Briguei para fazer o MIMO em Amarante

Lu Araújo, Diretora do MIMO Festival

Está aí a quarta edição do MIMO Amarante, com um cartaz que promete (ver em www.mimofestival.com). Vem a propósito, por isso, republicarmos uma entrevista que fizemos a Lu Araújo, Diretora do Festival, no final do ano passado, e que publicámos na edição em papel de AMARANTE MAGAZINE de dezembro.

Olinda, no Brasil, fica a três horas de avião do Rio de Janeiro, mas foi aí que teve lugar, em 2004, o primeiro festival MIMO. Cerca de dois anos antes, de visita à cidade, Lu Araújo assistiu ao que ela classifica como “uma cena triste”: viu um grupo de jovens divertindo-se, dançando, sendo que um deles, eufórico, arremessou uma garrafa de vidro contra a porta de uma igreja, estilhaçando-a. Isso chocou Lu e, de imediato, pensou que teria de fazer algo ali. 

Olinda é uma antiga cidade colonial portuguesa, é Património Mundial da Humanidade, tem 300 mil habitantes e um centro histórico preservado, onde existem 22 igrejas com diferentes capacidades: de 80 a 800 lugares. 

Durante um ano, Lu pensou num plano para Olinda e pode dizer-se que o primeiro MIMO começou a germinar em Portugal. A fazer uma tournée pelo nosso país, Lu foi visitar Évora, onde, por coincidência, decorria um encontro de cidades com centro histórico, no qual participava a presidente de Olinda. Tentou chegar à fala com ela logo ali, não foi possível, mas encontraram-se em Serpa, um dia depois. 

De regresso ao Brasil, Lu foi a Olinda e apresentou um projeto à Prefeitura, que passava por valorizar o património cultural e arquitetónico através da música. Na cabeça, Lu tinha a realização de 50 concertos, durante cinco dias, ocupando as 22 igrejas. Olinda não tinha dinheiro e apenas conseguiu fazer cinco. E assim nasceu o MIMO (Mostra Internacional de Música de Olinda) que, hoje, mais do que um festival é um conceito que, no Brasil, se estendeu também a Paraty, João Pessoa, Ouro Preto, Rio de Janeiro e S. Paulo. A Amarante chegou em 2016.

Depois de consolidado no Brasil, com palcos em várias cidades, a Lu quis trazer o MIMO para fora.
Foi. Na verdade eu queria internacionalizar o MIMO e a minha opção era claramente por Portugal. Há muitos anos que ouvia falar do Porto. Eu trabalhei com um artista, Zeca Baleiro, que, a determinada altura da sua carreira, veio a Portugal fazer uma temporada. Quando ele voltou para o Brasil, disse-me: “Lu, tem que conhecer um lugar. O Porto. O Porto é a sua cara!…” Eu fiquei com aquilo em mente, mas a verdade é que ao longo dos anos vim muitas vezes à Europa e nunca consegui deslocar-me ao Porto. Planeei vir, em muitas ocasiões, mas, por algum motivo, acabava por não acontecer.

E quando é que conheceu o Porto?
Esse momento chegou em 2016. Muito por influência de Fernando Sousa, da Casa da Música que, sempre que vinha ao Porto um músico brasileiro me mandava recados, dizendo que o Mimo era o festival que mais admirava no Brasil e que gostaria de colaborar comigo. Mas a verdade é que o contacto entre nós tardava em acontecer. Finalmente, conhecemo-nos em Cardiff, em 2015, e eu convidei-o para ir ao Brasil, assistir ao MIMO. Ficámos amigos e, no ano seguinte, voltámos a encontrar-nos em Santiago de Compostela e, aí, ele me convidou a conhecer o Porto, onde estive uns dias. E apaixonei-me, perdidamente. Que lugar lindo, meu Deus…

A sua ideia inicial era fazer o MIMO no Porto?
Sim. Então eu voltei, conheci melhor a cidade, as igrejas, os lugares e apresentei uma proposta ao Paulo Cunha e Silva [ex-vereador da CM do Porto], mas não houve muita recetividade. Foi-me dito que havia já o “Nós Primavera Sound”, o “D’Bandada”, a cidade tinha muita produção cultural… Sim tem muita coisa, disse eu, mas os festivais que existem são todos voltados para a um público mais jovem. O meu festival dirige-se aos jovens mas também aos públicos mais adultos. Tudo bem, eu até vou ao “Primavera”, mas não dá para chegar lá às cinco da tarde e sair às cinco da madrugada. Não dá para ver tudo, nem tudo interessa. E também lhe disse que o meu festival está vinculado ao património e que o património do Porto precisava ser renovado, revitalizado, animado, usado de forma a que as pessoas não façam apenas uma visita, mas tenham motivos para voltar muitas vezes… Às igrejas, por exemplo.

