António Silva: a vida tem mais de cem anos

O primeiro emprego de António Silva, aos 10 anos, foi na empresa (a dar os primeiros passos) Abreu & Cia.

O Senhor António da Silva celebrou, em dezembro de 2018, um século de vida. No próximo mês de dezembro, terá 102 anos. Vive sozinho no seu apartamento, em Amarante, é um homem saudável e autónomo. Feliz com a vida, ainda toca acordeão, guitarra e órgão. O seu “percurso” é um volumoso livro de estórias, algumas das quais partilhou connosco.

António da Silva, prestes a fazer 102 anos, é a personificação do mais cativante livro de histórias de Amarante. Independentemente do tópico que se lance, o Senhor António da Silva recua no tempo e conta-nos tudo de quanto se recordar. E conta com o gosto de quem sabe o que é ser feliz e tem consciência de que o é.

Nasceu a 13 de dezembro de 1918, no lugar da Ribeira, na Estradinha, em Amarante, e foi o segundo de seis filhos – três rapazes e três raparigas. Em 1920, com apenas dois anos de idade, António da Silva muda-se, com a família, para Santo Tirso, por força do emprego do pai, guarda-fios de profissão, numa altura em que naquela zona escasseavam os telefones para além dos públicos, e, por isso, havia muito trabalho a fazer. Havia o telefone de Narciso Ferreira, de Riba de Ave, o grande industrial e benemérito que tanto marcou a sua vila e pouco mais.

As recordações de Santo Tirso passam pela sua casa em Fontiscos, com um pedaço de terra de onde colhia fruta e vinho, como seria de esperar numa aldeia da época. A família não faltava à festa da Senhora das Dores, na Trofa, para onde viajava de tipoia ou breque, os transportes da época que eram versões melhoradas das simples carroças.

António Lago Cerqueira e o nascimento da Tabopan

Em 1924, a família regressa a Amarante. Ainda hoje se vê o fascínio nos olhos do Sr. António da Silva ao recordar a sua vinda e a descoberta de uma cidade cheia de luz e de automóveis. Não será difícil para nenhum de nós imaginar o entusiasmo de uma criança de seis anos a regressar para uma cidade assim. Enquanto Santo Tirso, e até o Porto, estavam ainda mergulhados na escuridão, Amarante revelava-se mais avançada no abastecimento de energia elétrica e na riqueza das suas gentes, que se manifestava com o número de carros que já circulavam pelas ruas e a existência, até, de carros de aluguer.

A “fábrica e serração” de madeiras que existia em Amarante nessa altura e a visão, dinamismo e iniciativa do Presidente da Câmara de então, o Dr. António do Lago Cerqueira, são as causas apontadas pelo Sr. António da Silva para tamanho avanço civilizacional. Ainda hoje, do alto dos seus lúcidos 101 anos, (102, em breve) o Sr. António afirma, sem receio, que o Dr. António do Lago Cerqueira foi o Homem mais importante para Amarante.

Dos tempos da escola recorda que bastava ter a quarta classe e um estágio para se ser Professor. Lembra, com admiração, o colega de carteira, Teixeira de Queirós, e as conversas sobre política que o mesmo tinha com o Professor Pereira, que profetizava que o menino só não se tornaria Doutor porque vinha de famílias sem posses. Mas emigrou para o Brasil, conseguindo a distinção de Doutor Honoris Causa, em Pernambuco.

O interesse do Sr. António da Silva pela leitura despertou cedo. O primeiro livro que leu foi a obra “Mais Além da Morte e do Amor”, de Albino Forjaz Sampaio, um livro de máximas e pensamentos. Mas a satisfação aumentou-lhe a velocidade de leitura e numa só noite percorria entre cinquenta a cem páginas de histórias e/ou pensamentos. 

A adolescência apurou-lhe o gosto pelos romances e as obras de Camilo Castelo Branco fizeram-no interrogar-se se não haveria em Amarante quem escrevesse assim. Ao partilhar esta inquietação, seu pai decidiu apresentá-lo ao seu amigo Teixeira de Pascoaes. As conversas com o poeta marcaram-no e mudaram-lhe a alma.

Cedo percebeu que era uma escrita diferente, mas sem conseguir logo entendê-la. O próprio Teixeira de Pascoaes dizia-lhe que ele era ainda muito novo para entender. E acrescentava: “a minha poesia só será verdadeiramente compreendida daqui a cinquenta anos”. O Sr. António da Silva não precisou de tanto tempo para a perceber e admirar, de tal forma que, ainda hoje, consegue recitar, de cor, vários dos seus poemas.

