Praticamente esquecida e quase que em vias de extinção, a rabeca chuleira, tal como a sua “prima” viola amarantina, era instrumento fundamental na moda da chula, uma forma de música e dança tradicional que, até ao meio do século XX, ecoava nas encostas das serras da Aboboreira e Marão.
Depois de mais de cinquenta anos esquecidos, estes instrumentos estão a passar por uma fase de “renascimento” graças ao empenho de músicos e artesãos locais. Após o regresso quase que triunfal da viola amarantina, agora é a vez da rabeca chuleira.
Manuel Miranda, natural e ainda residente de Aboadela, conta que a música entrou na sua vida por via de um bandolim oferecido por um familiar. Autodidata por natureza, aprendeu a arte por si próprio e formou, no início dos anos 70, um grupo de música tradicional. Mais tarde, recebeu um violino, mas a complexidade do seu manuseio obrigou-o a encarar a arte doutra perspetiva.
“Comecei a estudar com o Orestes Miranda, na altura regente da Banda Musical de Amarante e reconhecido músico. Ele afirmava que eu tinha muito jeito e que poderia ser um grande violinista”, recorda. Contudo, a entrada na vida adulta e o “glamour” da música pop desviaram-lhe as atenções. Muito rapidamente, bandolim e violino foram substituídos por instrumentos eletrónicos.
“Eu adquiri uma guitarra elétrica, outro uma bateria e mais alguém um baixo e sistema de som. E os instrumentos foram chegando doutras pessoas e formou-se os “Marão Music”. Acabamos por andar 25 anos a tocar música moderna em bailaricos, festas e arraiais um pouco por toda esta região”, explica.
Entretanto esquecido, o violino só lhe regressa às mãos quando, já cinquentenário, decidiu que as exigências da vida de “roqueiro” já não condiziam com a idade. Por inícios do século XXI, o “Marão Music” dá lugar ao “Marão Tradicional”.
Encostado num canto há décadas, o velho instrumento pedia atenção e intervenção de uma mão hábil para lhe devolver vida.
Em Paços de Brandão, na oficina do reconhecido Ricardo Belinha, Manuel Miranda descobriu o ofício de luthier, uma atividade que, notou, lhe permitia conciliar a formação profissional com a música.
“Sempre tive inclinação para projetos mais artísticos”

A par da carreira musical, Manuel Miranda teve uma intensa vida profissional: formado em mecânica geral pela Escola Industrial e Comercial de Amarante, cumpriu serviço militar, foi empresário e, mais tarde, projetista e desenhista para empresas de metalomecânica da região.
E ainda descobria tempo para realizar pequenos serviços de serralharia e carpintaria para amigos e vizinhos, na oficina que ainda hoje mantém, no quintal da casa, em Aboadela.
“Quando vi a oficina do Ricardo Belinha, lembrei-me da minha e do que ali fazia. Decidi que, a partir daquela altura, me iria dedicar à construção de objetos mais nobres, pois sempre tive inclinação para projetos com uma vertente mais artística”, explica. E que objeto mais nobre poderia ser construído do que um violino, pensou.
O primeiro, que ainda possui e toca, foi construído há mais de 10 anos. Outros se seguiram e, mais tarde, surgiram as rabecas, instrumentos que, hoje, ocupam a maior parte do seu tempo e as bancadas da oficina.
Basta um centímetro de diferença para obter uma nova sonoridade
A rabeca, tal como o violão e a viola amarantina, era um dos instrumentos-chave da moda da chula, um estilo de música e dança tradicionais da região entre o Douro e Minho com epicentro em Amarante. Com a entrada em cena, a meio do século XX, de instrumentos de maior projeção sonora como o acordeão e a concertina, tanto a chula como os instrumentos tradicionais a si associados caíram em desuso ao longo de mais de cinco décadas.
Foi precisamente da associação musical Propagode, mais conhecida pelo renascimento da viola amarantina, que há cerca de cinco anos partiu o desafio a Manuel Miranda para que construísse uma rabeca chuleira. A primeira foi fabricada com base nas medidas de um velho modelo, que veio emprestado de Baião. Subsequentemente, foram construídas mais umas quantas cópias para uso próprio e por encomenda.
Entretanto, um modelo oriundo de Carvalho de Rei chegou à oficina para reparações e a diferença de sonoridade despertou a curiosidade do luthier. “À vista desarmada parece ser igual, mas o som que emana é distinto. Basta um centímetro para fazer a diferença”, explica.
Em termos de escala musical, esclarece, a rabeca chuleira tradicional está cinco notas acima do violino vulgar, mas a versão oriunda de Carvalho de Rei, de braço mais curto, está a oito e, por consequência, emite um som mais agudo.
“Aliás, acabei por adaptar este modelo a um desenho meu, onde introduzi algumas melhorias para facilitar o seu manuseio”, adiantou. E conclui:
“Não faço isto como um negócio, apenas aprecio construir e tocar estes instrumentos. A divulgação do trabalho pela Propagode, onde sou rabequista, fez com que aparecessem outros interessados. Isso para mim é um motivo de orgulho porque, modéstia à parte, foi na minha oficina que começou a revitalização deste instrumento.”

