O inabalável poder da homeostasia cultural

Foto de Fauxels/ Pexels.

Nesta altura, embora com certas reservas, comemoramos finalmente a liberdade que sentimos ao, oficialmente, deixarmos de usar as máscaras comunitárias ou cirúrgicas que tanto instigaram à contestação a nível mundial.

Foram dois anos de medos, aprendizagens, incertezas, de avanços e recuos de práticas, de assimilar uma nova linguagem, da chamada distância social em prol do bem comum e da saúde pública e que, paulatinamente, foi sendo imposta por vezes à custa de coimas e que veio contribuir para que o tecido do relacionamento humano mudasse significativamente. Hoje em dia é comum optarmos por diferentes formas de nos cumprimentarmos, pelo teletrabalho, por modos de organizar eventos alternativos e, entre outras, optar por um conjunto de práticas sociais que distanciam seres humanos e que, consequentemente, tornaram a vida em sociedade diferente do que era antes da pandemia.

Tudo tem vindo a contrariar o instinto do ser vivo que é unir-se e estar junto na adversidade. António Damásio (2017) demonstra isso mesmo ao afirmar que as baterias, seres vivos simples na sua constituição, quando se desenvolvem em terrenos férteis, ricos em nutrientes, dão-se ao luxo de terem uma vida independente umas das outras, no entanto, as que vivem ou passam a viver em terrenos hostis, em crise, sem esses nutrientes vitais acabam por se agregar e delinear uma estratégia interna de luta pela sobrevivência. De registar que o mesmo aconteceu ao Homem, apesar de possuidores de toda a complexidade como sentimentos, consciência e de raciocínio deliberado, perante a crise pandémica acabou por realizar também um verdadeiro trabalho agregado relativo ao seu combate.

Foi nesta altura que, fruto da sua complexidade e da constante resposta adaptativa, se evidenciou o ponto alto de todo o trabalho associativo, de todo o altruísmo, de entreajuda concretizado em diversos projetos, medidas, políticas e práticas de solidariedade, um trabalho de verdadeira cooperação, a que podemos comparar ao que António Damásio (2017) designa de o “inabalável poder de homeostasia cultural”[1], que lhe permitiu minimizar o problema e que, no fundo, contribui para que a espécie humana persistisse e a respetiva cultura.

“O associativismo envolve a participação, união, cooperação por objetivos comuns, é uma maneira de motivar os cidadãos à ação e de tomarem consciência de que juntos são mais fortes e capazes de criar soluções para problemas que enfrentam diariamente”.

Até aqui nada de novo, no entanto, agora que retiramos as máscaras, que os números assim ditam e que, em sociedade, assumimos que podemos estar juntos sem grandes reservas, o designado poder homeostático assente em grande parte no associativismo tem de continuar em força e não pode esmorecer. Nos últimos anos, a sociedade civil tem vindo a fortalecer-se e tal como as baterias, o trabalho do associativismo tem vindo a contribuir para muitos dos avanços em diferentes áreas da sociedade. Mas afinal o que é isto do associativismo?

O associativismo “é a expressão organizada da sociedade, apelando à responsabilidade e intervenção dos cidadãos em várias esferas da vida social e constitui um importante meio de exercer cidadania.” (Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social e Instituto para o Desenvolvimento Social, 2001:5). O associativismo envolve a participação, união, cooperação por objetivos comuns, é uma maneira de motivar os cidadãos à ação e de tomarem consciência de que juntos são mais fortes e capazes de criar soluções para problemas que enfrentam diariamente.

