Quando a comunidade se organiza em homenagem a Agustina – 4ª Conferência Andante

Pormenor da Conferência Andante.

Não é fácil classificar Agustina, mas por entre o seu temperamento alegre encontramos, nas entrelinhas das suas obras, uma autora dedicada às pessoas e com um olhar minucioso que tudo e todos observa, revelando audácia, sabedoria e um sentido de humor implacável. 

Celebrar Agustina Bessa-Luís através das suas palavras e das suas obras literárias é sempre o modo mais justo de enaltecer uma das grandes escritoras do século XX.

Não é fácil classificar Agustina, mas por entre o seu temperamento alegre encontramos, nas entrelinhas das suas obras, uma autora dedicada às pessoas e com um olhar minucioso que tudo e todos observa, revelando audácia, sabedoria e um sentido de humor implacável. 

Esta é uma personalidade da literatura portuguesa que integra a Rota dos Artistas: à procura do belo, um projeto turístico-pedagógico do Stay to Talk – Instituto de Imersão Cultural que convida os visitantes nacionais e/ou estrangeiros a percorrer um itinerário temático, partindo à descoberta do património material e imaterial no norte de Portugal e, no qual o visitante é desafiado a experimentar, com os locais, a vida e obra de artistas que tiveram origem e/ou passagem significativa por Amarante.

Nesta época tão especial que inicia agora 2022/23 não poderíamos deixar de celebrar Agustina Bessa-Luís e integramos a programação nacional/local das Comemorações do Centenário de Nascimento da escritora, através da organização de uma atividade designada “Conferência Andante – Agustina Bessa-Luís” implementada em plena cooperação com as Juntas de Freguesia de Travanca e de Vila Meã. Uma dinâmica inovadora que permitiu aos participantes ouvir as palavras de Agustina, conhecer a (s) história (s) dos lugares da autora e ouvir os conferencistas, assim como testemunhos locais que partilharam conhecimentos sobre os lugares de Agustina e sobre a literatura infantil agustiniana. 

A natureza também quis manifestar a sua homenagem e decidiu retratar o dia do nascimento da autora, aquele domingo de 15 de outubro de 1922, às seis da tarde onde se ouvia o “(…) cantar a chuva nas janelas, e um palhacinho vestido de seda, caixa de música que movia um guizo alegre e melodioso, (…)”(Bessa-Luís, Onde nasci, 1997, p.7) que tanto na altura como agora foi a grande anfitriã e acabou por nos dar as boas vindas e acompanhar-nos até ao fim. Sentimos a sua presença ao longo da conferência, mas a chuva não demoveu os presentes, que à chegada ao Mosteiro de Travanca, revelaram desde logo um grande interesse em prosseguir os caminhos e os lugares de Agustina com grande expetativa.

A receção aconteceu na entrada dos claustros, um espaço onde impera o granito que contrastava com o calor humano aconchegado por um café quente e um docinho, disponibilizado pela Junta de Freguesia de Travanca. Com as forças revigoradas e com uma grande vontade de aceder à “alma dos lugares”, iniciámos a Conferência Andante junto ao portal principal da igreja do mosteiro, ouvindo as palavras de Agustina Bessa-Luís. Como será que Agustina descreveu este monumento?

Numa versão intimista entrámos na igreja e permanecemos junto à pia batismal. Aí fomos invadidos pela reflexão acutilante que a escritora exercitou num dos seus textos. As palavras de Agustina converteram-se em ecos como que assimiladas pelas paredes românicas do espaço espiritual, compondo assim uma sala que desde há vários séculos tudo e todos acolhe e que Agustina escolheu como a sua “sala de receber”. 

