As Origens das Festas do Junho em Amarante

Pormenor do recolher da procissão que encerra as Festas do Junho, com a chegada à Igreja do andor de S. Gonçalo (Foto AM).

Vários autores são unânimes a afirmar que São Gonçalo de Amarante é, no Norte de Portugal, o santo português que, a seguir a Santo António de Lisboa, goza da maior devoção popular e que as suas grandes festas, as Festas do Junho, são das maiores e das mais impressionantes Romarias de Portugal! 

Breve Biografia de São Gonçalo de Amarante

Apesar de muitas incertezas, a tradição e vários hagiógrafos afirmam que São Gonçalo foi um varão pertencente à nobre família dos Pereiras, nascido no Paço de Arriconha, freguesia do Divino Salvador de Tagilde – Vizela, por volta de 1187, e herdou de seus pais a nobreza no sangue e grandeza na Fé. 

Desde a mais tenra idade foi educado nos bons princípios cristãos e, quando atinge a mocidade, opta por uma carreira eclesiástica, estudando as primeiras letras no Mosteiro Beneditino de Santa Maria de Pombeiro de Ribavizela e daí terá prosseguido os seus estudos no Paço Arcebispal de Braga, onde viria a ser ordenado sacerdote.  

Enquanto sacerdote, teve a seu cargo a Paróquia de São Paio de Vizela e, algum tempo depois, viria a ingressar na Colegiada dos Cónegos de Santa Maria da Oliveira em Guimarães. 

Passados alguns anos, não satisfeito com a vida paroquial que levava e ardendo no desejo de conhecer e de percorrer os lugares mais Santos do Cristianismo, decide encetar uma peregrinação a Roma para estar junto dos túmulos dos Apóstolos Pedro e Paulo, seguindo, depois, para a Palestina para ver com os próprios olhos os locais percorridos e vividos por Jesus Cristo. 

Após catorze anos de peregrinação, Gonçalo regressa à sua Paróquia de São Paio de Vizela que, durante a sua ausência, fora confiada a um sobrinho, o qual, por não ter cumprido as recomendações do tio, o expulsa de casa. 

Desiludido com a vida opulenta e faustosa do seu substituto e deparando-se com o desrespeito aos ensinamentos e à humildade cristã, decide abandonar a vida paroquial e encetar por um modus vivendi mais contemplativo, eremítico e evangelizador. Embevecido neste espírito, toma o hábito da Ordem de São Domingos, que se encontra presente em Guimarães desde 1221. 

Com esta nova forma de vida chegou ao Vale do Tâmega, deparando-se com uma ermida arruinada dedicada a Santa Maria (Nossa Senhora da Assunção), localizada num ermo junto ao rio e nas imediações de uma ponte desmoronada. Aí se instalou e logo tratou de recuperar o velho templo para dele fazer a sua morada e o seu púlpito.

Calcorreando as povoações circunvizinhas, Frei Gonçalo, acompanhado por um irmão espiritual, Frei Lourenço Mendes, evangeliza e abençoa uniões matrimoniais, apoia e protege os mais desfavorecidos e realiza alguns prodígios que lhe vão conferindo notoriedade.

Por volta de 1250, no decurso das suas acções pastorais, deparou-se com as dificuldades e com o perigo que os seus fiéis corriam para atravessarem o rio, principalmente nas alturas em que este se apresentava mais caudaloso, e, na falta de alternativas, decide empreender ele próprio, o restauro ou a reedificação da velha ponte romana.

Para a sua reconstrução terá contado com a participação de todos, desde os mais abastados, que contribuíram com numerários e matérias-primas, até aos mais pobres que, com o seu esforço, executaram a obra. Consta que o arquitecto fora o próprio santo. A ponte medieval haveria de perdurar até ao dia 10 de Fevereiro de 1763, altura em que sucumbe à turbulência das águas do Tâmega, durante uma cheia, desmoronando-se por completo.     

