Os dias que são ilhas

Há muitos anos atrás, li algures, provavelmente num livro, que há dias que são ilhas. Não me lembro do contexto, mas nunca esqueci a frase que, em vários momentos da minha vida, me ressurge, profundamente sentida de tão verdadeira que se me afigura.

Os dias tornam-se ilhas pelo sol e o azul, pelo branco faiscante que escalda, pela frescura do verde, pela certeza de Deus, pela certeza absoluta do amor, pela ternura familiar, pelos risos cúmplices dos amigos. E há dias que são ilhas pela raridade dos encontros.

Chegou no início da tarde solarenga com um passo normal, tão discreto que, se viesse só e não o esperasse – certa de que vinha, não teria dado pela sua chegada. Num primeiro olhar, pareceu-me quase tímido, expectante como quem não sabe exatamente ao que vem.

E de repente, o Escritor estava ali, à minha frente. O Valter Hugo Mãe. O Valter.

Discreto e disponível, a todos cumprimentou, esboçando um sorriso e, de vez em quando, um breve riso grave e discreto. Já no auditório, passou o olhar pelos cerca de trezentos alunos que o perscrutavam. Parecia calmo… Animou os jovens que receavam a exposição do palco, onde colocariam as suas questões, e subiram. Depois, deixou-se conduzir numa viagem pela sua vida, sorrindo quando lembraram a escola e a Matemática e, afável, respondeu a todas as questões numa voz pausada, plena de palavras simples e pontuada por breves risos honestos. Trazia na voz o sotaque da terra que adotou, bem como as nortadas e a firmeza das gentes das Caxinas; nas suas divagações, percebia-se a ânsia dos que buscam, a incerteza dos caminhos, a sensibilidade dos artistas e o bom senso dos que são homens simplesmente.

Ficámos rendidos. Quisemos adotá-lo. Talvez o tenhamos feito.

Esse dia foi uma ilha. Para mim, porque tinha perante os meus olhos um escritor feito homem, (pois guardo da adolescência a imagem romântica do escritor como ser inacessível e etéreo, tocado pela mão divina e distinto dos outros homens…). Para os alunos, porque foram conquistados pela sensibilidade exposta de Valter Hugo Mãe, pela proximidade vivida, pela pessoa que conheciam e que os transportaria até aos seus livros.

Julgo que, numa escola, estes acontecimentos são verdadeiros momentos de aprendizagem. Não se trata de currículos ou matérias, de um conhecimento que será avaliado e classificado. Trata-se sim de aproximação à cultura em geral e à leitura em particular, trata-se de crescimento pessoal, que, apesar de subtil, inscreve marcas indeléveis em cada um dos jovens que os vivem.

Nestes dias que são ilhas na escola, os pedidos de silêncio são desnecessários, a mensagem flui e o essencial subsiste na intimidade de cada um. Só o que nos toca permanece.

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