Neste espaço a voz, “um material plástico” (Bessa-Luís, 2008, p. 54) foi um dos veículos que permitiu uma aproximação à escritora e à história do mosteiro. Através da intervenção de Dra. Sofia Mesquita, técnica superior e investigadora permanente no Stay to Talk Instituto, conhecemos um pouco melhor a história do mosteiro, bem como as comunidades que a ele estiveram ligadas em tempos. Na sua reflexão a conferencista acrescentou também uma breve análise à possível relação entre os factos históricos associados à instituição monástica e a narrativa do romance O Mosteiro, destacando em Agustina, a sua preocupação pela investigação histórica e a sua mestria em descrever lugares, ambientes, pessoas e comportamentos. Algo muito interessante para uma filha de Travanca que frequentou este espaço.

Com emoções, ideias e pensamentos retidos na memória ou no bloco de notas, ou no registo fotográfico seguimos viagem para o lugar do Barral, um sítio que convida ao passo lento e contemplativo, retrato das paisagens rurais do vale de Travanca tão bem descritos por Agustina na sua obra O Mosteiro, o “(…) vale, dentro dum anel de pinhais, sempre um pouco sobrevoado por nevoeiros, o que o tornava encoberto aos olhos dos viajantes da estrada real, adquiriu uma identidade muito própria.” (p.40).

Percorremos a rua Agustina Bessa-Luís, sim existe uma rua com o seu nome desde 2005 em Travanca, de seguida entrámos num caminho estreito que nos encaminhou até à entrada principal da Casa do Paço. Por entre campos agrícolas e ao som da água que caía do tanque, fomos guiados pelas sábias palavras de Agustina, assim como pela importância que este lugar teve para a construção da personalidade da escritora. Um espaço repleto de vivências, memórias, afetos e lições de vida que a autora transportou para muitos dos seus textos literários, com especial destaque para A Sibila.

Neste lugar ouvimos o Arquiteto Hugo Martins, que em 2017 estudou este mesmo lugar e desenvolveu uma dissertação de mestrado intitulada Há uma data na varanda desta sala: arquitetura e literatura: afinidades eletivas. Através do seu ensaio, o conferencista encetou uma análise da perspetiva de Agustina em relação ao(s) ambiente(s) que a rodeavam e a forma como refletia sobre os mesmos. Esta análise, segundo o interveniente, apresenta-se essencial para a abordagem do contexto histórico do romance agustiniano e do panorama arquitetónico verificado há época. De acordo com Hugo Martins, Agustina realiza uma leitura única dos espaços e dos edifícios, demonstrando as várias realidades dos mesmos, oscilando entre a ruína e a vida, a realidade e a ficção, o rural e o citadino, a dinâmicas familiares, todas as características que conferem identidade a um lugar, destacando-se, por último, o conceito mais lato do que é o lugar Casa. 

Ficou reforçada a inspiração que autora buscou na Casa do Paço para a redação de A Sibila, muitas das descrições apresentadas no romance estão refletidas neste mesmo espaço, desde personagens como a tia Amélia, que surge como Quina, até aos pormenores arquitetónicos e às paisagens que ainda hoje reconhecem, e que conseguimos visualizar in locu a seguinte descrição: 

“Compunha-se o corpo principal da casa duma varanda aberta sobre o quinteiro e cuja extensão estavam dispostos os quartos, por sua vez voltados para a eira. A varanda era coberta com um telhadinho sustido por barrotes, e possuía uma cancela raramente utilizada, de acesso à escada que o tempo ia fazendo musgada.” (p.34)

Depois desta forte imersão literária levada a cabo num lugar por si só inspirador, rumamos a Vila Meã. Não pelas mesmas vessadas que Quina percorria para chegar até ao comboio, mas por estradas empedradas e alcatroadas. Em Vila Meã, um outro lugar muito caro para Agustina e, que a mesma enaltece em muitos dos seus textos, conhecemos um pouco melhor a história da casa de Santa Cruz e do 1º visconde Souza Soares, homem forte da indústria farmacêutica e autor do famoso medicamento “Peitoral de Cambará”, também ele recordado por Agustina Bessa-Luís como o “visconde de Cambará”. 