 Após a construção da ponte e do restabelecimento do tráfego, o frade dominicano continuou com a sua vida de pregador até ao dia da sua morte, ocorrida a 10 de Janeiro de 1259. 

A partir de então, muitos foram aqueles que acorreram ao seu túmulo, instalado na mesma ermida onde residiu para, junto dos seus restos mortais, pedirem ou agradecerem a sua intercessão. 

A 16 de Setembro de 1561, Gonçalo de Amarante é beatificado pelo Papa Pio IV e, algum tempo depois, já no reinado de Filipe I de Portugal (II de Espanha), foi iniciado o processo de canonização que acabou por ficar sem efeito. 

O Papa Clemente X, em 1671, estende o ofício da sua festa litúrgica a toda a Ordem Dominicana que é celebrada no dia do seu falecimento, a 10 de Janeiro.

Desde a Idade Média e com maior intensidade a partir da construção do Convento de Amarante, a devoção a São Gonçalo jamais parou de se difundir e de propagar não só em Portugal, mas também no Antigo Além-Mar Português, merecendo destaque o Brasil, onde várias localidades o têm por padroeiro.

As Romarias a São Gonçalo de Amarante

Poucos anos após a morte do agora venerável Gonçalo de Amarante, muitos foram aqueles que, das mais diversas partes do Reino de Portugal, acorreram ao local do seu túmulo, localizado na mesma ermida onde vivera, para venerar as suas relíquias. 

Vinte anos após a morte do santo, ocorrida por volta de 1259, já a ermida havia mudado de designação, sendo agora denominada de Ermida de São Gonçalo e não de Santa Maria, pois, em 1279, Maria Joannis, residente em Guimarães, doara à Igreja de São Gonçalo de Amarante parte dos seus bens. Em 1338, nova notícia relativa a esta igreja, desta vez de um abade que era também cónego da Colegiada de Santa Maria da Oliveira em Guimarães. Seguindo-se outros nos anos seguintes e todos eles pertencentes à Colegiada de Guimarães. Facto que denota o enraizamento da devoção Gonçalina em Guimarães e evidencia, de certo modo, a iniciativa e o empenho desta poderosa instituição na difusão da sua memória e veneração. 

 Em 1513, foi publicada a primeira hagiografia de São Gonçalo, mas a sua devoção há muito que era conhecida pelas comunidades do Norte de Portugal. 

Anos mais tarde, em 1540, e por iniciativa régia, D. João III e D. Catarina de Habsburgo, em agradecimento de um voto, decidem fundar, no local da pequena ermida de Amarante, um grande convento em honra a São Gonçalo que é confiado à Ordem Dominicana, à qual pertencera. O próprio casal régio era filiado na sua Ordem Terceira. 

As obras do convento foram custosas e demoradas, tendo ficado concluídas apenas em 1686. 

Ao longo do Séc. XVI, a devoção a São Gonçalo ultrapassa as fronteiras do território continental e insular português e expande-se por Terras do Brasil, de Africa e Ásia.

Na Época Moderna, surgem diferentes manifestações culturais e religiosas, um pouco por todo o Império Português, em torno da figura e da devoção a Gonçalo de Amarante. No entanto, serão mencionadas apenas as que têm por epicentro Amarante.

Os cravos estão, desde sempre, associados ao culto a S. Gonçalo (Foto AM).

Os peregrinos de Mondim de Basto reagrupavam-se na Igreja da Misericórdia e daí se dirigiam solenemente até à Igreja de São Gonçalo. Tal como, os de Vila Real, ofereciam cera de abelha ou velas ao convento, mas como partiam da Misericórdia, foi acordado entre a irmandade e os religiosos de São Domingos que a cera transportada, pela ala esquerda da procissão, seria destinada à Santa Casa. 

Tendo como ponto de partida as memórias do Convento de Amarante, os religiosos de São Domingos dedicavam parte considerável do seu quotidiano a acolher os muitos peregrinos que acorriam ao túmulo do santo. 

