Maio de 1809: há 212 anos Amarante resistiu à II Invasão Napoleónica

Pormenor da recriação da II Invasão Francesa, realizada em 2009.

“À noite, e tirando proveito das frequentes brumas do Tâmega, quatro sapadores franceses, vestindo capotes cinzentos, deslocaram, muito devagar, quatro barris de pólvora, envolvidos em serapilheira (…). Perante esta distracção das forças portuguesas, Bouchard manda atear o rastilho e dá-se uma tremenda explosão que rebenta por completo a barricada da ponte, eram quatro horas da madrugada do dia 2 de Maio”!

Os antecedentes 

Em 1789, eclodem em França vários tumultos que despoletaram mudanças sociopolíticas e culturais naquela que viria a ficar conhecida por Revolução Francesa, cujo impacto se fez, nas décadas seguintes, repercutir na Europa Ocidental com as designadas Revoluções Liberais. É também a partir desta data que cessa a Era Moderna e surge a Era Contemporânea.

Em 1806, Napoleão Bonaparte, coroado imperador dos Franceses, impõe o designado Bloqueio Continental que tinha por objectivo enfraquecer a Economia Britânica, a principal potência marítima à época, que, impedindo a entrada de navios ingleses nos demais portos europeus, provocava o seu enfraquecimento económico.

Perante este contexto Europeu, Portugal que havia participado nas Campanhas do Rossilhão (Pirenéus Franceses), entre 1793 e 1795, das quais saíra derrotado assiste ao agravar da situação com o Tratado de Basileia (22 de Julho de 1795), assinado entre Espanha e França. A partir de então, procura manter uma posição neutral, porém segundo a diplomacia francesa, Portugal era um país inimigo.  

A 27 de Outubro de 1807, França e Espanha assinam um tratado, o Tratado de Fontaineblau, no qual acordam conquistar Portugal e dividir o país em 3 reinos: o Reino da Lusitânia Setentrional, correspondente à faixa litoral Norte; o Principado dos Algarves que incluía o Alentejo; e o Reino de Portugal no qual se incluía o restante território nacional que ficaria reservado para futuros acordos entre França e Espanha. 

Face à situação pouco favorável e a manutenção da aliança, de 1373, com o Reino Unido que implicou a não adesão ao bloqueio continental, Portugal viria a sofrer as consequências de uma Campanha Militar Francesa, em 1807. 

A 20 de Novembro e depois de ter atravessado o território espanhol, o exército napoleónico, comandado por Jean-Andoche Junot, entra em Portugal a partir da Fronteira de Alcântara (Espanha), atingindo Idanha e daí Castelo Branco, prosseguindo sem resistência até Abrantes, onde chega no dia 24 e no dia 30 de Novembro a Lisboa. Na véspera, a Família Real havia partido para o Brasil, sob a escolta da armada inglesa. 

A 9 de Maio de 1808, o Príncipe Regente, D. João VI, declara guerra à França e tem inicio a ofensiva aos invasores, com a constituição da Junta do Porto e de vários levantamentos populares.  

A 1 de Agosto, desembarca um contingente britânico na Figueira da Foz que, apoiado pelo exército português, começam uma campanha militar que culminou com a vitória dos exércitos anglo-lusos, na Batalha do Vimeiro, a 21 desse mês de Agosto. 

A retirada do exército napoleónico far-se-ia após a assinatura da Convenção de Sintra que acontece a 22 de Agosto. 

Após esta Iª Invasão, o estado do País era deplorável, o exército havia sido dissolvido por Junot; não havia cavalos, armamento, fardamento e os poucos efectivos que se mantinham nos quarteis, sobreviviam da caridade das comunidades locais. A armada portuguesa também não era vista, pois havia partido para o Brasil de onde agora se geriam as várias possessões do Império. 

Do ponto de vista administrativo, a Corte encontrava-se no Brasil e, no território português europeu, restabelece-se o Conselho de Regência em Lisboa, acrescido da Junta Provisional do Supremo Governo do Reino que, a partir do Porto, procura restabelecer a ordem e organizar a defesa do país, exercendo, para tal, acção diplomática junto da Inglaterra que planeava abandonar a Península Ibérica à sua sorte. 