Talhado para ser guarda-fios

O primeiro emprego do Sr. António da Silva, aos 10 anos de idade, concluído o ensino primário, foi na empresa Abreu & Cia., como moço de cola. Foi ainda no início do projeto, quando se faziam apenas móveis e os funcionários da empresa eram o proprietário, os filhos e alguns marceneiros, que vinham da Lixa. 

A primeira oficina foi na rua do Seixedo, numa casa que ainda lá permanece. Felisberto de Abreu, também moço de cola, e José de Abreu eram os filhos do fundador da empresa, Agostinho Gonçalves de Abreu. 

Por essa altura, as minas de Vieiros fecham e vão a leilão. Das minas veio o Sr. Magalhães que propôs sociedade ao Sr. Agostinho Gonçalves de Abreu e, com a máquina, uma Garlopa Universal Danckaert que trouxe consigo, veio a mudança para umas instalações maiores, na Rua Cândido dos Reis, no prédio de Agostinho Pinto da Pinha, onde hoje encontramos as lojas da Novélia. O sargento Inácio também se juntou a esta sociedade, ficando encarregue da “escrita” da empresa.

Com a guerra civil de Espanha, em 1936, a fábrica começa a produção de urnas. Já com 18 anos nessa altura, o Sr. António da Silva tinha passado por vários ofícios dentro da empresa e era homem de confiança da família, mas este não era o trabalho que o realizava.

José de Abreu tornou-se sócio do pai e foi o fundador da Tabopan. O Sr. António da Silva não chegou a trabalhar na Tabopan. Por essa altura já tinha abandonado a fábrica para seguir a profissão para qual achava (e continua a achar) que estava talhado.

Guarda-fios era profissão que estava destinada ao Sr. António da Silva. Não apenas porque tinha sido também o emprego do pai, mas antes porque foi a ocupação que verdadeiramente o realizou. E essa realização vê-se na forma como fala das peripécias pelas quais passou durante o seu percurso. 

Por ser guarda-fios, pôde conhecer o Norte de Portugal da forma mais bonita possível, que é lidando com as gentes dos diferentes locais. Ao acompanhar as terras no seu quotidiano, conseguiu perceber também os seus hábitos mais genuínos e os rituais mais simples. O Minho, em particular, ficou-lhe no coração.

Por entre os conflitos com que lidou na sua profissão, e que todos nós podemos imaginar, já que falamos em fios e postes que passam por terrenos de diversos proprietários, garante que nunca cedeu a pressões nem subornos, mas também nunca quis aborrecer-se com ninguém. A honra e a retidão moral são algo que verdadeiramente presa.

Música no coração

O pai do Sr. António da Silva preocupou-se em dar um bom emprego a cada filho, enquanto a mãe os influenciou com a vida religiosa. O Sr. António da Silva agarrou a oportunidade do bom emprego e seguiu o exemplo de proximidade com a Igreja da mãe. A bíblia que o avô lhe deu ainda o acompanha, apesar das folhas amarelecidas pelo tempo. As orações diárias fazem-se pelos que já partiram e pelos que ainda cá estão. Seguindo o exemplo dos pais, também o Sr. António da Silva quis proporcionar aos seus filhos – um casal – uma vida melhor, ao apostar na sua educação e ambos se formaram.

A música está também muito presente na vida do Sr. António da Silva. Desde cedo que acompanhava a mãe nos coros da Igreja, aprendeu a tocar guitarra praticamente sozinho, juntando-lhe o órgão e o acordeão, e ainda hoje não perde uma oportunidade nem rejeita um desafio para tocar e cantar. 

Quem conta mais de um século de vida já teve de se despedir de vários ente-queridos. Por entre marcas e recordações que ficam, o Sr António foca-se sempre no que é positivo e o faz sorrir nostalgicamente. Recorda os vários episódios da sua vida com uma lucidez admirável e uma memória irrepreensível. Recita longos poemas sem hesitação qualquer e com uma excelência notável. 

O Senhor António Silva teve a profissão que queria ter – guarda-fios – e acredita que, por isso, por ser feliz no que fazia, conseguiu chegar aos três dígitos na idade. Se pudesse, ainda hoje era guarda-fios. Conta-nos que se cruzou com pessoas maravilhosas. A forma como nos fala dos outros leva-nos a crer que “é dos seus olhos”.

O Sr. António da Silva tem 100 anos e mais de 1001 histórias para contar. Conversar com ele é viajar na História com quem a viu e viveu. E que viagem maravilhosa!

Este texto, agora republicado, integrou a edição 37 (em papel) de AMARANTE MAGAZINE.

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