Mafalda de Portugal: uma Princesa no Entre-Tâmega-e-Sousa

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Nascida entre meados de 1195 e os inícios de 1196, Mafalda foi a antepenúltima filha (a nona) do Rei D. Sancho I e da Rainha D. Dulce de Aragão, perfazendo 20 anos de diferença da irmã mais velha, a infanta D. Teresa. 

O seu nascimento acontece num momento conturbado para o reino e para própria família real. D. Sancho e a própria infanta D. Teresa estariam excomungados pelo papa, por terem incorrido em pecado, ao contratarem e consentirem o seu matrimónio com o primo direito, o Rei Afonso IX de Leão, casamento que embrenhado em jogos de interesses políticos acabaria por ser dissolvido, mesmo depois de consumado e daí terem nascido três filhos: os infantes Sancha, Fernando e Dulce de Leão. 

A 2 de Maio de 1196, Mafalda recebe do pai, da mãe e dos irmãos, a posse do Mosteiro de São Salvador de Bouças em Jure hereditario[1] e a Vila de Vilar de Sande – Vila Verde.

Anos mais tarde, esta doação, juntamente com outros bens da infanta, irá dar origem, tal como aconteceu com as irmãs, a querelas e disputas com o irmão, o futuro D. Afonso II de Portugal, que se sentia desautorizado e enfraquecido.

Embora não sendo a irmã mais nova, tendo ainda nascido, depois de Mafalda, Branca e Berengária, Afonso II desenvolve com esta um sentimento de protecção que se perpetuaria ao longo de toda a sua vida. 

Sendo os Ribadouro uma família originária do Entre Tâmega-e-Sousa, à qual pertence a sua ama-de-leite, Mafalda passa a sua infância na região e terá regressado à Corte (instalada na maior parte do ano, no Paço Real da Alcáçova de Coimbra) somente em 1208, aos 12 anos de idade, provavelmente aquando do casamento do então Príncipe D. Afonso, futuro Afonso II de Portugal, com a Infanta D. Urraca de Castela, futura Rainha de Portugal. 

Dois anos depois do seu nascimento, D. Dulce de Aragão morre com cerca de 40 anos e é necessário encontrar uma educadora para as princesas mais novas, das quais, a mais velha, contava apenas com três anos de idade. Essa responsabilidade recaiu, no caso da pequena Mafalda, às infantas D. Teresa e D. Sancha e à ama-de-leite, Oureana Peres, casada com Gonçalo Peres, proveniente de uma linhagem que paciente e conscientemente ia construindo uma forte posição na sociedade medieval europeia.  

Algum tempo depois, D. Mafalda acaba por ser entregue aos cuidados de Urraca Viegas de Ribadouro, filha de Teresa Afonso, meia-irmã de D. Sancho I, que já tinha sido a nutrice (ama-de-leite) de D. Sancho I e de Egas Moniz de Ribadouro. Talvez pelos laços de sangue que as unia, Urraca Viegas desenvolve um carinho e uma afeição especial pela prima, perceptível no seu testamento, onde a designa de «alumpne mei regine domne Maphalde quam recepi loco filie» (a minha protegida rainha D. Mafalda, que recebi como filha), como consta no testamento da ama, lavrado em 1199, no qual lhe são doados metade dos seus bens, entre eles o Mosteiro de Tuias – Marco de Canaveses e várias propriedades fundiárias. 

Sendo os Ribadouro uma família originária do Entre Tâmega-e-Sousa, à qual pertence a sua ama-de-leite, Mafalda passa a sua infância na região e terá regressado à Corte (instalada na maior parte do ano, no Paço Real da Alcáçova de Coimbra) somente em 1208, aos 12 anos de idade, provavelmente aquando do casamento do então Príncipe D. Afonso, futuro Afonso II de Portugal, com a Infanta D. Urraca de Castela, futura Rainha de Portugal. 

D. Mafalda.

Quer pela ama-de-leite, quer posteriormente pela sua ama, D. Mafalda acaba por viver a sua infância nas localidades de Lousada e Louredo – Penafiel, à data Honra de Louredo. 

