Que saudades do MIMO!

Pormenor do MIMO Amarante 2019 (Foto de Hugo Sousa).

Desde o início dos anos 2000 que, em Amarante, se discutia a urgência de a cidade ter um evento-âncora com uma marca cultural forte, e que fosse, simultaneamente, um veículo de promoção externa, um fator de atração de turistas e visitantes, capaz de se “colar” ao nome AMARANTE e integrar a sua marca e identidade, como, por exemplo, o Festival do Chocolate se colou e integrou Óbidos! 

Deveria ser algo que permitisse uma associação imediata na mente dos “consumidores”, ligando o evento à cidade e vice-versa. E que fosse consensual. Isto é, bem aceite pela população, que se deveria rever no evento e cuja importância conseguisse “puxar” pela auto-estima dos amarantinos. Para além disso, teria também de provocar dinâmicas geradoras de impacto na economia local.

Esse evento chegou a Amarante em 2016, trazido por uma brasileira, Lú Araújo, que pretendia internacionalizar um modelo experimentado com sucesso no Brasil, que começou por ser desenhado para a cidade de Olinda, onde, em 2004, teve lugar a primeira edição do MIMO Brasil, que viria a ter “réplicas” em outras cidades daquele país, entre as quais Ouro Preto, Paraty, Rio de Janeiro e S. Paulo

O objetivo inicial de Lu Araújo era fazer o MIMO no Porto, mas não foi possível. Quando surgiu a hipótese da sua realização em Amarante, Lu visitou a cidade, apaixonou-se pelo que viu e, contra a vontade dos seus colaboradores mais próximos, decidiu avançar. “Briguei para fazer o MIMO em Amarante”, disse ela a AMARANTE MAGAZINE (AM) em julho de 2018.

Realizada a primeira edição do MIMO Amarante, a conclusão foi óbvia: o Festival, pela sua diversidade (música, cinema, arte, literatura…), deveria passar a integrar o calendário cultural e de animação do concelho. E a verdade é que dos 20 mil espectadores do primeiro MIMO se passou, ao fim de quatro edições, para os 80 mil.

Haverá MIMO em 2022?

Nos três dias que durava o MIMO, Amarante transfigurava-se, tornava-se mais cosmopolita, vestia-se de múltiplas cores, materializava a sua aura cultural. E entrava no mapa dos média, sempre parcos em falar da urbe. Mas a pandemia, que havia já “acabado” com as Festas de Junho, com o UVVA, com as festas populares, com a Feira à Moda Antiga, com os concertos da Orquestra do Norte, também não quis nada com o MIMO.

E então, todos sentimos a falta do Festival. Os que usufruíamos da sua múltipla oferta e os que, por via do MIMO, sentiam reflexos nos seus negócios. João Batista, da empresa Hotess, que gere vários empreendimentos de Alojamento Local, recorda “a procura exponencial” que o MIMO gerava, afirmando que o evento “mexia muito com a economia local, sobretudo com os setores do turismo e restauração”

No seu caso, toda a oferta da Hotess esgotava nos dias do MIMO, facto que permitia “subir um pouco os preços”, e ter mesmo a “segurança das marcações feitas de um ano para o outro”. E quem vinha ao MIMO, voltava outras vezes e trazia os amigos.

Lúcia Monteiro, proprietária dos restaurantes Zé da Calçada e do Pobre Tolo, é também peremptória na constatação de que o MIMO fazia crescer grandemente a procura de serviços de restauração. No seu caso, disse a AM, isso sentia-se logo a quatro ou cinco dias da realização do Festival, com a chegada do staff e dos técnicos. “Havendo animação há movimento”, diz Lúcia Monteiro com saudades do MIMO.

Todos temos saudades do MIMO. António Pinto Monteiro, recentemente homenageado com a Medalha de Honra do Município, disse, recentemente, a AM que “nos dias do Mimo, andamos pelas ruas da cidade e respiramos cultura. Em minha opinião, sejam quais forem as cores do poder político em Amarante, é fundamental que se mantenha aqui a Orquestra do Norte, que se consiga a manutenção das três bandas de música existentes (de Amarante, Várzea e Mancelos), que o Mimo continue a fazer-se e que se apoiem instituições como o CCA (Centro Cultural de Amarante)”.

Sem pandemia, Amarante terá MIMO em 2022?, perguntámos à Câmara de Amarante e a Lu Araújo, entidades a quem enviámos, por escrito, um conjunto de perguntas, sendo que uma delas pretendia saber da ultrapassagem do (noticiado) diferendo existente entre ambas, sem o que a próxima edição do Festival poderá estar comprometida.

Da Assessoria de Imprensa do Município, recebemos a seguinte declaração: “Tal como referido e amplamente divulgado, o Município de Amarante mantém o interesse na realização do MIMO Festival, como demonstrado desde o primeiro momento. O MIMO Festival é parte de Amarante desde 2016 e esperamos que, logo que superada a situação pandémica, seja possível apresentar as próximas edições.”