O Porto não quis e Amarante agradece.
É. Não deu o Porto, mas, um dia, um amigo meu, Adriano Santos, disse-me: “você deveria conhecer Amarante, que tem o tamanho dessas cidades brasileiras onde faz o MIMO:  Olinda, Paraty…” Eu comentei isso com outros meus amigos daqui, que me disseram: ‘você está louca! Amarante é uma cidade cafona, onde não acontece nada’. Ai é?, pensei, porque será que dizem isso? Só despertaram o meu interesse em conhecer. Se há uma coisa que eu tenho na vida é curiosidade. E vim a Amarante. E amei Amarante! De caras. E perguntei-me: por que não fazer aqui o MIMO? Não foi uma decisão imediata, mas foi o início de um processo, algo moroso, com muitas idas e vindas. Eu briguei para fazer o Mimo em Amarante, contra a opinião de pessoas que me eram próximas e a decisão de avançar foi só minha. Eu disse: se Amarante quiser, eu quero. 

A produção do MIMO exige, com certeza, um grande esforço financeiro e o festival não tinha histórico em Portugal. Foi fácil pôr de pé a primeira edição, em Amarante?
Antes de vir para Portugal eu estudei o país, a legislação e descobri que havia ‘uma brecha’ no Portugal 2020 que poderia viabilizar financeiramente o MIMO e que se chamava “qualidade ambiental”. Era uma nova categoria referente a fundos europeus que falava de “ações de ativação do património histórico, através de eventos culturais internacionais”. Contactei a Direção Regional da Cultura do Norte, que se mostrou agradada com o conceito do MIMO, mas foi-me dito que aquela medida só poderia ser utilizada por entidades públicas e não por empresas privadas. Dias depois fui convidada para uma reunião com o Diretor Regional, António Pontes, que juntou o presidente da Câmara de Amarante, o presidente do Turismo do Porto e Norte, o vereador da Cultura da Câmara do Porto e a CIM do Tâmega e Sousa. Foi apresentado e discutido o projeto, mostrado o seu potencial e, nas negociações que se seguiram, eu decidi ficar com Amarante. A candidatura aos fundos europeus foi feita pelo Turismo do Porto e Norte.

Não obstante a sua qualidade, toda a oferta do MIMO é de acesso livre: os concertos, os workshops, o cinema. A gratuitidade faz parte da filosofia do festival? É para manter?
Do que depender de mim, eu vou fazer o MIMO a vida inteira de graça. Eu não tenho a certeza se vou conseguir isso, porque não depende só de mim. Para o conseguir, preciso de ter por trás pessoas e marcas que entendam que a gratuitidade faz parte do conceito do MIMO. A gratuitidade tem vários sentidos: a abertura de janelas para quem quer aprender mais; a formação de plateia [públicos]; o sentido da promoção turística… O MIMO é de entrada livre, mas os locais não deixam de ganhar. Ganha a restauração, a hotelaria, o alojamento, os transportes… Eu sou muito questionada sobre a gratuitidade do MIMO, principalmente desde que vim para a Europa. No Brasil justifica-se esta opção porque é um país desigual. Aqui, pode haver dificuldades, mas há igualdade no acesso à educação, à saúde e será diferente… Olha, eu costumo dizer que, enquanto eu puder, o festival será gratuito. Se chegar um dia em que eu tenha que cobrar ingresso, entre desistir e cobrar ingresso, pode ser que eu repense isso.

