Pinto Monteiro: um homem de causas

António Pinto Monteiro, 74 anos, dedicou toda a sua vida às causas sociais

Acabado de fazer nove anos, frequentava António Pinto Monteiro a 3ª classe, teve uma atitude que, hoje, poder-se-á dizer premonitória de todo o seu percurso de vida na área social, em defesa dos mais fracos e desprotegidos: reparando que muitos dos seus colegas iam descalços para a escola, ele próprio, um dia, decidiu deixar os sapatos e apresentou-se descalço na aula. O professor repreendeu-o, mandou-o de volta a casa para que se calçasse, mas o gesto solidário ficou. E germinou.

Aos 74 anos, Pinto Monteiro vê reconhecida pela União Europeia (EU) a sua dedicação às “causas sociais, em particular o seu trabalho com crianças com deficiência, vítimas de maus tratos ou em situação de pobreza”, atribuindo-lhe o título honorífico de “Cidadão Europeu”.

Sendo este o principal galardão que lhe foi outorgado, Pinto Monteiro teve, ao longo do seu percurso de cidadão, outros reconhecimentos, como foi o caso da atribuição do título de Doutor Honoris Causa, por uma Universidade do Perú; a distinção como “Português Excecional” pela RTP (Rádio e Televisão de Portugal); e, como fez questão de enfatizar, o prémio “Figura do Ano”, com que foi distinguido em 1998 pela revista AMARANTE MAGAZINE (AM), que, de resto, então, lhe dedicou uma reportagem (“Um homem sem sono”, ed. 28 – junho/julho de 1998).

“Foi o primeiro prémio que recebi, recorda Pinto Monteiro. Fiquei de tal forma sensibilizado que, durante várias noites, quase não dormi. Nunca busquei o reconhecimento, mas, antes, o cumprimento da missão das organizações que criei, embora fique feliz quando o meu trabalho é apreciado. Depois, sinto que estes prémios podem funcionar como uma motivação ou uma chamada de atenção para os mais novos, desafiando-os à intervenção cívica e a baterem-se por causas”.

Estas palavras ouvimo-las de Pinto Monteiro no seu gabinete em “A Terra dos Homens”, a única das três organizações que fundou em Amarante que ainda lidera. Nas outras, – o Infantário-Creche o Miúdo e a Cercimarante -, passou já o testemunho. Nesta última, deixou a Presidência executiva há sete anos, “por cansaço”, renunciando também, na altura, ao seu lugar de Tesoureiro na FORMEM (Federação de Centros de Formação Profissional e Emprego de Pessoas com Deficiência) e na Casa da Juventude de Amarante (CJA), fazendo questão de referir ter sido “uma experiência fabulosa trabalhar com Miguel Pinto” (principal dinamizador da CJA e responsável pela introdução do “Comércio Justo” em Portugal). Dentro de dois anos, quando o seu mandato terminar, deixará também de ter funções executivas em A Terra dos Homens.

Na manhã em que nos recebeu, aquela instituição cumpria, em simultâneo, duas variantes da sua missão, enquanto Centro de Acolhimento Temporário: via partir Joana (nome fictício), de 17 anos – na instituição desde os três e que havia sido educada segundos os seus valores – para se aproximar da família e preparar a sua entrada na Universidade; e via entrar um bébé de apenas nove dias, para lá mandado pelo Tribunal de Menores. De Joana, Pinto Monteiro despediu-se com um longo abraço, sublinhando que as portas da casa onde crescera estariam sempre abertas para, se necessário, ajudar.

A Terra dos Homens, que acolhe crianças vítimas de maus tratos e de negligência, tem capacidade para receber 30 utentes e começou a “crescer” na mente de Pinto Monteiro em 1992, depois de uma visita que fez ao Refúgio Aboim Ascenção, no Algarve. Seis anos e muitas canseiras depois, a associação inaugurava as suas instalações, na Baseira, em terreno cedido pelas “Meninas Lima”.

A primeira iniciativa de Pinto Monteiro na área social foi o Infantário Creche O Miúdo, que começou por chamar-se “Terreiro das Navarras”, numa alusão ao local onde, numa sala emprestada, iniciou atividade. Estava-se em 1980 e Pinto Monteiro liderava uma Comissão de Pais cujo objetivo era criar uma instituição que proporcionasse acolhimento a crianças com apenas alguns meses e ministrasse, depois, o ensino pré-escolar.

Na época, a oferta pública nesta área era muito escassa e em pouco tempo a instituição cresceu, saindo do Terreiro das Navarras para a antiga “Escola da Sede”; daqui para a zona das Bucas e, finalmente, para a Bouça do Pombal, onde tem instalações desde 1983, construídas num terreno cedido pela Câmara Municipal, da qual era, à época, presidente Amadeu Cerqueira da Silva.

“O Ministério da Educação tinha-nos prometido 100 mil contos [500 mil euros]    para a construção do infantário e da creche, mas acabaria por nos dar apenas 50 mil, de forma que tive que ir bater à porta do mundo”, recorda Pinto Monteiro, que salienta toda a colaboração que recebeu de Mário Cal Brandão, então Governador Civil do Porto.