No seguimento da acção diplomática, é enviado para Portugal o general Inglês William Carr Bresford com a finalidade de organizar e instruir um novo exército e vários oficiais para engrossar as tropas. 

A II Invasão Napoleónica a Portugal

Após a neutralização de Espanha, Napoleão Bonaparte ordena uma nova invasão a Portugal. Para isso, a 21 de Janeiro de 1809, endereça as instruções que deveriam ser seguidas ao seu general Jean de Dieu Soult (1769 – 1851).

A 8 de Fevereiro, Soult dá início às operações militares, aproximando-se, pela Galiza, de Portugal. No dia 10, entra em Tuy, prosseguindo em direcção a La Guardia, onde tenta forçar a invasão pela Foz do Rio Minho. 

O General Bernardim Gomes Freire, responsável pela defesa da Província do Minho, precavendo uma investida napoleónica pelo Rio Minho, acautela a defesa das Cidades de Viana do Castelo, Caminha, Vila Nova de Cerveira e Valença. 

No dia 15 de Fevereiro, as hostes de Soult forçam a travessia do rio com recurso a uma flotilha constituída por cerca de 20 barcos, mas sem sucesso, pois a artilharia, instalada no Forte de Lovelhe, consegue repelir a investida. No dia seguinte, nova tentativa, desta vez pela foz do rio, mas as baterias instaladas no Forte da Ínsua e na Areia Grossa conseguem impedir a entrada em Portugal. 

 Ciente das dificuldades, e constatando que seria difícil forçar as defesas do Rio Minho, o Duque da Dalmácia (título honorífico de Soult) afasta-se das margens do Rio Minho e tenta invadir Portugal pela fronteira de Verim – Chaves. 

A Província de Trás-os-Montes, ao contrário da do Minho, estava muito mal preparada e não recebera qualquer reforço de efectivos e munições. Lideradas pelo Brigadeiro Silveira as defesas portuguesas travam os primeiros combates a 6 de Março e conseguem resistir às investidas napoleónicas até ao dia 10. Neste dia, as forças de Soult, marchando em duas colunas ao longo das margens do Tâmega, conseguem alcançar a Praça de Chaves.

Por seu lado, Silveira, consciente das fragilidades de Chaves, semiarruinada e sem artilharia capaz de resistir e de repelir a invasão, procura demover os defensores da praça e os habitantes de Chaves da resistência ao exército napoleónico e em sua vez, retirarem-se para Sul, onde se preparava a defesa a partir de São Pedro e do Outeiro de Juzão. 

Aproximando-se de Chaves, as forças de Soult deparam-se com uma defesa desesperada e desorganizada e na manhã do dia 12, esgotadas todas as munições, Chaves capitula. O exército Imperial aproveita para instalar nesta cidade uma base de operações, transferindo de Monterey feridos, doentes e prisioneiros de guerra. 

Após a tomada de Chaves Soult opta por, depois de tentar envolver as forças de Silveira, dirigir-se para o Litoral, tomando a direcção de Venda Nova – Ruivães – Braga – Porto. Ao longo da marcha, as forças invasoras sofrem várias emboscadas que lhe vão causando algumas baixas. No entanto, não impedem o ataque à Cidade de Braga que apesar de alguns reforços provenientes de Viana do Castelo e do Porto, rende-se no dia 20 de Março.

Importa salientar que nos dias que antecederam os ataques a Braga, a cidade estava em alvoroço que aumentava de intensidade a cada dia que passava à medida que o invasor se aproximava. Nestes dias de tumulto acontecem verdadeiras chacinas, sobre todos os suspeitos em colaborar ou simpatizar com os napoleónicos. Uma dessas vítimas foi o Governador de Armas do Minho, Bernardim Freire de Andrade, por defender uma retirada de Braga, em prol do reforço da defesa da Cidade do Porto. Esta situação gerou contestação e acusado de traição, Bernardim Freire de Andrade é linchado pela turba tumultuosa da cidade que, depois de o ter morto, arrasta o seu corpo pelas ruas de Braga. 

Soult permanece em Braga até ao dia 25 de Março, a fim de efectuar alguns reconhecimentos e dar descanso às suas tropas. 

