pelo Mundo, e morando em qualquer parte, servissem os leprosos por amor de Cristo, que por nosso amor quis ser reputado leproso».

Florinhas de São Francisco. Cap. XXV. 1328 – 1343, Fr. Hugolino de Monte Jorge.

Prestar assistência aos mais desfavorecidos é uma das preocupações da Humanidade desde os tempos mais recuados da História. Porém, em nenhuma Época anterior à Idade Média, a causa social mereceu tanta atenção. 

Embora os cuidados de saúde, a hospitalidade e os actos de caridade sejam, pelo menos desde a Antiguidade Clássica, considerados actos altruístas, a assistência social ganha novos contornos pela ideologia cristã medieval que a considera uma das vias possíveis para a expiação dos pecados e salvação da alma.

A atenção para quem mais precisa viria a ser uma das recomendações recorrentes da moralidade cristã e terão sido estas as principais razões para a instituição de alguns estabelecimentos de caridade e saúde, os quais partem da iniciativa de comunidades religiosas, eclesiásticos e membros da família real ou da alta aristocracia. 

Entre as múltiplas instituições que surgem na Idade Média, destacam-se as albergarias/hospitais, os recolhimentos, as mercearias e as gafarias. 

Por norma, estas casas pias instalam-se ao longo das principais vias de comunicação, em local próximo ou nas imediações de núcleos urbanos, pois era nas ruas e ao longo das vias que se podia acudir e acolher quem mais precisava.  Em Portugal, as primeiras instituições surgem ainda durante o período condal e vão aumentando de número ao longo de toda a Idade Média. 

Embora alguns soberanos portugueses sejam os principais responsáveis pela fundação de algumas casas, a sua iniciativa não apresentava um caracter estatal, mas sim do foro particular, enquanto elemento representativo da piedade, da devoção, da espiritualidade e da caridade. Servem de exemplo, as instituições criadas pelas rainhas D. Mafalda de Sabóia, D. Isabel de Aragão (Rainha Santa) e D. Beatriz de Castela, ou mesmo, os bens deixados em legado dos reis D. Afonso Henriques, D. Sancho I, D. Afonso III, D. Dinis e D. João II. 

Neste contexto, surgem as primeiras gafarias[1], que têm por objectivo o acolhimento de todos os doentes com lepra[2], designados de gafos, lazarentos ou leprosos. 

Tudo leva a crer que as primeiras gafarias terão partido da iniciativa das rainhas de Portugal que viam o cuidado dos leprosos como um acto de piedade e caridade extremos, seguindo o exemplo do próprio Jesus Cristo ou de alguns santos franciscanos, tais como São Francisco de Assis ou Santo António de Lisboa.  

“Também em Amarante foi instituída uma leprosaria, a Gafaria de São Lázaro, situada nas imediações do Ribeiro do mesmo nome, em local próximo, mas fora da primitiva malha urbana, junto à Estrada do Porto (actuais Ruas Pe. Paulino Cabral e da Ponte Seca). Esta localização estava em sintonia com as demais gafarias conhecidas em Portugal (…)”.

Teria sido nesta zona, junto ao ribeiro de S. Lázaro, que existiu a Leprosaria de Amarante (Foto AM).

Segundo a ideologia medieval, os leprosos eram devorados pelo ardor sexual e, por essa razão, o seu corpo era o reflexo da podridão das suas almas e das ofensas contra Deus. Frequentemente os gafos eram perseguidos e afugentados à pedrada ou com cães. Na maioria das vezes, eram também obrigados a retirarem-se das povoações e passavam a viver retirados das comunidades, em cavernas, nos bosques ou nas montanhas, onde permaneciam com uma alimentação muito limitada. O próprio vestuário andrajoso, à base de lãs mal desinfectadas e curtumes mal curtidos, contribuíam ainda mais para a proliferação desta e de outras doenças cutâneas. Ao contrário de outros países europeus, não se sabe se em Portugal, os leprosos eram obrigados a utilizar vestuário específico e sinetas para assinalar a sua aproximação. 

As gafarias que, por norma, tinham São Lázaro por padroeiro[3], localizavam-se fora das povoações, mas junto às principais vias de comunicação e, de preferência, nas imediações de cursos de água corrente. Esta localização específica permitia que o leproso pudesse mendigar e receber, embora com alguma relutância, alimento e esmola. A água corrente facilitava a higiene e o tratamento das chagas. A localização fora dos núcleos urbanos contribuía ainda para o isolamento dos doentes e para a irradicação da doença.

