António Cardoso em entrevista a AMARANTE MAGAZINE: “Temos que ser rigorosos”

António Cardoso com Jorge Sampaio na inauguração, no MMASC, da exposição de Paula Rego (9º Prémio Amadeo).

Em 1998, na edição número 30 de AMARANTE MAGAZINE, publicámos uma entrevista com o Professor António Cardoso, falecido recentemente, que era, já então, Diretor do Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso (MMASC) e, nessa qualidade, responsável máximo pela sua programação. Curiosamente, 23 anos depois, aquela entrevista mantém toda a atualidade, sendo (re)publicada numa altura em que o MMASC parece passar por um polémico processo de reconfiguração conceptual. Eis, na íntegra, o texto da referida entrevista.

ANTÓNIO CARDOSO, 66 anos, é um dos mais respeitados intelectuais de Amarante, tendo o seu nome ligado a inúmeros acontecimentos e eventos culturais. Tem residência atual em Vila Nova de Gaia, sendo Professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Da sua formação académica consta a frequência da Escola Superior de Belas Artes, Licenciatura em História e Doutoramento em História da Arte, com a dissertação “O Arquiteto José Marques da Silva e a Arquitetura do Norte do País na primeira metade do Século XX”.

Diretor do Museu Amadeo de Souza-Cardoso, depois de ter presidido ao respetivo Grupo de Amigos, tem vindo a revalorizar e a tornar mais visível aquele espaço, através de iniciativas várias, patentes na elaboração de um catálogo (que não existia) ou na reposição, o ano passado, do Prémio (bienal) Amadeo de Souza Cardoso. Falou com AMARANTE MAGAZINE.

O Professor António Cardoso costuma dizer que o Museu nasceu à maneira dos séculos XVIII e XIX, uma espécie de gabinete de curiosidades. Hoje, porém, a componente etnográfica não tem grande expressão?
Não. Há algum material – como “Os Diabos”, as antigas medidas municipais, algum mobiliário, azularia, faianças e a própria arqueologia – para a qual eu encontro, há muitos anos, um local, o Solar de Magalhães, que deveria transformar-se num Museu de História da Cidade, de História Local. Os museus de Arte ganharam, hoje, uma limpidez de leitura que não se compadece com uma ideia cumulativa. 

Por vezes, tem-se a ideia de que a Amarante real não se identifica com o Museu, por não ver representadas nele as suas vivências, o seu património, tradições, faltando essa componente etnográfica.
Que não tem lugar aqui. É outro tipo de museu que poderia caber aqui se tivéssemos um património importantíssimo e não houvesse alternativas sensíveis. Um museu com uma componente rural e atento a ofícios, acho que poderia ter lugar em Amarante, mas deveria ser criado onde essa ruralidade é mais óbvia e onde se manifeste a função pedagógica do “sítio”.

Nunca na cidade?
Não tem que ser na cidade. E há exemplos que o desaconselham. Veja, o Museu Etnográfico de do Porto morreu por se encontrar dentro da cidade. Não tinha visitantes nem espaços adequados à sua vocação.

O Museu Amadeo de Souza-Cardoso sendo, embora, uma referência, que lugar é que ocupa hoje em termos de arte moderna, no país?
É um museu ainda com muitas lacunas, dado que não temos poder aquisitivo para completar hiatos geracionais. Nesse aspeto, não pode, por exemplo, ser comparado com a coleção Berardo, instalada em Sintra, e que contou, logo à partida, com seis milhões de contos. Poderemos adquirir uma ou outra obra, mas nunca será em função de grandes dotações que faremos expandir o museu.

Mas a ideia de que o museu tem uma grande importância no contexto nacional, é verdadeira…
É verdadeira. Simplesmente, entretanto, surgiram outros museus, como o de Serralves, que é um Museu Nacional, que está a ser instalado, em parte, com o dinheiro de todos nós, logo com outra disponibilidade financeira, e, necessariamente, com outras exigências.
Mas o Museu Amadeo de Souza-Cardoso não deixa de ser um dos museus importantes do País, que, hoje, deve ser visto também em função da Arquitetura. Sabendo nós que o Convento, onde está instalado, começa a ser construído em 1546; que nos finais do século XVIII se construía ainda o terceiro claustro; que em meados do século XIX o terceiro claustro era reformulado para receber as escadas que dão acesso à Câmara; e que nos finais dos anos setenta o arquiteto Alcino Soutinho aqui começa a fazer a intervenção que se conhece, então temos uma História viva da arquitetura que o Museu também proporciona, desde o século XVI até ao século XX. Estão aqui momentos significativos da Arquitetura, que passam pela Renascença, Maneirismo, Barroco, Neoclassicismo e Modernismo.