Em 1210, D. Sancho I redige um novo testamento e confirma a D. Mafalda o legado dos Mosteiros de Bouças de Arouca e as herdades de Seia que haviam pertencido à mãe, a Rainha D. Dulce, 40 000 morabitinos e 200 marcos de prata. 

Um ano depois, a 26 de Março de 1211, falece D. Sancho I e sobe ao trono de D. Afonso. Rapidamente o novo rei de Portugal procura impugnar o testamento do pai, numa tentativa de desapossar as irmãs das suas heranças, levando a que estas recorressem à protecção da Santa Sé, sucedendo-se bulas papais que confirmam os legados das infantas. Este conflito, que quase dá origem a uma guerra civil, ficaria conhecido pela Questão das Infantas.  

Nesta querela, também D. Afonso II se faz valer junto do Sumo Pontífice, alegando que os bens das infantas alienavam territórios da Coroa e, por isso, prejudicavam o Reino.

Ao contrário das irmãs, a contenda entre Mafalda e o irmão nunca saíra da esfera da via diplomática, o que poderá ser sinónimo da estima e consideração entre ambos, bem como da docilidade e falta de experiência da infanta. Como forma de sanar as hostilidades, D. Mafalda doa o Mosteiro de Bouças em Matosinhos à Ordem do Hospital, mas com reserva de usufruto em vida, bem como de outros bens e, assim, transfere a questão para os Cavaleiros Hospitalários. 

O problema das heranças viria a resolver-se algum tempo depois, com a intervenção dos bispos de Astorga, Burgos e Segóvia em favor do rei. Ao contrário das irmãs, Mafalda aceita a decisão. Por sua vez, D. Teresa, ex- Rainha de Leão, pede e conta com a intervenção militar do seu ex-marido, Afonso IX de Leão, mergulhando o país numa guerra entre 1213 e 1214.

Durante a intervenção militar do rei de Leão, D. Mafalda que havia sanado a sua parte na questão e talvez para evitar novos envolvimentos, recolhe ao Mosteiro de Arouca, dedicado a São Pedro e a São Paulo, onde rapidamente inicia a sua reforma, atendendo ao miserável estado material e espiritual da sua comunidade, professa na Ordem de São Bento. Ainda em 1215, consegue que o bispo e o cabido de Lamego renunciem aos seus direitos diocesanos sobre o mosteiro, em particular, ao censo anual de 6 áureos, mas em troca de algumas compensações. 

Segundo os relatos da época, Henrique I fora atingido por uma telha que se desprendera de um telhado do Paço Episcopal de Palência, estranha ocorrência que leva a crer num atentado e cuja morte era em tudo favorável à causa leonesa e que antecede a chegada do decreto papal com a anulação do matrimónio.   

Pouco tempo depois, o recolhimento de Mafalda viria a ser perturbado, pelo acordo entre D. Afonso II e o Conde Álvaro de Lara, no qual, como forma de impedir a união das Coroas de Leão e Castela, resolvem acertar o casamento da infanta, à data com 20 anos, com o jovem rei de Castela, Henrique I, ainda menor. A consumação deste enlace com o nascimento de um herdeiro, anularia as possibilidades do infante Fernando de Leão, filho de Berengária de Castela, irmã e tutora de Henrique I de Castela, assumir o trono de Castela. 

D. Mafalda anui favoravelmente a esta aliança, apesar de conhecer as disposições papais que a proíbem, segundo o Código de Graciano, atendendo à consanguinidade dos nubentes, apesar de remota. 

Este contrato terá contado ainda com o apoio e as influências de D. Urraca de Castela, esposa de D. Afonso II e irmã de Henrique I de Castela. Eventualmente, as partes que acertaram este matrimónio, talvez estivessem convencidas ou tinham dado por adquirida, uma eventual dispensa papal, e o enlace acontece em data anterior ao dia 11 de Novembro de 1215.

Os opositores desta aliança, encabeçados por Berengária de Castela, alegando a consanguinidade em quinto e quarto grau dos noivos, tomam diligências junto da Santa Sé para que não seja consentido este matrimónio, o que efectivamente vem a suceder, situação que se agrava, para o lado dos defensores da união de Henrique e Mafalda, com a morte do jovem rei, em 1217, sem que o seu matrimónio tenha sido consumado. 