Estas instituições poderiam divergir quanto à dimensão e ao regulamento, existindo gafarias onde os doentes viviam em reclusão sob rigorosas regras, recebendo apenas a ração diária com que se deveriam alimentar. Outras, semelhantes a casas de convalescença, onde o doente disponha de cuidados de saúde, higiene, vestuário e alimentação. Havia ainda gafarias, de menor dimensão, que permitiam o isolamento do doente e assim manter afastado ou minimizado o contágio na comunidade. 

Os leprosos somente poderiam sair da gafaria em circunstâncias muito específicas, como em dias feriados, para assistir à missa, confissão e comunhão, devendo regressar de imediato à instituição. Era-lhes, também, permitido sair em determinados dias para pedir esmola.   

Também em Amarante foi instituída uma leprosaria, a Gafaria de São Lázaro, situada nas imediações do Ribeiro do mesmo nome, em local próximo, mas fora da primitiva malha urbana, junto à Estrada do Porto (actuais Ruas Pe. Paulino Cabral e da Ponte Seca). Esta localização estava em sintonia com as demais gafarias conhecidas em Portugal. Fora do aglomerado urbano, era possível manter o distanciamento e o isolamento dos doentes face aos demais moradores. A curta distância da povoação e o posicionamento junto a uma das principais vias de comunicação permitia uma melhor assistência aos doentes que assim granjeavam mais algumas acções de beneficência.

À luz da documentação conhecida, a Gafaria de São Lázaro estaria em pleno funcionamento no ano de 1269, data do primeiro documento que confirma a sua existência, designadamente uma disposição testamentária, seguindo outras nos anos seguintes. 

Estas doações parecem estar em sintonia com os legados que eram feitos, à época, a outras gafarias e que de certo modo, materializam a espiritualidade dos doadores. Para além de doações regulares de alguns beneméritos, a gafaria, segundo as inquirições de 1348, havia ainda sido dotada de propriedades que assim garantiam a sobrevivência e o cuidado dos doentes.

Do edifício, ou melhor dos edifícios que constituíam a Gafaria de Amarante, apenas resta actualmente a sua capela, dedicada a São Lázaro. Os demais ter-se-ão perdido na voragem dos tempos e em resultado das mutações urbanas que aconteceram no local. Sabe-se também que, em 1934, a capela fora trasladada para a actual localização, por ser frequentemente acometida pelas enxurradas das enchentes do Ribeiro de São Lázaro. 

Com base em estudos realizados noutras gafarias portuguesas, sabe-se que a de Amarante seria dotada de enfermaria, cozinha, refeitório, e um local de água corrente, neste caso um ribeiro. Todos os edifícios seriam cercados por um muro e no interior existiam hortas, pomares e jardim, destinados ao cultivo e produção de frutas, legumes e aromáticas para a alimentação e tratamento dos doentes. Todos os espaços deveriam dispor de dispositivos que evitassem o contacto entre os doentes e os cuidadores. Nestas instituições existia também um espaço para dar sepultura a todos os leprosos que aí falecessem.

Os gafos institucionalizados deveriam respeitar escrupulosamente os regulamentos da casa, que mencionavam os seus direitos e obrigações como, por exemplo, a indicação dos dias, horas e contextos em que poderiam sair da gafaria; os dias em que lhes seriam fornecidos alimentos especiais, tais como a carne, o peixe, o mel e o azeite; a obrigação de se manterem isolados; preservarem a sua castidade, etc…

Na capela realizava-se, semanalmente, uma celebração eucarística e a gafaria era administrada pela Câmara da Villa d’Amarante, constituída por Juiz (correspondente ao actual cargo de presidente) e vereadores. 

Em meados do Séc. XVI, a gafaria era detentora das ruínas de uma capela dedicada a Santo Estêvão (localizada no entroncamento das actuais Ruas Carlos Amarante e Pe. Paulino Cabral) e possuía 43 propriedades emprazadas que rendiam anualmente 8 900 reis. A este rendimento juntavam-se as receitas recebidas das acções de caridade que rendiam 747 000 reis e os peditórios 2 000 reis, perfazendo um rendimento anual de 757 900 reis. 