No dia seguinte procura forçar passagem em Barca da Trofa, mas uma forte guerrilha impede a sua marcha que viria a ser conseguida na Ponte de Negrelos, depois de intensas lutas com alguns guerrilheiros portugueses. No final do dia 27, o exército napoleónico aproxima-se da primeira linha da defesa da Cidade do Porto, constituída por 35 baterias de fogo. No dia 28 dão-se os primeiros combates, mas a cidade resiste. No dia 29, começam a ser neutralizadas as primeiras baterias e Soult ganha vantagem. No meio do alvoroço que se se levanta na cidade, a população começa a dirigir-se para a Ribeira e força a passagem da Ponte das Barcas, de onde já haviam sido retiradas algumas pranchas do tabuleiro, estreitando ainda mais a passagem e, no meio da confusão, muitos são os que sucumbem nas águas do Douro. Outros foram vítimas do fogo desorientado lançado pela bateria instalada na Serra do Pilar em Vila Nova de Gaia. No meio da tragédia que vitimou cerca de 10 000 portugueses, a Cidade do Porto caía às mãos do exército francês!

Após a tomada da cidade sucedem-se as pilhagens, embora Soult, ambicionando ser o Rei da Lusitânia Setentrional, procure ganhar a confiança e a animosidade das suas gentes. Durante a sua permanência no Porto, instalou-se no Palácio das Carrancas, actual Museu Nacional Soares dos Reis.

O general francês rapidamente constata que para prosseguir nos seus intentos, teria de dispor de reforços e de estabelecer contacto com a Galiza, pois, a 25 de Março, o Brigadeiro Silveira consegue reconquistar Chaves e dá início a manobras para tomar a Cidade de Braga. 

Constatando o perigo que corria, após a instalação do seu efectivo na cidade, envia destacamentos para Sul, até à linha do Vouga; para Norte pela linha costeira, a qua viria a ser travada por forças milicianas em Azurara – Vila do Conde; e a partir de Braga, uma nova coluna que deveria abrir caminho até ao Rio Minho, tendo sido tomadas Barcelos, Ponte de Lima, Viana do Castelo, Caminha e Vila Nova de Cerveira. Por fim, decide enviar novo destacamento, desta vez em direcção ao Vale do Tâmega. 

O Solar dos Magalhães foi um dos primeiros edifícios a ser tomado e incendiado pelas tropas francesas.

As Acções Militares no Vale do Tâmega 

A 31 de Março, o Duque da Dalmácia decide enviar a Brigada de Dragões Caulaincourt da Divisão La Houssaye para o Vale do Tâmega. Saindo ainda de madrugada, este destacamento alcança Penafiel ao final da manhã. A sua progressão foi rápida e praticamente não sentiu resistência. 

Ainda no dia 31, Caulaincourt destaca alguns homens para se deslocarem a Marco de Canaveses com o objectivo de verificarem a passagem sobre o Tâmega, pela ponte românica de Canaveses. Neste reconhecimento verificam que em Canaveses havia forças prontas para defender a ponte e à retaguarda, em Amarante, um número ainda maior, pelo que decide neutralizar primeiro a resistência de Canaveses que saiu gorada, e regressam a Penafiel. No dia 9 de Abril, é feito um novo reconhecimento, ficando a saber que a Ponte de Canaveses era intransponível, por lhe terem demolido o arco mais a Sul, em cumprimento das recomendações dadas ao capitão-mor de Tuías e Soalhães. 

Eliminada que estava esta hipótese, a coluna estacionada em Penafiel encontrava-se numa situação complicada. À sua frente tinha as forças de Silveira, que eram cada vez mais, e, à retaguarda, os ataques constantes dos guerrilheiros do Vale do Sousa e de Guimarães, liderados pelo General Botelho.

Perante o agudizar da situação e antevendo que a região de Amarante seria decisiva para o desenvolvimento da trama militar, o General Silveira vai estabelecer o seu quartel-general em Padronelo, até então instalado em Vila Real. No dia 9 de Abril, após a sua chegada, acompanhado pelo seu Estado-Maior, inspecciona as tropas e os trabalhos de defesa que de há algum tempo vinham sendo desenvolvidos, em concreto nas imediações da Ponte de São Gonçalo.

