Em Amarante, a devoção a São Sebastião está documentada desde finais do Séc. XV, como comprova a pintura afresco com a sua representação, ladeado por Santa Luzia e por Santa Catarina de Alexandria, existente na Igreja de São João de Gatão. No entanto, torna-se mais evidente a partir do Séc. XVI, designadamente pela instituição das Capelas de Travanca, Amarante, Mouquim e Aboadela. Noutras comunidades, e nas respectivas igrejas paroquiais, são edificados retábulos em sua honra por exemplo em Ansiães, Candemil, Freixo de Baixo, Rebordelo, Telões, Madalena, São Veríssimo e Jazente.
SÃO SEBASTIÃO é um mártir cristão, dos finais do Séc. III (256 – 286), natural de Narbona – França que integrou uma das legiões do exército do imperador Diocleciano. No exército, a sua bravura e prudência rapidamente foi notada e o jovem militar acabaria por ser nomeado para o cargo de comandante da guarda imperial, passando a privar com o próprio imperador.
Quando estava em Roma, Sebastião zelava com cuidado e dedicação todos os cristãos encarcerados, visitando-os e consolando-os, numa tentativa de lhes minimizar as agruras por que passavam na prisão.
No entanto, no seguimento da promulgação de um decreto que determinava a expulsão de todos os cristãos do exército romano, Sebastião é denunciado e, por conseguinte, sujeito a interrogatório conduzido pelo próprio imperador. Durante a inquirição, confirma a sua Fé e o Imperador procura, a todo o custo, que a ela renuncie. Não o tendo demovido das suas crenças e fortes convicções, ordena a sua execução. Alguns legionários levam-no, então, para um descampado e, depois de o terem despido e amarrado ao tronco de uma árvore (laranjeira segundo a tradição católica), cravejam-no de setas e abandonam-no ainda agonizante, pensando que morreria esvaído em sangue.
Durante a noite, uma mulher chamada Irene, juntamente com algumas companheiras, vão ao local da execução, para dar sepultura ao santo. Ao verificarem que ainda estava vivo, desamarram-no e levam-no, às escondidas, para casa e cuidam dele.
Algum tempo depois e sentindo-se restabelecido, São Sebastião apresenta-se ao imperador para o censurar pela perseguição aos cristãos. Não reconhecendo as suas admoestações e irado pela sua frontalidade, Diocleciano ordena que seja espancado e degolado. Para impedir que o seu corpo seja venerado pelos cristãos como mártir, manda-o atirar aos esgotos da cidade. Porém, uma mulher chamada Luciana, Santa Luciana, encontra-o e dá-lhe sepultura nas catacumbas de Roma.

No Séc. VI, as suas relíquias são transportadas para uma basílica, onde ainda hoje se encontram à veneração popular, a Basílica de São Sebastião Fora de Muros. O acto de trasladação aconteceu na mesma altura em que grassava uma terrível epidemia na Cidade de Roma. Consta, segundo a crença popular, que a epidemia desapareceu após a conclusão das cerimónias.
Os próprios instrumentos do martírio, o arco e as flechas, são, desde a Antiguidade Clássica, símbolos de morte e doença e como São Sebastião sobreviveu ao primeiro martírio, os cristãos dos inícios da Idade Média passaram a conotar o mártir como protector dos povoados, contra as epidemias (vulgo pestes), as fomes e as guerras. É por esta razão que os seus templos, por norma, se localizam à entrada das povoações, junto a uma das vias principais. Nas localidades marítimas, é frequente vê-los próximos ao porto.
Em Portugal, a difusão da devoção ao Mártir São Sebastião deveu-se, em muito, à acção do rei D. Sebastião (1554 – 1578), o qual havia nascido no seu dia e, por essa razão, recebera o seu nome. A Corte vê nesta coincidência um certo messianismo para o jovem rei, intitulando-o, à semelhança do guerreiro mártir, “Defensor dos Cristãos”.