“(…) com a construção do Novo Hospital da Misericórdia, a velha gafaria fica deserta de funções e ter-se-á arruinado. Em 1934, como acima foi mencionado, procedeu-se à trasladação da capela mas as demais ruinas terão ficado no local”.  

A 6 de Setembro de 1575, D. Sebastião autoriza, à semelhança de outras leprosarias do Reino, a doação da gafaria, juntamente com os seus legados e rendimentos à Misericórdia de Amarante, por considerar que esta instituição estaria melhor preparada para cuidar e socorrer os mais necessitados. O acto de doação viria a acontecer a 10 de Dezembro daquele mesmo ano.

À data, como já não se conheciam casos de lepra em Portugal, sendo os últimos do Séc. XV, a gafaria irá ser utilizada como albergaria para peregrinos e viajantes humildes; e como hospital para o tratamento e o cuidado dos doentes. Num documento de 1620, consta ainda que a Misericórdia de Amarante, tinha dificuldade em acolher, nos seus espaços, todos os peregrinos desfavorecidos que procuravam pernoita, aquando das festas e romarias de São Gonçalo. Foi também por esta razão que a Misericórdia viria a receber a Albergaria do Covelo do Tâmega. 

Entretanto, com a construção do Novo Hospital da Misericórdia, a velha gafaria fica deserta de funções e ter-se-á arruinado. Em 1934, como acima foi mencionado, procedeu-se à trasladação da capela mas as demais ruinas terão ficado no local.  

Actualmente a Capela de São Lázaro apresenta uma planta rectangular, constituída por dois corpos, correspondentes à nave e à galilé. As coberturas, excepto as da galilé que são de três, são de duas águas em telha de cano. A fachada principal, em empena, é rematada por cornija, encimada por cruz latina e ladeada por pináculos piramidais. A fachada apresenta-se bastante depurada com apenas um vão para porta em arco de volta perfeita. O interior é igualmente desprovido de qualquer elemento decorativo, podendo ver-se retábulo neoclássico com a imagem de São Lázaro.

Referências Bibliográficas:  

CAPELA, José Viriato e BORRALHEIRO, Rogério; As Freguesias do Distrito do Porto, nas Memórias Paroquiais de 1758; Braga; Edição dos Autores; 2009.
CRAESBEECK, Francisco Xavier da Serra; Memórias Ressuscitadas da Província de Entre-Douro-e-Minho, no ano de 1726, Vol. I; Ponte de Lima; Edições Carvalhos de Basto (edição fac-similada); 1992. LOPES, Maria José Queirós; Inventário do Arquivo da Santa Casa da Misericórdia de Amarante; Amarante; Santa Casa da Misericórdia de Amarante; 1992.
MACHADO, António de Sousa; Amarante Medieval; Edição do Autor; Amarante; 1979.  
MAGALHÃES, Arlindo de; Amarante Medieval em Documentos da Colegiada de Guimarães, in Actas do I Congresso Histórico de Amarante, Volume I, Tomo I; História, Politica, Sociedade e Economia; Amarante; Câmara Municipal de Amarante; 2000.
PEREIRA, Nuno Moniz; A Assistência em Portugal na Idade Média; CTT Correios de Portugal; Lisboa; 2005.    
PINHO, José; Materiais para o Estudo do Povo Amarantino: A Gafaria de São Lázaro in Semanário Flor do Tâmega, Ano 48, nº 2 457; Amarante; 4 de Fevereiro de 1934. 
RODRIGUES, Ana Maria; Gafos e Gafarias no Portugal Medievo, Resumo da Intervenção Proferida na NHMOM; 23 de Fevereiro de 2013. 
SILVEIRA, José Augusto da Silva et LOPES, Maria José Queirós; Misericórdia de Amarante Contribuição para o seu Estudo; Amarante; Santa Casa da Misericórdia de Amarante; 2009.

[1] – Também designadas de leprosarias, leprarias, lazaretos, leprosários ou Ordens de São Lázaro.

[2] – A Lepra é uma doença contraída pelas bactérias Mycobacterium leprae e Mycobacterium lepromatosis, conhecida desde o Antigo Egipto, comum no Próximo Oriente, mas que só se viria a manifestar na Europa Ocidental após as primeiras cruzadas cristãs à Terra Santa (1096-1099).

[3] – Segundo a tradição cristã, São Lázaro, amigo íntimo de Jesus Cristo, padecera de lepra e por esta razão se torna no Padroeiro dos Leprosos.  

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