Entre os vários mecanismos instalados ou construídos, importa salientar o fosso, localizado à saída da ponte para o Terreiro de São Gonçalo que dispunha de uma estacada e de uma ponte levadiça. Construíam-se trincheiras nas principais vias de acesso à então Vila; e reforçava-se um portão, construído durante a primeira Invasão a Portugal para eventual defesa da ponte.

Na mesma altura em que o exército napoleónico marchava para o Porto, em Amarante iniciava-se a construção de baterias que teriam por finalidade travar a marcha do invasor e impedir a sua progressão para o Alto-Douro e Trás-os-Montes. Os trabalhos foram da responsabilidade do Tenente-Coronel inglês Patrick. 

Do mesmo modo, à medida que Soult ia progredindo em direcção ao Porto e posteriormente, no decurso das incursões que faz ao Norte de Portugal, são cada vez mais os militares, na sua maioria milicianos, que se apresentam em Amarante para auxiliar na sua defesa. 

Ainda no dia 9, Silveira trata de destacar alguns contingentes dos diversos grupos militares que estavam ao seu serviço para a Estrada do Porto em Vila Meã. 

No dia seguinte, nova força destacada para a Estrada do Porto, desta vez, entre Manhufe e Pidre, Banho e Carvalhosa (Marco de Canaveses). 

A 12 de Abril, o então brigadeiro inspecciona a Margem Esquerda do Tâmega seguindo o caminho marginal para Marco de Canaveses, onde pode conferir as defesas da ponte e os vaus sobre o rio. 

No dia 13, faz uma investida sobre Penafiel conseguindo repelir o exército invasor mas este consegue retomar a cidade no dia 15. 

Do lado do exército napoleónico, a 3 de Abril Caulaincourt verifica que seria difícil com o número de efectivos e armamento que dispunha, conseguir neutralizar as hostes portuguesas concentradas em Amarante e decide pedir reforços a Soult que consente, enviando mais duas bocas de fogo e uma brigada, a Foy. Designa ainda para o comando das operações o general Louis Henri Loison. 

A 9 de Abril, Loison tenta fazer um reconhecimento a Amarante, mas é batido pelo exército luso em Vila Meã e somente alcançaria a povoação de Pidre. 

Face às acções e aos reforços que se iam concentrando em Amarante, Loison solicita ao Duque da Dalmácia, mais reforços. Uma vez que Soult já desesperava pelos atrasos da campanha em Portugal, envia um considerável corpo militar do Porto e manda destacar a Divisão La Houssaye e as Brigadas Sarrut e Marisy de Guimarães para Amarante, pelo Pombeiro, Espiuca e Lixa, perfazendo no total 9 000 efectivos. O comando das operações ficaria reservado a Delaborde. 

No dia 18 de Abril, Delaborde dá início à marcha sobre Amarante. 

O ataque dos franceses à ponte de Amarante durou 14 dias.

A Defesa da Ponte de Amarante

Na manhã do dia 18 de Abril, acontecem os primeiros combates em Vila Meã. Face à superioridade numérica dos efectivos napoleónicos, as forças lusas saem em retirada na direcção de Amarante, tendo ganho vantagem sobre os Dragões de Caulaincourt, em Fregim junto ao Engenho, mas são novamente repelidos com a entrada em combate da infantaria francesa. Novo confronto se dá no lugar da Burgada e as hostes imperiais são travadas, por momentos, junto à Ponte de São Lázaro, continuando e desta vez, numa disputa de palmo a palmo, desde a antiga Rua da Ordem (actual Carlos Amarante) até ao Largo de São Gonçalo. Do lado Português, a resistência foi particularmente renhida no Solar dos Magalhães/Rua do Seixedo, na antiga Rua de São Gonçalo (actual 5 de Outubro) e a partir do Convento de São Gonçalo. 

À medida que o exército napoleónico avançava para Amarante, as milícias, as ordenanças e os paisanos iam atravessando, de forma ordeira, o fosso e as paliçadas existentes à entrada da ponte e ocupando posições estratégicas na Margem Esquerda do Tâmega (pertencentes aos antigos Concelhos de Gouveia e Gestaço).

