Há cerca de três semanas, o Grupo Vale do Ave, concessionário, através da Rodoamarante, do serviço público de transportes no concelho, apresentou, num grande evento mediático, 11 novos autocarros elétricos, nos quais investiu 4,6 milhões de euros.
Dada a natureza destes veículos (elétricos) são evidentes as vantagens para o ambiente. Mas será que esta modernidade tem equivalência na comodidade do transporte de todos os passageiros, com destaque para os que têm mobilidade reduzida, são invisuais ou têm dificiência auditiva, por exemplo?
AMARANTE MAGAZINE desafiou Rosa Lemos – conhecida, em Amarante, pela forma como faz valer os seus direitos de cidadania – a testar a acessibilidade dos novos autocarros. Desafio aceite, eis o seu testemunho na primeira pessoa.
“Consegui efetivamente utilizar um dos novos autocarros elétricos para poder avaliar a sua acessibilidade. No entanto, a experiência não foi simples, uma vez que não existe uma rota definida ou informação clara que permita identificar facilmente em que percursos e horários estes veículos circulam.
Durante a viagem procurei observar os vários aspetos relacionados com a acessibilidade. Pelo que me foi possível constatar, a única medida de acessibilidade existente é a rampa de acesso para pessoas com mobilidade reduzida (Esta rampa não é elétrica e muito dificilmente pode ser acionada por quem se desloca em cadeira de rodas).
Contudo, importa referir que a existência de rampa não constitui propriamente uma novidade, uma vez que os anteriores veículos já disponibilizavam essa solução. Assim, para além do facto de serem elétricos, não consegui identificar melhorias significativas ao nível da acessibilidade que representem um verdadeiro avanço para os utilizadores com deficiência.
Também verifiquei a inexistência de anúncio sonoro das paragens e de visores interiores com informação das paragens em tempo real. Estes são elementos fundamentais para garantir a autonomia de pessoas com deficiência visual, auditiva ou outras limitações que dependem de informação acessível durante a viagem.
É verdade que esta não é uma realidade exclusiva de Amarante. Apesar de algumas grandes cidades portuguesas já disporem de veículos e sistemas de transporte mais completos do ponto de vista da acessibilidade, esta continua a ser uma lacuna significativa em muitas regiões do país. No entanto, é precisamente por isso que considero que os novos investimentos públicos devem procurar corrigir estas falhas e não perpetuá-las.
Quando está em causa um investimento de vários milhões de euros em veículos novos, financiado através dos recursos públicos e dos impostos pagos por todos os cidadãos, é legítimo esperar que esse investimento corresponda aos padrões atuais de acessibilidade e inclusão. Se estamos a adquirir autocarros novos, não faz sentido que continuem a faltar funcionalidades básicas que permitam a sua utilização autónoma por todas as pessoas.
A acessibilidade não pode ser vista apenas como a possibilidade de entrar no autocarro. A legislação e as boas práticas atuais apontam para uma mobilidade inclusiva, onde a informação visual e sonora faz parte integrante da acessibilidade. Uma pessoa cega deve conseguir saber qual a próxima paragem. Uma pessoa surda deve conseguir acompanhar visualmente o percurso. Uma pessoa com mobilidade reduzida deve conseguir viajar com autonomia e dignidade.
Na minha opinião, a maior questão não é o facto de esta realidade existir em Amarante ou noutra qualquer cidade. A verdadeira questão é que, quando se investem milhões de euros em equipamentos novos, não deveria continuar a ser necessário falar de exclusão. O dinheiro é de todos, os transportes são públicos e, por isso mesmo, deveriam estar preparados para servir todos os cidadãos, sem exceção.
Quando o investimento é de todos, os benefícios também devem ser para todos. Caso contrário, corremos o risco de continuar a construir soluções modernas na aparência, mas que deixam para trás uma parte da população.
Tenho a convicção de que Amarante merece transportes modernos, sustentáveis e verdadeiramente acessíveis, capazes de responder às necessidades de toda a população, sem exceção”.
Autocarros acessíveis
Genericamente, um autocarro acessível é um veículo de transporte público adaptado para garantir a entrada, saída e deslocação autónoma e segura de todos os passageiros, incluindo pessoas com mobilidade reduzida, deficiência motora, visual ou auditiva, idosos, grávidas e quem transporta carrinhos de bebé.
Os elementos que tornam um autocarro acessível incluem:
- Piso rebaixado e rebaixamento lateral (Kneeling): O autocarro não tem degraus na entrada e pode inclinar-se ou “ajoelhar” na direção do passeio para facilitar o acesso.
- Rampa de acesso: Rampas manuais ou automáticas que vencem o desnível entre o passeio e o interior do veículo.
- Espaço reservado: Uma área interior própria para acomodar com segurança cadeiras de rodas, equipada com cinto de segurança e encosto (espaldar).
- Sinalização inclusiva: Avisos sonoros para anunciar as próximas paragens (essenciais para invisuais) e ecrãs visuais (úteis para pessoas com deficiência auditiva).
- Bancos prioritários: Assentos devidamente assinalados e localizados perto das portas para passageiros com mobilidade condicionada.