Devoção a S. Sebastião procura afastar a fome as pestes e as guerras
Ao longo do seu reinado, D. Sebastião foi um acérrimo defensor e impulsionador do santo homónimo e seu protector, patrocinando e incentivando a construção de igrejas, capelas e oratórios, tendo, inclusive, dado inicio à construção de uma igreja em sua honra, junto ao Paço da Ribeira (actual Terreiro do Paço), em cumprimento de um voto que havia feito pelo fim de uma epidemia que deflagrava em Portugal[1]. Para além destas fundações, institui uma nova ordem militar, a Ordem de São Sebastião Dita da Frexa (ou da Flexa), entre os anos de 1573 e 1576 e acrescentou 3 flechas ao escudo real, em agradecimento pela recepção de uma das setas de São Sebastião que o Papa Gregório XIII lhe havia oferecido em 1574[2].
Importa referir que os meados do Séc. XVI, que correspondem ao reinado do “Desejado”, viriam a ficar marcados por vários períodos epidémicos, por vezes associados a maus anos agrícolas e, como tal, à escassez de produtos agrícolas que provoca uma carestia de preços, o que, por sua vez, dá origem a fomes.
Apesar de não se conhecer o verdadeiro impacto das fomes e das epidemias em algumas localidades, aventa-se que as pestes de 1561, 1562 e 1577, que se fizeram sentir com intensidade nas Cidades do Porto, Matosinhos, Esposende, Aveiro, Guarda e Montemor-o-Velho, poderão ter atingido ou influenciado outras localidades.
Em Amarante, a devoção a São Sebastião está documentada desde finais do Séc. XV, como comprova a pintura afresco com a sua representação, ladeado por Santa Luzia e por Santa Catarina de Alexandria, existente na Igreja de São João de Gatão. No entanto, torna-se mais evidente a partir do Séc. XVI, designadamente pela instituição das Capelas de Travanca, Amarante, Mouquim e Aboadela. Noutras comunidades e nas respectivas igrejas paroquiais, são edificados retábulos em sua honra como, por exemplo, em Ansiães, Candemil, Freixo de Baixo, Rebordelo, Telões, Madalena, São Veríssimo e Jazente[3].
Desconhecidos que são os motivos para a instituição de tão particular devoção em Amarante, aventam-se razões taumatúrgicas acrescidas do incentivo e exemplo do próprio Rei D. Sebastião, cuja acção esteve, por várias vezes, associada a Amarante, que se passam a citar:
- Em 1561, D. Sebastião recebe do Papa Pio IV autorização para se poder prestar devoção ao venerando Gonçalo de Amarante;
- Em 1565, concede à câmara da então vila, o direito a taxar sobre a carne, o vinho, o azeite, o mel e o sal para efeitos de comparticipação nas obras da Casa da Câmara[4], iniciadas ainda no tempo do seu avô e antecessor, D. João III;
- De data desconhecida, a doação de um assento da oficina de lonas e vedantes (para a Armada Real) da Feitoria ao Mosteiro de Santa Clara de Amarante.
Segundo consta, os moleiros saiam de manhã cedo pelas ruas da cidade (à data vila) com bombos, aclamando São Sebastião, protector das fomes, das pestes e das guerras. No final, realizava-se uma cerimónia eucarística em sua honra na Capela do Campo da Feira, seguindo-se um almoço oferecido pelos moleiros, no qual eram confeccionadas as tradicionais “Papas de São Veríssimo”, também designadas por “Papas da Peste” ou “Papas do Bucho (…)”
A partir de finais do Séc. XVIII, o culto a S. Sebastião, em Amarante, perde o fervor das centúrias anteriores, em detrimento de outras devoções que, entretanto, vão ganhando expressão. Serve de exemplo, a capela do Campo da Feira que passa, em data anterior a 1748, para a invocação de Nossa Senhora da Ajuda[5]. No entanto, mantinha alguma expressão pública, materializada anualmente pelos moleiros de São Veríssimo que se encarregavam de organizar a sua festa, a 20 de Janeiro ou no domingo imediato.
