Verão e calor rimam com natureza, floresta, água. E em tempo de férias, quando é preciso ocupar o tempo livre das crianças, há visitas de que se pode tirar partido, seja do ponto de vista lúdico ou pedagógico. Conhecer ou (re)descobrir o Viveiro das Trutas do Marão, pode ser uma sugestão interessante.
Chama-se Posto Aquícola do Torno, com placa indicativa na EN 15, mas todos o conhecem como Viveiro das Trutas do Marão. Situado a meia encosta, à cota dos 660 metros, foi criado em 1949 e ocupa cerca de três hectares de terreno, nos quais, até à década de 1940, existiu um viveiro de plantas, usadas na florestação da serra, um processo iniciado em 1916.
Abastecido de água pelo Ribeiro do Ramalhoso, o Posto Aquícola do Torno tem como função principal a reprodução de trutas em cativeiro, que, já adultas (“quando atingem a medida”, diz-se), vão povoar os rios Olo, Bessa, Coa, Mouro e Paiva. O processo inicia-se naqueles cursos de água, com a “pesca elétrica” de fêmeas e machos, a quem, já no viveiro, se retiram, respetivamente, os ovos e o sémen, de cuja fecundação nascerão os alevins.
Nos viveiros ficarão, em tanques diferentes, até serem levados – já trutas adultas – para os rios de origem dos seus progenitores, acreditando-se que deles herdam os “marcadores” que hão de facilitar a sua integração no ecossistema de cada rio.
O processo de desova e reprodução decorre entre novembro e março, período durante o qual o Viveiro das Trutas do Marão recebe visitas de estudo de alunos de todos os níveis de ensino, sendo inúmeros os trabalhos académicos que têm aquela estrutura como referência. Em seis meses, nascem ali mais de um milhão e meio de trutas (já foram para cima de três milhões!), a maioria das quais são trutas fário, as mais comuns. As outras, conhecidas pelas suas pintas cor de salmão, são as trutas arco-íris.
Em 1985, a maioria da população de trutas do viveiro morreu, em consequência do depósito de cinzas, na água dos tanques, provocado pelo incêndio que, então, consumiu mais de mil hectares da serra.
Até ao ano dois mil, o Viveiro vendia trutas a quem o pretendesse. Porém, a partir de então, a venda passou a ser feita apenas a clientes empresariais, entre os quais organizações com lagoas “pesca e paga”; entidades públicas ou associações de pescadores, que fazem aquisições antes da realização de concursos de pesca.
Aos serviços do Viveiro de Trutas do Marão recorrem também empresas concessionárias de barragens que, por obrigações contratuais de reposição de ecossistemas, fazem o repovoamento de rios truteiros de bacias hidrográficas onde são construídos empreendimentos hidroelétricos. Recentemente, uma conhecida empresa do setor energético adquiriu ali 400 mil trutas com esse fim.
São muitos os cuidados inerentes à criação de trutas no Posto Aquícola do Torno, alguns dos quais têm a ver com a alimentação dos peixes. Desde os primeiros anos do século XXI que as trutas ali nascidas deixaram de ser alimentadas com restos de carne (fígados, coração e outros desperdícios dos talhos), como acontecia desde a sua fundação. Passou-se, então, a usar ração (farinha de peixe), adequada a cada uma das suas fases de desenvolvimento.
A qualidade da água que abastece os tanques, proveniente de uma nascente na serra e que corre no leito do Ribeiro do Ramalhoso, constitui um fator crítico. Enxurradas provocadas por chuva intensa, por exemplo, não são bem-vindas, por poderem provocar contaminação. De resto, porque na zona existem umas antigas minas de volfrâmio, que originam escorrências, os Serviços Florestais decidiram “apanhar” a água daquele ribeiro a montante, desviando-a, depois, para uma conduta com mil e oitocentos metros de comprimento, abastecendo, assim, com mais segurança, os viveiros.
O Viveiro das Trutas do Marão é, claramente, um dos mais significativos Pontos de Interesse (PI) da serra, pedindo uma visita. Se a ideia for ver e perceber, in loco, o processo de reprodução, a visita deve ser feita entre novembro e março, embora no local exista documentação que, “fora de época”, o pode ilustrar.
A frescura do local e a sua envolvência sugerem também uma “imersão” pelo sítio fora daquele período, em pleno verão, porque não? Já agora, fique a saber que o Viveiro das Trutas do Marão é local de passagem (e de pausa) da PR6 – Pequena Rota 6, um percurso de 14,5 quilómetros pela serra, que vale, francamente, a pena fazer.
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