Segundo os relatos da época, Henrique I fora atingido por uma telha que se desprendera de um telhado do Paço Episcopal de Palência, estranha ocorrência que leva a crer num atentado e cuja morte era em tudo favorável à causa leonesa e que antecede a chegada do decreto papal com a anulação do matrimónio.   

Se já não o havia feito, a agora Rainha (viúva) D. Mafalda regressa a Portugal em definitivo, recolhendo-se, das tramas e querelas palacianas de Leão e de Castela, no Mosteiro de Arouca. Também desde Dezembro de 1217, resolvida que estava a Questão das Infantas, Mafalda fica à protecção e guarda do irmão. 

Atendendo à sua antiga condição de rainha, não lhe era conveniente nem atractivo um cargo na Corte, portanto a melhor opção foi a sua retirada do “tabuleiro do jogo político peninsular” e o ingresso num mosteiro, seguindo o exemplo da sua irmã mais velha, Teresa, que em condição similar se recolhera no Mosteiro do Lorvão – Penacova.

Num mosteiro, D. Mafalda teria todas as honras de Senhora-Rainha, reinaria, ao mesmo tempo que, num gesto de humildade perante a comunidade voluntariamente se poderia humilhar, enquanto serva do Senhor.

A partir de então, a “Quondam Regine Castelle” (a uma vez Rainha de Castela), como consta nos documentos pontifícios, preocupa-se apenas em reformar, para a Ordem de Cister, o seu Mosteiro de Arouca e nele, por sua influência, começam a chegar cada vez mais, mulheres da alta nobreza que, seguindo o seu exemplo, procuram uma vida recolhida e afastada do mundo secular.

Como o mosteiro vivia em grande penúria e as suas estruturas estavam bastante degradadas, trata de levantar novos edifícios e de aferir rendimentos para garantir o sustento das religiosas. Para tal concede inúmeras doações e revoga em proveito do mosteiro, algumas das que fizera antes de ir para Castela, à Ordem do Hospital. 

Em 1224 obtem a aprovação episcopal para poder prosseguir com a reforma do Mosteiro de Arouca e nos anos de 1225 – 1226, recebe do Papa Honório III as restantes ratificações para a introdução definitiva da Regra de São Bernardo de Claraval. 

Segundo a tradição, antes ou depois do seu regresso de Castela, no âmbito das suas deslocações e permanência em Terras do Douro Litoral, onde passara a sua infância, Mafalda dedica-se ainda à fundação de várias igrejas, nomeadamente as de São Gens de Boelhe, São Pedro de Abragão e São Salvador de Cabeça Santa, em Penafiel. É-lhe ainda atribuída a instituição de um recolhimento de mantelatas em Amarante que, anos mais tarde, se converteria num mosteiro professo na Ordem de Santa Clara, o Mosteiro de Santa Clara de Amarante.

Contrariamente ao que refere a tradição cisterciense, Mafalda não fizera os votos na Ordem que a obrigavam a uma estrita observância na pobreza e à obediência de uma abadessa, situação que lhe era incompatível, atendendo à sua condição de rainha, sendo apenas aceitável o cargo de abadessa, que nunca ocupou, preferindo assumir um papel de reforço do poder da abadessa que, por sua vez, nada fazia sem o seu consentimento, preocupando-se tanto ou mais do que esta pelo bem-estar do mosteiro, providenciando a aquisição de rendimentos canalizados para a satisfação das suas necessidades. 

De igual modo, o não juramento de votos solenes dava-lhe liberdade para poder administrar e gerir as suas possessões, entre elas e citando apenas as da região, os Mosteiros de Paço de Sousa, de Tuias e de Vila Boa do Bispo, a Igreja de São Martinho de Mouros – Resende, bem como as propriedades agrícolas de Fornos, Vila Nova, Canaveses, Quinta de Gontige, Agrochão e Rio de Galinhas. Por vezes, o governo dos seus bens acontecia no interior do próprio mosteiro que, para o efeito, abria as suas portas, ou no Paço da rainha, cuja localização permanece desconhecida. D. Mafalda dispunha ainda de um vasto séquito de vassalos constituídos por mordomo, porteiro, capelães, confessores, notário, cavaleiros e ainda vários serviçais.         