Ao longo da sua progressão por Amarante, o exército napoleónico instala duas bocas de fogo no Pinhal de Sá e após ter conseguido penetrar na vila, mais algumas no Campo da Feira que ficaram protegidas pelos muros da cerca das freiras de Santa Clara e em Entremuros, na cerca dos Frades. Ocupa também algumas casas com fachadas voltadas para o rio e delas, abrem fogo sobre o exército defensivo, na margem esquerda do Tâmega.  

Digno de memória e de comoção foram os combates quase corpo a corpo, entre o coronel Patrick, José Ferreira e alguns paisanos que conseguiram afastar, por momentos, a coluna do exército francês das imediações de São Gonçalo até à Casa dos Macedos. Neste lugar, viria a ser ferido de morte o coronel inglês. 

Ao cair da noite, parte da então Vila de Amarante sucumbia nas chamas resultantes da troca de fogo e dos incêndios ateados pelo exército napoleónico, entre outras atrocidades. 

Do ponto de vista defensivo, na margem direita do Tâmega, apenas restava o Convento de São Gonçalo. As demais posições do exército Luso-Britânico concentravam-se na margem esquerda do rio.  

As defesas portuguesas, para além das já mencionadas, eram ainda constituídas por efectivos militares junto a pontes e vaus, nomeadamente nos Vaus das Chousas, Barões, Frariz, Morleiros e Cruéis, bem como de baterias de fogo instaladas no morro sobranceiro ao Paço dos Condes do Redondo; Junto à Capela de Nossa Senhora do Calvário e na Eira do Paço. 

O dia 19 passa com trocas de fogo de parte a parte. As forças napoleónicas tentam desocupar as forças resistentes do Convento de São Gonçalo, mas sem sucesso. Instalam também mais duas bocas de fogo no Campo da Feira, sobre a Cerca de Santa Clara. Chegam mais reforços, desta vez os provenientes de Guimarães.

No dia seguinte, são instaladas mais duas bocas de fogo, uma junto à Igreja de Nosso Senhor dos Aflitos e outra por detrás do Açougue da Torre. 

Do lado português, é instalada mais uma boca de fogo, junto à Capela de Santo António da Boavista (localização sobranceira à actual Igreja de Santa Maria Madalena) e outra no terreiro da Madalena (actual Avenida Beira-Rio). 

Durante todo o dia, os ataques foram renhidos, os napoleónicos forçam a travessia da ponte por várias vezes, ainda conseguem apoderar-se de uma das barricadas, localizada à entrada da ponte, mas o fogo que era lançado do Calvário conseguiu travar a investida. Também foram feitas várias tentativas de atravessar a vau, mas sem sucesso. É ainda iniciada a construção de uma ponte de cavaletes sobre o Vau dos Morleiros que viria a fracassar. 

A 21 de Abril, os invasores conseguem tomar o Convento de São Gonçalo e instalam duas peças de artilharia, uma na janela do prior e outra na torre sineira, as quais haveriam de ser inutilizadas pouco depois.

Nos dias seguintes mantem-se o fogo cruzado, do lado francês inicia-se a instalação da ponte de cavaletes sobre o Açude dos Morleiros que não consegue ser concluída, atendendo à muita corrente do rio, aos fundos e leito irregular e ao fogo certeiro, lançado das baterias lusas. 

Por sua vez, Soult, cada vez mais impaciente com a demora na tomada da Ponte d’Amarante, envia o capitão engenheiro Bouchard para se certificar da situação e ajudar a encontrar uma solução.  

Bouchard rapidamente constata as principais dificuldades para a tomada da ponte, particularmente na existência de uma carga explosiva sob o último arco da ponte, pronto a detonar, bastando para isso accionar o gatilho de uma espingarda com o cano dentro de um barril de pólvora.  

No dia 25 de Abril não se registaram acções militares significativas e, no dia 26, o exército napoleónico faz vários reconhecimentos às povoações circunvizinhas de Amarante que iam sendo repelidos por grupos de guerrilheiros. Nesse mesmo dia chega a Amarante o coronel Hulot que se faz acompanhar de 2 bocas de fogo e 5 barris de pólvora. Bouchard aproveita a ocasião para explicar o seu plano e Hulot anui, iniciando-se os procedimentos para a sua concretização. No dia seguinte procuram destruir a paliçada da ponte, a fim de poderem levar a efeito, a implementação do plano, após várias tentativas, conseguem destrui-la. 