A realização do MIMO em Amarante está garantida por mais três anos…
Sim, por parte da Câmara. A participação do Município não corresponde a cem por cento do projeto, como se sabe, e como os outros patrocinadores estão bem felizes, também deverão continuar a apoiar, mas tem sido sempre um desafio fazer o MIMO. E este ano não contámos com fundos europeus… O desafio continua e passa por conseguir que as empresas nacionais percebam a importância de se fazer o MIMO e invistam num projeto para a região Norte…

A Lu admite fazer o MIMO noutras cidades?
Olha, eu não estou fechada a nada, mas, de momento, não estou aberta a isso. Quando olho para o MIMO em Amarante e vejo no que o festival se transformou, eu acho que é possível fazer mais, torná-lo maior. Eu não tenho o menor desânimo com Amarante. Sabe, eu ainda posso surpreender muito: quer o público, quer Amarante. Eu tenho muitas ideias e posso fazer um festival muito maior, talvez em mais dias… Agora, precisamos de ter investimento. A terceira edição do MIMO era decisiva para nós. Eu precisava perceber o que aconteceria com Amarante neste terceiro ano, as reações do público, saber da satisfação dos patrocinadores, como é que seria não tendo fundos europeus, da disponibilidade da Câmara para continuar como promotora… O que eu acho que aconteceu foi o mesmo das edições anteriores: o MIMO foi abraçado com calor, com carinho e o seu maior desafio é continuar a ser feito em Amarante, crescendo, tornando-se maior.

 O conceito do MIMO é, claramente, um conceito ganhador e fica a ideia de que uma boa parte do seu sucesso tem a ver com uma programação diversificada, que não segue modas, correntes musicais, e que, no entanto, é coerente.
O MIMO pode não ter um estilo musical definido, mas você vê que tem uma textura, tem algo que vai alinhavando a programação. Não importa se é jazz, se é blues, se é rock ou se é eletrónica. Há, em termos sonoros, uma textura estética. Quando eu cheguei em Portugal, eu pensei: aqui vou ter mais dificuldades. Isto é, ao Brasil, justifica-se que muita coisa não vá. Trata-se de um país difícil, a gente tem grandes festivais que só se preocupam com música pop, o que a gente toca em rádio é música pop. E você pensa: aqui não. Tudo passa por Portugal, pela Casa da Música, pelos Coliseus… Mas não é bem assim, há muita coisa que não chega a Portugal. À medida que eu fui percebendo isso, eu percebi também que podia, com a maior tranquilidade, aplicar aqui algo que também faço no Brasil: investir no novo. O que te vou dizer pode parecer arrogante, mas não é esse o sentido. Eu tenho muito orgulho, por exemplo, em ter feito nesta última edição o que fiz com o Matthew Whitaker, que foi, ontem [algures em finais de julho], capa do jornal Globo do Brasil, capa do jornal Estadão de S. Paulo e que teve imensas matérias publicadas em Portugal e que ninguém conhecia… Como tenho feito com outros. Então, eu tenho prazer nessas descobertas e em perceber onde há talento e que o caminho é o sucesso. Ao longo destes 15 anos, eu fiz muitos artistas, que, de início, tinham até dificuldade em falar com os jornalistas, mas que eu sabia que iam estourar!

Como é que faz essas descobertas? Tem “olheiros”?
Não, não tenho olheiros. Eu gosto muito de música e há períodos do ano, depois dos festivais, que estou aberta à música. Eu praticamente não vejo televisão, só ouço música, o meu alimento é a música.

Sim, mas em relação aos nomes que não têm trabalhos editados, como é que chega até eles?
De várias formas. Por exemplo, o Matthew eu “conheci-o” num táxi, em Nova Iorque. Eu ia no banco de trás e estava passando um vídeo, uma matéria rápida, pequenina, que me chamou a atenção. Então o que é que eu faço? Eu tenho uma equipa… Logo, eu digo: pesquisa isto, descobre quem é, com quem está, como se chega até ele, sabe se tem empresário… Tanto que quando eu cheguei ao empresário do Matthew, ele perguntou: como é que vocês nos descobriram se só agora ele está lançando um disco? A matéria que eu tinha visto era pré-lançamento… Depois, também há pessoas que me mandam propostas, eu ouço e avalio. 

Depois de três edições do MIMO em Amarante, o chamado “mundo da música e do espectáculo” está rendido ao mérito do festival e a Lu é, hoje, também em Portugal, vista como uma reputada produtora e programadora.
Olha, não foi fácil afirmar-me em Portugal, por muitas razões. Por um lado, por ser mulher. Tive de me confrontar com problemas impensáveis de misoginia, de longe superiores aos que existem no Brasil. Portugal ainda é um país machista e para muitos não é crível que uma mulher lidere um processo desta natureza. E, para além de mulher, sou brasileira e cá acha-se que do Brasil não vem coisa boa, brasileiro gera desconfiança e se propõe negócio é oportunista… Bolas, eu sou uma mulher séria, honesta, tive que mostrar minha credibilidade, puxar pela minha reputação.

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