Segundo a tradição, antes ou depois do seu regresso de Castela, no âmbito das suas deslocações e permanência em Terras do Douro Litoral, onde passara a sua infância, Mafalda dedica-se ainda à fundação de várias igrejas, nomeadamente as de São Gens de Boelhe, São Pedro de Abragão e São Salvador de Cabeça Santa, em Penafiel. É-lhe ainda atribuída a instituição de um recolhimento de mantelatas em Amarante que, anos mais tarde, se converteria num mosteiro professo na Ordem de Santa Clara, o Mosteiro de Santa Clara de Amarante[2].

Mafalda viria a falecer no decurso de uma peregrinação iniciada em Tuias a Nossa Senhora da Silva na Sé do Porto, a 1 ou a 2 de Maio de 1256, em Rio Tinto ou, segundo algumas hagiografias, em Amarante. 

O seu corpo é transportado em solene cortejo fúnebre, como refere a tradição das populações do Vale do Sousa, materializada nos diversos marmoirais a si atribuídos, ou melhor à sua memória, em direcção ao Mosteiro de Arouca onde viria a ser sepultado segundo o costume e ritual de Castela, atendendo à sua condição de soberana. 

Em 1617, o seu túmulo é aberto pela primeira vez, e verifica-se que o corpo de D. Mafalda permanecia incorrupto e vestido com o hábito das monjas cistercienses, circunstância que não era incomum entre Senhoras da Alta Aristocracia que se faziam sepultar com hábitos religiosos, por terem professado em Ordens Terceiras ou por se terem recolhido em instituições religiosas. 

Com tão notável descoberta, são iniciados os trâmites para a sua elevação aos altares da Igreja Católica, o que vem a acontecer a 27 de Julho de 1792 pelo papa Pio VI, juntando-se, assim, às irmãs Teresa e Sancha, beatificadas anos antes, a 23 de Dezembro de 1705, por Clemente XI.

Bibliografia:

AMEAL, João, Santos Portugueses; Porto; Livraria Tavares Martins; 1957.
CAPELA, José Viriato; Matos, Henrique et BORRALHEIRO, Rogério; As Freguesias do Distrito do Porto, nas Memórias Paroquiais de 1758; Braga; Edição do Autor; 2009.
CASSOTI, Marsilio; Infantas de Portugal, Rainhas em Espanha; A Esfera dos Livros; Lisboa; 2008.
CRAESBEECK, Francisco Xavier da Serra; Memórias Ressuscitadas da Província de Entre-Douro-e-Minho, no ano de 1726, Vol. I; Ponte de Lima; Edições Carvalhos de Basto (edição fac-similada); 1992. 
COCHERIL, M; L’ implantation des abbayes cisterciennes dans la Péninsule Ibériques, in Annuario de Estudios Medievales, Volume I; 1964.
COELHO, Maria Helena da Cruz; O Mosteiro de Arouca, do séc. X ao séc. XIII; Arouca; Câmara Municipal de Arouca e Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda; 1988.
COELHO (a), Maria Helena da Cruz; Arouca, Uma Terra, Um Mosteiro, Uma Santa; Arouca; Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda e Museu de Arte Sacra de Arouca, 2005.
COELHO (b), Maria Helena da Cruz; As Feiras em Tempos Medievais, in Actas do 3º Encontro de História; Vila do Conde; Câmara Municipal de Vila do Conde; 2005.
RIBEIRO, Daniel José Soares; Mosteiro de Santa Clara de Amarante: História, Património e Musealização; Coimbra; Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (Policopiado); 2011.

[1] – Pelo Direito, pela Lei, que significa uma herança por direito. 

[2] – Recorde o nosso artigo sobre o Mosteiro de Santa Clara de Amarante: https://amarantemagazine.sapo.pt/sociedade-e-cultura/o-mosteiro-de-santa-clara-de-amarante/

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