No Infantário Creche O Miúdo, lembra Pinto Monteiro, “era política levar-se a mais baixa mensalidade possível aos pais, principio que ainda hoje se mantém”, diz. “E havia sempre uma quota de cinco a seis crianças, oriundas de famílias de menores recursos, cuja frequência era gratuita. Foi uma prática que aprendi com o Padre Clemente, no Colégio de S. Gonçalo”, sublinha.

Antes da entrada em funcionamento de “O Miúdo” na Bouça do Pombal, já ali existia o primeiro CAO (Centro de Atividades Ocupacionais) da Cercimarante, sem dúvida a iniciativa de maior expressão de António Pinto Monteiro. A ideia para a sua criação teve-a em 1978, quando, em viajem de férias para S. Pedro de Muel, visitou, em Aveiro, a Cerciave.

Acabadas as férias, procurou junto do Ministério da Educação, em Lisboa, conhecer os requisitos para a criação de uma CERCI (Cooperativa para a Educação e Reabilitação de Crianças Inadaptadas). Conhecedor do processo burocrático, escreveu a todos os Presidentes de Junta, pedindo ajuda para a inventariação dos deficientes no Município, tendo apurado a existência de 600, entre deficientes profundos, mentais, surdos-mudos, com trissomia 21 ou de guerra. Reúne, logo após, um grupo de 15 pessoas, constitui a Cercimarante e, no período de um ano, escreve 2506 cartas que dirige às mais diversas entidades com pedidos de apoio.

Corria o ano 1980 e Pinto Monteiro trabalhava nos escritórios da empresa “Construtora do Tâmega”. O Crescimento da Cercimarante, porém, exigia dele maior disponibilidade e acabou por se dedicar a tempo inteiro à instituição. “Enquanto me mantive na ‘Construtora’, recorda, o senhor Eulálio Fonseca permitia-me que, por dia, saísse duas horas: a primeira era a meio da manhã, quando ia buscar o correio; e a segunda entre as três e as quatro da tarde. Não é qualquer patrão que faz isto, o que aconteceu ao longo de sete anos, até que me comecei a sentir mal. De resto, nessa altura, fazia muitas viagens para o estrangeiro e ficava ausente da empresa por vários dias. Mas nunca me foi tirado, sequer, um dia de férias”.

Hoje, a Cercimarante distribui-se por vários centros (ocupacionais, de reabilitação, de apoio familiar, tem um lar residencial…) com instalações na Bouça do Pombal e em Gatão e emprega 110 pessoas, entre pessoal auxiliar e técnicos especializados. Em conjunto, nas três instituições que Pinto Monteiro criou, trabalham, em permanência, 170 pessoas.

Militante número 1 do Partido Socialista em Amarante, como faz questão de dizer, António Pinto Monteiro foi Presidente da Junta de Freguesia de S. Gonçalo e recorda “com muita saudade os tempos entusiasmantes que se seguiram ao 25 de abril de 1974, feitos de entrega, de dádiva, de solidariedade, de entreajuda, que constituem a verdadeira política”, como diz. “As pessoas estavam na política para servir, ao contrário de hoje, que é para se servirem, salvo algumas honrosas exceções”.

Confrontado com a polémica recente dos deputados que, morando em Lisboa, se registam no Parlamento como tendo residência na aldeia onde nasceram, para que lhes sejam pagas, diariamente, viagens que não fazem, reage acusador: “Isso é um nojo! Mas, como sabemos, os políticos defendem-se uns aos outros, têm todos os mesmos esquemas, seja qual for o partido a que pertencem”.

Atento às dinâmicas da cidade e do concelho, e sobretudo das principais associações e coletividades (cujos órgãos sociais de algumas integra ou já integrou), Pinto Monteiro define o Centro Cultural de Amarante (CCA) como “uma das instituições de grande mérito do Município. Digo o mesmo da Associação Norte Cultural, com a Orquestra do Norte, cuja continuidade deve ser assegurada, e do Mimo, que é um festival com muita categoria. Nos dias do Mimo, andamos pelas ruas da cidade e respiramos cultura. Em minha opinião, sejam quais forem as cores do poder político em Amarante, é fundamental que se mantenha em Amarante a Orquestra do Norte, que se consiga a manutenção das três bandas de música existentes (de Amarante, Várzea e Mancelos), que o Mimo continue a fazer-se e que se apoiem instituições como o CCA”, diz perentório.

Quando, há 20 anos, escrevíamos, na AM, a primeira vez sobre Pinto Monteiro, intituláva-mo-lo de “homem sem sono”, com uma atividade intensa pelas suas causas, desdobrando-se em lutas e contactos na angariação de apoios, frequentemente em viajem, batendo à porta de instituições nacionais ou estrangeiras que ele achava que poderiam ajudar. A tal ponto que, confessava então, era “um mau marido e mau pai”. Com um trabalho excecional dedicado aos outros, sem tempo para si e para a família, reforça hoje essa convicção, acrescentando que, tendo tido quatro filhos, apenas esteve presente no nascimento de um. Mas todos eles se orgulham imenso do seu trabalho.

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