A Aldeia das Flores

O sotaque de António Mota é muito engraçado! Não admira porque é que muitas crianças lhe perguntem “porque é que fala assim”! Fala com alma de baionense, com orgulho das suas raízes. Há 3 anos moderei uma conversa onde o autor esteve presente, por ocasião das comemorações do Dia do Município de Baião, e voltei a entrevistá-lo agora que comemora 40 anos de carreira e faz a sua primeira incursão na literatura para adultos com “No meio do Nada”. Esta maneira de falar, que agarra a conversa, e a sensibilidade do escritor com as palavras, as coisas, as pessoas e os sítios, transformam sempre o meu encontro com o autor num momento de grande admiração e aprendizagem.

António Mota não é só um dos maiores nomes da literatura infantojuvenil do país nem o autor de, incrivelmente, mais de 90 obras, que contam histórias que alimentam a imaginação de crianças de todo mundo. António Mota também é o escritor que escreveu a “Aldeia das Flores”, o primeiro livro que li, então com 9 anos, e que ainda hoje guardo religiosamente. Foi com a “Aldeia das Flores” que descobri o prazer de ler.

Na “Aldeia das Flores” António Mota apresentou-me o professor Miranda, cuja chegada à aldeia impressionou as crianças, habituadas a ser ensinadas por uma professora. Também eu, um ano antes, tinha conhecido o professor Manuel e tido as mesmas reações que aquelas crianças. Na “Aldeia das Flores” o autor dá-nos a conhecer o Rio das Flores, liderado pela truta Finória. Podia jurar que a descrição desse rio sempre me remeteu para o Rio Ovil onde, nas suas margens, fiz piqueniques com colegas e professores de escola. Foi com a “Aldeia das Flores” que me afligi a sério ao transportar a história do livro para a realidade quando, a certo momento, os resíduos de uma nova fábrica instalada na vila começam a destruir o Rio Ovil e a ameaçar a fauna e a flora de uns dos concelhos mais verdes e com mais vida natural de todo o norte do país, Baião. Foi também na “Aldeia das Flores” que eu quis ser como a Clara, a personagem que, sem medo, é porta-voz da turma – perdi a conta ao número de vezes que, depois disso, eu fui a porta-voz da turma. Mas como podia ser? Era só uma história. Não era uma história real! Nos livros de António Mota, outros que mais tarde também li, tudo me parecia próximo.

40 anos depois do autor ter escrito a obra e 23 anos depois de eu a ter lido, o escritor confidenciou-me algo marcante, capaz de pôr a nu a força de uma obra prima e a alma de um génio: “se não fossem as vivências na minha aldeia, Vilarelho, eu nunca teria imaginado uma Aldeia das Flores. Se não fosse o calmo, limpo e bonito Rio Ovil, eu nunca teria imaginado o Rio das Flores”.

A “Aldeia das Flores” foi o meu primeiro encontro com a realidade que vivia nos livros que lia. Obrigado, Professor.

CONTINUAR A LER

Deixe um Comentário

Pode Também Gostar