Professora, eu não quero crescer!

Entre as conversas dos meus filhos, vou-me apercebendo da naturalidade com que eles falam sobre algoritmos, inteligência artificial, aprendizagem automática, algoritmo-mestre…

Limito-me a ouvi-los porque nada percebo desta complexidade, mas aguça-me a curiosidade.

Embora pareçam palavras rebuscadas, sem darmos conta, elas estão presentes no nosso dia a dia, usamo-las e inconscientemente  estamos no futuro. Vejamos:

Vamos à Amazon comprar um livro e o sistema de busca recomenda-nos uma lista de títulos de que poderemos gostar. Encontramos um hotel para uma viagem mas não o reservamos porque se prevê uma descida de preço para breve. Colamo-nos ao smartphone à procura de um restaurante e o sistema de busca vai-nos ajudando a encontrá-lo. O nosso telemóvel, carregado de algoritmos, reconhece código de barras, chegamos a um destino graças a um algoritmo capaz de ler um endereço. E até se diz que as confidencialidade que vamos debitando, são usadas para manipular eleições, intenções de voto.

O futuro obriga-nos a termos uma parte de nós digital, um eu digital que por vezes nos parece sobrepor-se a um eu a que vou chamar de “Humanóide”!

Com que rapidez temos de crescer para acompanharmos este futuro que põe à prova a extraordinária inteligência do Homem, dominando turbilhões de linhas de código!

Embrenhada com este ritmo de crescimento, veio-me à memória as palavras de um aluno de seis anos : “Professora, eu não quero crescer! Eu só quero ser pequenino!”

Talvez esta inteligência artificial não tenha resposta para a inocência e vulnerabilidade quase chocantes desta exclamação que inquieta a mente desta criança.

Enquanto o “mundo tecnológico” não nos dá licença para pararmos, aquelas palavras inocentes obrigam-me a refletir, a interpelar-me em como atenuar tanta incerteza.

Tenho obrigação de o resgatar desta angústia, de o fazer levantar o olhar.

Construir uma vida a partir de um código de valores. É este código que deve  sobrepor-se ao outro código escrito de algoritmos. Um amigo deve sobrepor-se a um algoritmo

Deve ser o amor a fazer-nos querer crescer. Deverá ser ele a grande força que nos ensina a ser “Humanóides”.

O amor deixa-nos a certeza de nunca estarmos sozinhos.

Quem disse que para vivermos temos de estar sempre felizes?

Queria um dia olhar este menino, quando ele for grande! Queria que ele tivesse acreditado em mim quando lhe disse que era bom crescer. Como gostaria que me desse razão!

Talvez até venha a ser um engenheiro informático!

Nós, enquanto pais, educadores, políticos, governantes, temos a missão de lhes deixar um legado com menos escombros, um lugar em que o código que se escreve  seja um código de valores.

 

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