Publicámos, a seguir, a entrevista que Lu Araújo concedeu a AM há cerca de uma semana. 

Lu Araújo (Foto AM).

“Desejamos continuar a fazer o MIMO em Amarante”

Em circunstâncias normais, no final deste mês de julho teria lugar mais uma edição do MIMO. Isso, porém, não vai acontecer. Como é que a Lu Araújo está a viver esta realidade?
Me sinto triste porque a esta altura já deveríamos estar à todo vapor na produção do festival e naquele clima de expectativa para a realização dos shows. Me sinto triste por não estar convivendo com a minha equipe e por não estar em Amarante cuidando de cada detalhe e encontrando as pessoas da cidade que também estariam se preparando para viver ou receber o festival. Sinto saudade da alegria que o MIMO proporciona aos que realizam e aos que frequentam.

Em seu entender, é possível que, em 2022, voltemos a ter MIMO em Amarante? Estão resolvidas as questões que originaram o diferendo com o Município?
No que diz respeito a pandemia da Covid-19, eu penso que sim. A vacina tem demonstrado que em breve poderemos voltar a quase normalidade. É certo que ainda existem desafios e que vamos todos precisar conviver com o vírus por mais algum tempo. Por isso, diversos cuidados vão precisar ser tomados, mas acho que nada que o mundo já não saiba como proceder.

Quanto as questões relacionadas ao descumprimento da Câmara de Amarante com o MIMO, relativas ao cancelamento da contratação dos festivais 2020 e 2021 que estavam em curso quando fomos tomados pela pandemia, essas continuam sendo tratadas em Tribunal. A Municipalidade foi condenada, quer na 1ª instância, quer no Acórdão do TCA Norte, mas tem obstaculizado os procedimentos de retomada de contratação e pagamentos, nos obrigando a mover outros dois processos. Infelizmente, respondendo a sua pergunta, as questões não estão resolvidas e, estas sim, podem ser um impeditivo para a realização do MIMO 2022, se não forem tratadas atempadamente.

O MIMO Amarante significou a internacionalização do Festival, cujo formato os amarantinos e, duma forma geral, Portugal adotaram de imediato. Não sendo possível um entendimento com o Município, a Lu admite fazer o MIMO noutra cidade portuguesa?
O MIMO Festival foi internacionalizado para Portugal a partir de negociações estabelecidas com a autarquia, o Turismo do Porto e Norte de Portugal (TPNP), a Direção Regional de Cultura do Norte e a Comunidade Intermunicipal do Tâmega e Sousa, que começaram em 2015, com o objetivo de ser implantado em Amarante um evento de impacto não só para a cidade, como para toda a região Norte de Portugal. 

O MIMO teve início em Portugal em julho de 2016, tendo inclusive o nome da cidade na sua assinatura, MIMO Festival Amarante e desde a primeira edição cumpriu todas as metas previstas. Se consolidou como um evento de porte, qualidade e acessível a todos. Um festival agregador de público e promotor da imagem de Amarante, logo se posicionando como um dos importantes festivais de Portugal, recebendo pessoas de todas as regiões do país e do estrangeiro. Durante o MIMO a ocupação hoteleira na cidade é de 100% e sua realização se reflete também na economia de cidades vizinhas.

Nos primeiros anos do MIMO, os maiores investimentos vieram, inclusive, da TPNP e dos Fundos Europeus. O MIMO nunca foi financiado apenas pela Câmara de Amarante, apesar da maior parte dos benefícios da sua realização serem da municipalidade.

Apesar disso – e diante de todos os acontecimentos do último ano -, nada está descartado. Existe, sim, a possibilidade do MIMO partir para outra cidade, região de Portugal ou até deixar de ser realizado no país, concentrando sua operação de internacionalização em outros países da Europa, a partir dos excelentes resultados obtidos com a realização dele em Portugal. Ainda, e com enorme desejo, podemos nos manter em Amarante e isso depende apenas de um tratamento digno por parte da autarquia, eu diria.

Há algo que gostasse de dizer ao público do MIMO Amarante? E aos amarantinos?
Eu gostaria de dizer muitas coisas, a primeira delas é MUITO OBRIGADA. Acima de tudo eu gostaria de olhar nos olhos de diversas pessoas que eu sei que amam Amarante e, frontalmente, dizer que eu, minha equipe e todos os artistas que estiveram na cidade nas edições do MIMO, somos apaixonados pela beleza do lugar e por sua energia. Eu gostaria ainda de dizer que me apaixonei e aprendi a amar a singularidade e hospitalidade da sua população. Desde sempre me senti em casa, acolhida. Eu só tenho a agradecer tanto carinho e amorosidade.

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