Esta festa tinha o propósito de cumprir um voto dos moleiros, realizado em data incerta mas recuado no tempo, com o propósito de agradecer ao mártir a abundância de cereal, ou seja, neste caso particular, a devoção a São Sebastião tem por objectivo afastar a fome.
Segundo consta, os moleiros saiam de manhã cedo pelas ruas da cidade (à data vila) com bombos, aclamando São Sebastião, protector das fomes, das pestes e das guerras. No final, realizava-se uma cerimónia eucarística em sua honra na Capela do Campo da Feira, seguindo-se um almoço oferecido pelos moleiros, no qual eram confeccionadas as tradicionais “Papas de São Veríssimo”, também designadas por “Papas da Peste” ou “Papas do Bucho”. Depois do almoço, realizava-se ainda uma Procissão pelas ruas de Amarante com o andor de São Sebastião. Em 1919, segundo anuncio publicado no Semanário Flor do Tâmega, a festa acontecia na Igreja de São Veríssimo, mantendo programa idêntico.
Também em Aboadela, no Lugar de Rua, ainda se realiza a festa ao santo mártir que tem por objectivo agradecer a S. Sebastião o voto realizado pelos ex-combatentes do Ultramar, aquando da sua partida para as antigas colónias portuguesas.
Por sua vez em Figueiró – São Tiago, há uma peculiar tradição, realizada na madrugada de S. Sebastião, que consiste na ronda pelos limites da freguesia com o intuito de afastar da comunidade as fomes, as pestes e as guerras.
Em Travanca, a Festa em Honra a São Sebastião apresenta características semelhantes à maioria das festas e romarias de Portugal, existindo uma componente religiosa e outra profana, acompanhada de alguma folia. Era ainda no decurso desta romaria que se elegiam os juízes da Cruz da Paróquia do Divino Salvador de Travanca e que, na Páscoa seguinte, se encarregariam de organizar a Visita Pascal.
A estas, podem-se ainda acrescentar manifestações de devoção sebastiânica em Fregim e em Mancelos, nas quais foram construídas capelas mas de cronologias mais recentes.
Pelo acima exposto, constata-se que a devoção a São Sebastião em Amarante, à semelhança de outras localidades, parte de um voto e que se subdivide em três componentes, “São Sebastião protector das pestes”; “São Sebastião protector das fomes”; e “São Sebastião protector das guerras”.
Em Travanca, tinha a particularidade de ser no decurso da sua festa que se anunciavam os Juízes da Cruz, relembrando o epiteto de “São Sebastião Protector dos Cristãos”.
Bibliografia:
CAPELA, José Viriato e BORRALHEIRO, Rogério; As Freguesias do Distrito do Porto, nas Memórias Paroquiais de 1758; Braga; Edição dos Autores; 2009.
CRAESBEECK, Francisco Xavier da Serra; Memórias Ressuscitadas da Província de Entre Douro e Minho; no ano de 1726; Vol. I e II; Ponte de Lima; Ed. Carvalhos de Basto (fac-simile); 1992.
MAGALHÃES, Pe. Francisco de Azevedo Coelho de; História de Amarante; Amarante; Câmara Municipal de Amarante (Ed. Fac-similiada); 2008.
SARDOEIRA, Albano; Capelas de Amarante que Desapareceram (continuação) in Flor do Tâmega, nº 3107, Amarante, 18 de Agosto de 1946.
[1] – O Reinado de D. Sebastião é marcado por vários períodos epidémicos.
[2] – No símbolo heráldico da Cidade de Amarante, pode ver-se, na destra do leão, um feixe de setas que representa a antiga Casa da Câmara concluída no reinado de D. Sebastião.
[3] – O presente rol foi efectuado com base nas descrições das Memórias Paroquiais de 1758.
[4] – Instalada na actual Rua Miguel Bombarda, cujo edifício apresenta na fachada pedra de Armas do reinado de D. Sebastião.
[5] – A Capela de São Sebastião localizava-se no Largo Sertório de Carvalho e foi demolida em meados do Séc. XX para a construção de um tanque de abastecimento de água.
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