Sabe-se também que no Séc. XVIII, na véspera do Pentecostes, rumavam a Amarante em peregrinação, os grupos provenientes de Guimarães. 

Passados oito dias, no Domingo da Santíssima Trindade, as comunidades de Vila Real. Este grupo tinha a particularidade de se organizar por freguesias e cada freguesia, apresentava o seu clamor. Os adultos transportavam velas de cera que deixavam como esmola na Igreja de São Gonçalo. Alguns, em vez de velas, traziam ramos de castanheiro revestidos a cera de abelha que também ofereciam à igreja. 

No mesmo dia vinha em procissão o Concelho de Mondim de Basto e, na primeira Segunda-feira de Junho, o antigo Concelho de Santa Cruz de Riba-Tâmega[1]; Canaveses no dia 11; e Felgueiras a 13 de Junho. 

Anos mais tarde, Santa Cruz de Riba-Tâmega passa a realizar a sua peregrinação anual a São Gonçalo, no 1º Sábado de Junho. 

Por sua vez, Unhão, Soalhães, Grilo, Vila Marim, Teixeiró, Teixeira, Sedielos e Mondrões, a 2 de Julho. 

No mês de Agosto, era a vez de Fafe, Santa Marinha do Zêzere, Tresouras, Penajóia, Fontes, Resende, Viariz e Gestaço. 

Em Setembro, Barro, São Martinho de Mouros, São Pedro de Paus e Ovil. 

No mês de Outubro, provinham os de Lobrigos, Santa Maria da Feira e Maia. Estes grupos, por vezes, chegavam a Amarante apenas em Novembro.      

Ao entrar em Amarante, os peregrinos vila-realenses reorganizavam-se na Igreja de Santa Maria Madalena e, em solene procissão, subiam a Rua do Covelo até São Gonçalo, onde deixavam as suas ofertas. Na igreja eram recebidos pelo sacristão. 

Os peregrinos de Mondim de Basto reagrupavam-se na Igreja da Misericórdia e daí se dirigiam solenemente até à Igreja de São Gonçalo. Tal como, os de Vila Real, ofereciam cera de abelha ou velas ao convento, mas como partiam da Misericórdia, foi acordado entre a irmandade e os religiosos de São Domingos que a cera transportada, pela ala esquerda da procissão, seria destinada à Santa Casa. 

Digna de lembrança, pela solenidade, era a peregrinação dos felgueirenses que se juntavam na Igreja da Misericórdia e de la com as suas relíquias debaixo do pálio, seguiam em procissão até São Gonçalo, acompanhados pelo juiz de fora e respectiva vereação de Felgueiras. 

Este grupo, não iniciava o cortejo, sem antes ter recebido a licença da Câmara da Villa d’Amarante para que os seus vereadores pudessem levantar as varas na procissão.   

Nestes dias de romaria, as ruas de Amarante enchiam-se de peregrinos que animavam a então vila e os festejos prolongavam-se pela noite dentro. Os religiosos de São Domingos assistiam a partir da Varanda dos Reis. 

Progressivamente e numa perspectiva popular, o fluxo de peregrinos, associado à animação que se via e sentia nas ruas de Amarante, a partir da oitava do Espirito Santo, fez com que as peregrinações anuais a São Gonçalo passassem a ser conhecidas por Festas do Junho. Peregrinações (e festas) que contrastavam, em muito, com a Festa Litúrgica de São Gonçalo, celebrada a 10 de Janeiro e/ou no fim-de-semana imediato que, apesar dos festejos e do número de peregrinos, foram (e são) mais contidas.  

A fixação da data das Festas para o primeiro Sábado de Junho terá acontecido na viragem do Séc. XIX para o Séc. XX.