O dia 28 passa com alguma calma, mas no dia 29, as forças invasoras desencadeiam vários ataques em simultâneo, designadamente nos vaus de Senhora do Vau, Feitoria, Morleiros e Paul. Com o auxílio de 14 sapadores porta-machados tentam destruir o entrincheiramento e o portão que protegia a barricada da ponte, mas são abatidos pelo exército português, tendo escapado, embora ferido apenas um. 

Os dias 30 de Abril e 1 de Maio são de relativa calma. Entretanto do lado do exército francês, o plano para a tomada da ponte estava definido e foi agendado, para a sua execução, a madrugada de 2 de Maio. 

Ao final da tarde de 1 de Maio, o exército napoleónico inicia manobras de decepção, destacando efectivos para o Vau dos Morleiros e a partir de lá, investem nas baterias portuguesas que se vão orientando para Sul e desviam as atenções da ponte, uma vez que a situação era de relativa calma. 

À noite e tirando proveito das frequentes brumas do Tâmega, 4 sapadores franceses, vestindo capotes cinzentos, deslocaram muito devagar 4 barris de pólvora, envolvidos em serapilheira. Do lado das forças portuguesas, reforçava-se a barricada com a construção de um parapeito. Um dos sentinelas apercebe-se de um dos sapadores franceses e dispara atingindo-o na perna, mas atendendo à calma que se fazia sentir, terão pensado que se tratava de um caso isolado de um soldado francês mais aventureiro e baixam o alerta.

Perante esta distracção das forças portuguesas, Bouchard manda atear o rastilho e dá-se uma tremenda explosão que rebenta por completo a barricada da ponte, eram 4 horas da madrugada do dia 2 de Maio!

Ao mesmo tempo que a barricada era destruída, as forças napoleónicas que já tinham alvos previamente determinados, abrem fogo sobre as posições portuguesas. Aproveitando a confusão, correm sobre o tabuleiro da ponte passando sobre a brecha da barricada e certificam-se que a carga explosiva, colocada por debaixo do último arco não era accionada. Rapidamente conseguem neutralizar as forças portuguesas localizadas nas Casas do Covelo, pelo efeito surpresa e outras pelo cerco de retaguarda, como foram as bocas de fogo da Eira do Paço. Do lado português a desorientação foi total e as forças invasoras, aproveitando o momento, rapidamente chegam a Padronelo onde ainda houve resistência mas superada pouco depois. 

Após a tomada da Ponte de Amarante, o exército napoleónico subdivide-se em várias colunas, uns pela Estrada de Vila Real, outros pela Estrada de Canaveses e outros pela Estrada da Companhia Velha em direcção a Mesão Frio. 

As acções militares no Alto Douro e a Retirada Napoleónica de Portugal

No dia 3 de Maio Soult destaca mais uma força para a Linha do Tâmega, restando apenas 2 divisões a actuar no Minho e ordena que a Divisão Delaborde regresse ao Porto e que Loison se inteire rapidamente da situação em Trás-os-Montes, devendo progredir até Vila Real, Chaves e Bragança. 

No entretanto, apesar da derrota de Amarante, Silveira não se dá por vencido e retirando-se pela Pala para Vila Real deixa destacamentos de defesa em Peso da Régua, nas passagens sobre o Rio Douro em Pala e Caldas de Moledo. No dia 5, Francisco da Silveira encontra-se na Corredoura, onde recebe a notícia da queda de Mesão Frio.

Porém, a situação inverte e parece correr de vantagem para as forças portuguesas que apoiadas pelo exército britânico, lideradas por Beresford, chegam a Lamego e estando Silveira com a retaguarda protegida, dirige-se para Vila Real, pelas Margens do Rio Corgo. No dia 6 de Maio, a Brigada Bacelar (exército britânico), chega à então Vila da Régua.