Deixámos este local protegido por gigantes sem folhas e ladeado pela linha férrea do Douro, para darmos continuidade à nossa caminhada e, assim contemplarmos outros pontos não menos importantes como a Casa da Botica, os Antigos Paços do Concelho e a casa onde ela mesmo diz ter nascido naquele dia de chuva. Neste recanto revestido pelas marcas do tempo, caminhamos com Agustina pelas ruas e casas de Vila Meã, mas sem nunca termos saído deste mesmo local. Com ela conhecemos os sons, os cheiros, os dias de feira, os que habitavam casas ilustres de Vila Meã, em suma, a alma deste lugar. 

Quase na reta final da Conferência Andante, paramos no auditório da Biblioteca Municipal Albano Sardoeira Vila Meã para saborear um agradável lanche preparado pela Junta de Freguesia de Vila Meã. Com as energias repostas deu-se início à intervenção do último conferencista, o Professor Doutor Francisco Topa, mas antes ficamos com as palavras de Fernando Cunha, Presidente da Junta de Freguesia de Travanca; Lino Macedo, Presidente da Junta de Freguesia de Vila Meã e Jorge Ricardo, Vice-Presidente da Câmara Municipal de Amarante. 

Agustina e a literatura infantil

Mas qual terá sido a relação de Agustina com a literatura infantil? 

Em resposta a esta pergunta fomos guiados pela análise do Professor Doutor Francisco Topa que nos elucidou sobre o seu trabalho Olhares sobre a Literatura Infantil – Aquilino, Agustina, conto popular, adivinhas e outras rimas, mais concretamente sobre o texto Agustina e o outro lado da infância. Na sua intervenção, o conferencista destacou três obras literárias de Agustina que estão classificadas como literatura infantojuvenil: A Memória de GizDentes de Rato e Vento, Areia e Amoras Bravas. Salientou que as mesmas se enquadram nessa categoria de literatura, no entanto apresentam uma vertente autobiográfica e uma capacidade de cativar leitores de várias faixas etárias.  Através destas obras literárias, a autora abre portas para que o leitor conheça “por dentro o outro lado da infância” (Topa, 1998, p. 45), bem como outros elementos que caraterizam a vivência infantil, tais como, cheiros, sons, objetos, sentimentos sobre figuras e ambientes, numa narrativa que conquista tanto o público infantojuvenil como o adulto. 

Desta forma terminamos a Conferência, onde tivemos a oportunidade de sentir os lugares com os cinco sentidos e, essencialmente, de ouvir as palavras de Agustina Bessa-Luís a quem, de forma colaborativa lhe prestamos homenagem com um grupo atento de participantes e seguidores da autora. 

Fica o convite para que acompanhe o Stay to Talk e siga a Agenda Anual de Atividades (2022-23) a par da Agenda Local e Nacional das Comemorações do Centenário de nascimento de escritora, com a qual o Stay to Talk se compromete a realizar uma atividade por mês alusiva à autora, personalidade chave da Rota dos Artistas que promovemos há já dois anos, entre outras atividades, eventos, programas online, partilha de fotografias e aforismos, publicação de artigos, curiosidades e outros. Continuemos Agustina!

Referências bibliográficas
Bessa-Luís, A. (2019). A Sibila. Relógio D’Água Editores. 34ª Edição.
Bessa-Luís, A. (2017). O Mosteiro. Relógio D’Água Editores. 7ª Edição. 
Bessa-Luís, A. (2008). Dicionário Imperfeito. Seleção e Organização Manuel Vieira da Cruz e Luís Abel Ferreira. Lisboa. Guimarães Editores. 
Bessa-Luís, A. (1997). Onde Nasci. In Anto, nº1, Amarante, Primavera.
Topa, F. (1998). Olhares sobre a Literatura Infantil – Aquilino, Agustina, conto popular, adivinhas e outras rimas. Porto. Edição do Autor. Disponível em https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/75553

Stay to Talk – Instituto de Imersão Cultural

Carolina Mendes
Sofia Mesquita

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