Contudo esta prática remonta às primeiras ações do ser humano e já na pré-história há registos de associativismo ligados ao objetivo de saciar a fome, nomeadamente, a caça coletiva e a colheita de alimentos silvestres. Por exemplo, na Grécia antiga existiam espaços associativos ligados à cultura física como os ginásios ou os espaços ligados a palestras educacionais. Na Roma antiga os exemplos de associativismos ligam-se aos órgãos profissionais, escolas de Gladiadores e aos clubes de jovens. Na idade média surgem os primeiros sinais de associativismo ligados à Igreja Católica, assim como as corporações de artesãos, produtores e jornalistas. Mais tarde emergem outras associações como as ordens militares e, posteriormente, substituídas pelas profissionais, pelas patronais e que mais tarde deram origem aos sindicatos. Só no século XX foram criadas as associações e coletividades ligadas à cultura, desporto, recreação, lazer e, entre outras, a área da saúde. [2]

Sabemos que o associativismo traz imensas vantagens e benefícios, não só para quem o pratica como para os públicos-alvo da respetiva ação e que foram fundamentais como já referido, anteriormente, na altura da pandemia. Contudo, não é porque a pandemia se tornou mais leve e que dispensa de uma força de intervenção mais notada que podemos baixar os braços. É verdade, não temos de reagir, de atuar em contexto de emergência, não são casos de vida ou de morte ou de direitos humanos mais básicos, mas temos de usar a mesma metodologia para responder aos problemas consequentes da pandemia que se instalaram entre nós, durantes dois anos, que se demoram na sua partida e que acabou por deixar marcas, tanto no cidadão do presente, assim como, no cidadão que representa o nosso futuro.

“Juntarmos a nossa força à dos outros e fazer a diferença na comunidade é a atitude certa para nos sentirmos úteis e renovarmos a nossa saúde quer física quer psicológica. Independentemente da área de ação, é o poder redescobrir como é gratificante colocar o nosso cunho no que é realizado e em grupo fazer a diferença (…)”.

Num contacto mais próximo com a comunidade temos vindo a constatar que o trabalho associativismo não se faz sentir com a intensidade que em tempos fazia na nossa região. Agora que os encontros de grande escala voltaram e, entre outros, os eventos culturais acontecem, a mão associativa ou não está lá ou encontramo-la pela metade.

Este artigo é escrito como que um apelo a todos e a todas que antes ocupavam esse papel tão nobre no associativismo para que voltem. Aos que sabem como fazê-lo, que aceitem o desafio de voltar e aos que nunca experimentaram, poderá estar na hora de o fazer.

Juntarmos a nossa força à dos outros e fazer a diferença na comunidade é a atitude certa para nos sentirmos úteis e renovarmos a nossa saúde quer física quer psicológica. Independentemente da área de ação, é o poder redescobrir como é gratificante colocar o nosso cunho no que é realizado e em grupo fazer a diferença.  Acreditem a nossa comunidade precisa de vós, as associações, os municípios, as empresas, as pessoas e muito mais as novas gerações, que emergem na nossa região e que seguramente assimilam muito melhor fazendo com base no exemplo.

Este artigo é escrito num tom de apelo a todos e a todas para que passem aplicar o inabalável poder da homeostasia em prol do bem comum.

Amarante, Vila Meã, 26 de abril de 2022

Referências Bibliográficas
Damásio (2020). “A estranha ordem das coisas – a vida, os sentimentos e as culturas humanas”. Temas e Debates da Circulo de Leitores, Bertrand Editora, Lisboa.
Ministério do trabalho e da solidariedade social – instituto para o desenvolvimento social (2001). Guia para o associativismo. Lisboa

[1] A homeostasia é precisamente a designação que se dá ao processo que engloba todos os esforços realizados para que um determinado contexto permaneça em harmonia. Segundo Damásio (2020) “a homeostasia cultural não passa de um trabalho em constante desenvolvimento, frequentemente minado por períodos de adversidade. Podemos aventar que o êxito, em última análise, da homeostasia cultural depende de um frágil esforço civilizacional para harmonizar os diferentes objetivos de regulação.” (p.51)

[2] Consultado em https://www.partnerscom.com.br/blog/2019/associativismo/

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