Crescer, porém, continua a ser um objetivo do Museu.
Claro, mas para isso a Câmara deveria ficar no edifício do Convento apenas com instalações destinadas à representação. Os serviços teriam de ocupar outros espaços, o que é, aliás, o mais lógico e está a ser feito pela edilidade e por outras autarquias.
Quanto a atingir uma dimensão internacional, não é esse o objetivo do Museu. Outros estão a fazê-lo bem e devem continuar. Por nós, basta-nos que o Museu continue nas figuras fundamentais  que tem: Amadeo de Souza-Cardoso e António Carneiro que são duas figuras importantes da modernidade em Portugal. António Carneiro porque faz muito bem a passagem do séc. XIX para o séc. XX e mostra aspetos fundamentais do Simbolismo português; e Amadeo que é o homem das ruturas essenciais.

Mas nem todas as fases de Amadeo estão em Amarante.
Não. Falta-nos a última fase de Amadeo, a fase dadaísta. São cinco ou seis obras, pertença da Gulbenkian. Mas podemos tê-las parcialmente, em depósito, quando o Museu ganhar uma imagem de segurança, de confiança, de qualidade de instalação das obras.

O que é que falta para se conseguir essa imagem?
Temos que continuar a afinar o Museu, que era um instrumento que estava desafinado, valorizando e qualificando os espaços em termos de segurança, climatizarão, iluminação e exposição.

António Cardoso (de cachecol branco) com Graça Morais, no MMASC, na inauguração da exposição da pintora, em 2007.

Na valorização do Museu insere-se, presumo, a reposição do Prémio Amadeo de Souza-Cardoso.
O que se pretendeu foi, de facto, repor um Prémio que o Estado Novo criou, que depois foi deixando cair, e que supõe uma constância. Com ele presta-se homenagem ao Artista e, em função desse mesmo Prémio, faz-se com que as obras premiadas ou o artista premiado venham enriquecer o Museu.
A forma como o criámos constitui uma mais-valia, já que lhe introduzimos uma nuance, instituindo também Grande Prémio Amadeo de Souza-Cardoso que nos permite premiar uma vida, uma obra, como foi o caso, este ano, de Fernando Lanhas, uma figura marcante da arte portuguesa. Na outra vertente, pela via democratizante  do concurso, é bom frizá-lo, há a possibilidade de premiar uma obra de um artista.

Qual é a política do Museu em termos de exposições? Ou seja, como é que se acede ao Museu?
O Museu tem, fundamentalmente, três espaços. O da exposição permanente, que pode ser desmontada se se justificar, como aconteceu para a realização do Prémio Amadeo de Souza-Cardoso; a salada capítulo, para exposições temporárias, e a mini-galeria, logo na entrada do Museu. Temos procurado qualificar estes espaços segundo conceitos de hierarquização, até para credibilizar a imagem do Museu e veicular junto dos artistas a ideia de que eles ficarão bem no próprio Museu, se for julgado oportuno. Se não tivéssemos critérios, se banalizássemos o Museu, também não seria fácil credibilizarmo-nos perante o público e as instituições, das quais queremos patrocínios e apoios.
Mas, se estamos a ser rigorosos, é em nome de figuras tutelares, das nossas principais referências, que são Amadeo, António Carneiro, Acácio Lino, Pascoaes…
E dada a dimensão destas figuras temos que ser coerentes. Fundamentalmente procuramos balizar o acesso aos espaços pelo currículo do artista, pela formação académica, pelas exposições em que tem colaborado, pelos percursos em que participou (e pelos respetivos júris a que se submeteu) e pela qualidade e novidade das propostas. Em função da hierarquização dos espaços, os critérios de exigência são variáveis e, naturalmente, na mini-galeria eles são menores, embora sem determinadas cedências.
Depois, há ainda o primeiro claustro e o Posto de Turismo, espaços interessantes, virados, por exemplo, para jovens em início de carreira. E para estes a primeira coisa que há a fazer é “ir às batalhas”, a concursos, a exposições coletivas, que é onde se faz currículo. Há que construir pelos alicerces.

*Peça ATUALIZADA em 7 de junho.

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