Esta data que era a do dia da peregrinação dos de Santa Cruz de Riba-Tâmega, por vezes coincidente com a dos peregrinos de Guimarães, de Vila Real e de Mondim de Basto, fixadas em dias de festas móveis (Pentecostes e Santíssima Trindade), seria o Fim-de-Semana que mais peregrinos concentraria em Amarante. 

Perante este facto, as entidades locais, tais como a Câmara Municipal, a Paróquia, os comerciantes e as colectividades recreativas vão procurar oferecer a todos estes forasteiros alguns programas recreativos e assim surgem os concertos e a animação de rua das filarmónicas de Amarante, o despique dos bombos, o fogo-de-artifício e os arraiais que, associados às manifestações religiosas, deram origem ao gérmen das actuais Festas do Junho. 

Em meados do Séc. XX, ainda persistia a tradição dos paroquianos das diversas comunidades do Concelho e Vigararia de Amarante, se deslocarem ao entardecer do primeiro Sábado de Junho ou na madrugada de Domingo com a respectiva cruz paroquial que iria incorporar na Procissão em Honra a São Gonçalo, a realizar na tarde de Domingo. A procissão assinalava o momento mais aguardado e o mais solene das Festas de Amarante. 

Finda a procissão, regressavam novamente às suas localidades com a respectiva cruz paroquial. Quer na ida, quer no regresso, a viagem era feita em animado convívio, por vezes acompanhado de cantares tradicionais.

Bibliografia:

CAPELA, José Viriato; Matos, Henrique et BORRALHEIRO, Rogério; As Freguesias do Distrito do Porto, nas Memórias Paroquiais de 1758; Braga; Edição do Autor; 2009.
CARDOSO, António; S. Gonçalo de Amarante, Lenda e História, o seu culto, iconografia Amarantina, Exposição Biblio-iconográfica; Amarante; Câmara Municipal de Amarante; 1978.
CARDOSO, António; O Convento de S. Gonçalo de Amarante, Utilização e reutilizações, in Monumentos (periodicidade Semestral); Lisboa; Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais; Setembro de 1995.   
CRAESBEECK, Francisco Xavier da Serra; Memórias Ressuscitadas da Província de Entre-Douro-e-Minho, no ano de 1726, Vol. I; Ponte de Lima; Edições Carvalhos de Basto (edição fac-similada); 1992. 
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PINHO, José de; Materiais para o estudo do Povo Amarantino, A Albergaria do Covelo do Tâmega, in Semanário Flôr do Tâmega, nº 2 445, ano 47; Amarante; 12 de Novembro de 1933.
MAGALHÃES (a), Arlindo de; S. Gonçalo de Amarante, Um vulto e um Culto; Vila Nova de Gaia; Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia; 1996.
MAGALHÃES (b), Arlindo de; São Gonçalo de Amarante, Cónego da Colegiada de Guimarães?; in II – Congresso Histórico de Guimarães; Volume. V; Sociedade, Administração, Cultura e Igreja em Portugal no séc. XII; Guimarães; Câmara Municipal de Guimarães et Universidade do Minho; 1996. MAGALHÃES, Arlindo de; Amarante Medieval em documentos da Colegiada de Guimarães, in Actas do Iº Congresso Histórico de Amarante, Volume I, tomo I, História Politica Sociedade e Economia; Amarante; Câmara Municipal de Amarante; 2000.  
MAGALHÃES, Pe. Francisco de Azevedo Coelho de; História de Amarante; Amarante; Câmara Municipal de Amarante (Edição Fac-similada); 2008.
PATRÍCIO, António; Lendas de S. Gonçalo e de Amarante, Amarante, Paróquia de S. Gonçalo, 2009.
SOUSA, Frei Luis de; História de S. Domingos; Volume II; Porto; Lello e Irmão Editores (edição fac-similada); 1977.

[1] – Correspondente às actuais freguesias de Vila Meã, Vila Caiz, Mancelos, Fregim, Louredo, Travanca, Figueiró de Santiago e de Santa Cristina, etc…    

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