Porém, Loison não cumpre o seu objectivo e demora-se em Amarante, facto que viria a ser fatal para a missão napoleónica, saindo apenas no dia 8 de Maio, pela Estrada da Companhia em direcção à Régua, de onde se aproxima a 10 de Maio. A sua marcha é travada em Barca do Carvalho, pelo Regimento de Milícias de Bragança. Nesse mesmo dia, fica a saber que a coluna que, entretanto, havia ocupado Vila Real batia em retirada para Amarante por ter sido surpreendida pelas reorganizadas forças de Silveira e antevendo o envolvimento pelos exércitos defensivos, inicia a sua saída por Mesão Frio em direcção a Amarante. Mesmo em retirada, o seu exército era emboscado e atacado por populares, lançando confusão e deixando algumas baixas. No dia 11, Loison acampa em Moure (Lufrei – Amarante) e encontra-se com a coluna que regressava de Vila Real. 

Por sua Vez, Silveira ocupa a Povoação de Ovelha do Marão (actual Aboadela) e aguarda que Bacelar atinja Padrões da Teixeira (Baião). Silveira enfrenta os napoleónicos no Marancinho, mas estes sentindo-se ameaçados pela possibilidade de um confronto com as forças de Bacelar retiram-se para Amarante e daí pela estrada do Porto em direcção a Penafiel. 

Amarante é reconquistada na manhã do dia 13 de Maio e a prematura retirada de Loison coloca toda a Campanha Napoleónica em risco. 

Entretanto, Soul com as demoras na passagem do Tâmega e com a aproximação do exército britânico da Linha do Douro, começa a preparar a sua retirada de Portugal que previa para o dia 13 de Maio, mas é surpreendo a 11 com a chegada das forças de Wellesley à Cidade do Porto e, rapidamente, precipita a sua saída em direcção a Penafiel, tendo vindo a acampar em Baltar. É também nesta localidade e enquanto a sua retaguarda procura travar o exército britânico no Alto de Valongo, o general francês tenta inteirar-se da situação em Trás-os-Montes, cuja comunicação havia perdido desde o dia 7 de Maio. Constatando na madrugada do dia 13 de Maio que o seu exército batia em retirada pelas cercanias do Marão e que as suas forças estavam a abandonar Amarante, manda amontoar o resultado do saque e toda a artilharia pesada para a fazer destruir. De seguida inicia marcha em direcção a Pombeiro, onde se viria a encontrar com as forças provenientes de Amarante e seguem marcha até Guimarães, para se reunirem com as forças estacionadas em Braga e progridem, com dificuldade devido à orografia do terreno, em direção a Salmonde, na Serra da Cabreira e de lá até Montalegre em direcção à fronteira, que alcançam no dia de 18 de Maio, depois de disputadas com muito esforço, as pontes de Saltadoiro e de Misarela. 

Os 14 longos dias de resistência que reduziram Amarante a pouco mais do que cinza, permitiram que os exércitos luso-britânicos estacionados a Sul do Douro conseguissem progredir para Norte e travar a investida de Soult. Ainda em 1809, é delineado um Plano para a Reedificação de Amarante que, depois de aprovado, a 23 de Novembro, seria implementado.

Anos mais tarde, a 21 de Novembro de 1925, Amarante veria o seu heróico sacrifício reconhecido pela Condecoração da Ordem da Torre e da Espada, e marca a vermelho o esmalte do escudo do seu brasão, símbolo da heroicidade e do sacrifício das suas gentes. 

Francisco Silveira viria a ser agraciado, pelo Príncipe Regente D. João, futuro D. João VI, com o título de Conde de Amarante e pelo mérito demonstrado, o cargo de General, a 21 de Maio desse terrível ano de 1809.  

Referências Bibliográficas: 

AZEREDO, Carlos de; A Invasão do Norte; 1809, A Campanha do General Silveira Contra o Marechal Soult; Lisboa; Tribuna da História; 2004.
MAGALHÃES, Pe. Francisco de Azevedo Coelho de; História de Amarante; Amarante; Câmara Municipal de Amarante (Edição Fac-similada); 2008.
SARDOEIRA, Albano; O General Silveira e a Reedificação de Amarante; Amarante; Câmara Municipal de Amarante; 2008.

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