Eulália Macedo: “Sem Amarante não seria o que sou”!

Eulália Macedo, em 1994, quando com ela fizemos capa na nossa edição impressa (Foto:AM).

A 21 de de março, quando se comemora o Dia Mundial da Poesia, celebra-se, também, o centenário do nascimento de Maria Eulália Macedo. Assinalamos a efeméride, republicando uma entrevista que a escritora concedeu a Maria João Vieira Pinto e que publicámos na edição (impressa) número 4, de AMARANTE MAGAZINE, em junho de 1994, cerca de um mês depois de Eulália Macedo ter apresentado o seu livro “As Moradas Terrenas”. O texto da entrevista mantém uma atualidade surpreendente.

Aos 73 anos, EULÁLIA MACEDO mantém toda a sua capacidade para amar. “Amar as coisas e amar as pessoas, amar o tempo de ser, de lembrar, de conhecer. O único remédio é amar”, escreveu. Amar Amarante! O único lugar onde concebe viver, terra sua a quem diz dever o que é. E, recentemente, Amarante retribuiu. Foi quase em peso conhecer-lhe o último filho, nado de parto longo no repouso solitário do poeta. As Moradas Terrenas, de seu nome. É o quarto, depois de Construções no Vento Norte (1968), Raízes (1970) e Histórias de Poucas Palavras (1972). Falou de si a AMARANTE MAGAZINE.

Rodeada de livros e jornais – as estantes constituem o maior cenário da sala onde nos recebeu -, Maria Eulália Macedo habita um mundo muito próprio onde a literatura dita as leis da vida. Hoje, com quatro livros publicados (o último bem recentemente) e 73 anos, Lala, como é conhecida pelos mais próximos, define a sua maneira de ser como a “de um olhar habituado à serenidade e à aceitação”. Isto, porque tudo em si, “se tem processado lentamente”, como diz.

Começou a escrever tarde – o primeiro livro data de 1968 -, o exame Ad Hoc fê-lo já com 50 anos e só mais tarde se iniciou a lecionar, o que fez “durante 23 anos”. Ainda nos anos 60 dedicou algum do seu tempo a ensinar jovens da época a coser e a bordar.

Lala garante nunca ter conduzido a sua vida, tendo-se antes deixado “conduzir pelas vivências”. Talvez por isso é que durante algum tempo, levou uma vida um pouco “à margem. Não me lembro de ter tido a fase da adolescência, da juventude, de namorar ou ir a festas. Ficava sempre a ler, sentada à beira da janela. E havia gente cá na terra que não sabia que eu existia”, recorda, agora, não escondendo uma certa nostalgia que passa pela falta de “uma vivência mais igual à dos outros”.  

No entanto, Lala procura dar respostas, ou colmatar essa falta, através da literatura, da poesia. Como faz questão de lembrar, “ao lado do poeta há sempre a solidão”.

É uma máxima que traz consigo para explicar um certo isolamento para que se voltou.

E quanto ao facto de nunca ter casado, vê-o, hoje, como um problema engraçado que se baseou numa série de desencontros – “Na ausência da pessoa amada desejava-a, mas no encontro tudo morria”, explica.

Apesar de se deixar mergulhar na escrita e nos escritos dos outros, Lala não pretende o distanciamento total. No entanto, gostava de se preservar, não se deixando “envolver pelos acontecimentos”. Acompanha diariamente todo o desenvolvimento político e social à sua volta, gosta de se manter informada (e por isso não passa um dia sem ler os jornais), só não deixa que os mesmos acontecimentos alterem a sua vivência.

Também se no passado fugiu do buliço, hoje Lala “vibra com a festa”. Os bombos das festas do Junho, por exemplo, fazem-na sentir viva e é por isso que não gosta de perder o seu despique anual.

Da morte diz não ter medo e a solidão também não a assusta, já que considera ter “a solidão que quer, quando quer”.

A poesia de Eulália Macedo, diz a própria, está acompanhada pelo “espírito de lugar” e “profundamente marcada por Amarante”. Logo, o que escreve “é filho dum viver íntimo que não poderia existir em nenhum outro lugar”.

Relativamente à poesia que escreve, Maria Eulália Macedo define-a como o reflexo de “uma serenidade lúcida” que marca o seu viver, acompanhada por todo um “espírito do lugar”.

Lala, diz-nos, é profundamente marcada por Amarante e o que escreve é filho deste viver. Uma “vivência única que não se podia processar em nenhuma outra cidade” já que em Amarante Lala respira” qualquer coisa de familiar” entre as mulheres da sua rua. E mesmo o tipo de vida que leva em casa, considera-a um pouco peculiar. “Formamos um clã entre as famílias e as pessoas que nos rodeiam”. Por isso, acrescenta, não seria capaz de viver noutra cidade, “num meio disperso e anónimo”. Aliás, costuma dizer, fazendo eco das palavras do poeta, que “se não tivesse nascido em Amarante não seria o que sou”.

A poesia de Pascoaes, que amiudadamente gosta de recordar, vê-a como um bruxedo. “Enfeitiça-me”, diz. Mas, e apesar disso, não a inspira porque, como sublinha, “ninguém inspira ninguém. Quem escreve é porque isso lhe foi dado”.

Referindo-se ao lançamento do seu último livro – um dos acontecimentos do género que mais gente reuniu e Amarante – define o seu sucesso como resultado do carinho que toda a vida manteve com os que a rodeiam. “Não foram simplesmente ao lançamento do livro, foram dar-me uma resposta ao amor que sempre nutri por eles”, explica.

E quanto à política cultural que se vive em Amarante não considera que esta seja “uma terra medíocre, mas, sim, uma terra com um viver peculiar”. E esta peculiaridade, acredita, tem ficado a dever-se, em alguma medida, a Pascoaes.

Já o consumo cultural… é outra história. “Estamos numa época em que ninguém lê. Fala-se de cultura, divulga-se Lisboa a Capital da Cultura, mas é obvio que em Portugal não se lê”, diz, com ar crítico, mas triste, acrescentando: “Hoje, as pessoas são intelectualmente preguiçosas”. E “alterar estes métodos” apresenta-se como tarefa árdua e difícil.

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