A versátil viola amarantina

A fadista Ana Moura, com origens familiares em Amarante, parece ser, ainda que involuntariamente, responsável por uma espécie de “segunda vaga” na vida da viola amarantina, depois do renascimento daquele instrumento, há alguns anos conseguido pela associação Propagode. De facto, em entrevista que concedeu à última edição de AMARANTE MAGAZINE,  Ana Moura revelou que havia tentado colocar no seu último álbum (“Moura”) o som da viola amarantina, mas, por questões de timmings, isso não havia sido possível. Porém, foi perentória ao afirmar que quer a viola amarantina na sua banda sonora, o que deixa antever que a usará no seu próximo disco, e isso aumentou o interesse pela viola Mas, afinal, que instrumento é este, cuja versatilidade lhe permite acompanhar a chula, o malhão, o fado de Lisboa ou de Coimbra? Saiba também como está a ser divulgada, como foi levada às escolas e onde se aprende a tocá-la.

Eduardo Costa

As origens da viola amarantina perdem-se no tempo da sua existência e nas estórias da sua história. Mas o que é inegável, tal como indica o nome que lhe foi atribuído, Amarante é a região onde ela surge. No entanto, tendo tido a sua expansão pela região do Douro Litoral, foi no Porto que mais foi construída pelos violeiros da região.

Tal como todas as violas tradicionais portuguesas, também conhecidas por violas de arame, são instrumentos com a caixa de ressonância em madeira, composta de um tampo chato (o da frente da viola) e o tampo das costas, ligeiramente encurvado e quase paralelos entre si.

A curvatura que define a silhueta das violas é mais ou menos acentuada, consoante cada viola, com a cinta de “enfranque” formando dois bojos, aliás fator comum a todos os cordofones da família das chamadas “guitarras” europeias.

Das violas tradicionais de Portugal continental, a viola amarantina é a única em que a escala entra na zona do tampo frontal e termina junto à boca em forma de dois corações. Os corações da viola amarantina têm origem numa história de amores contrariados, passando a sua história pelas agora Aboadela e Vila Chã do Marão. O encordoamento desta viola é de 5 ordens duplas, afinando do agudo para o grave: lá; fá; si; sol; ré.

Era frequente vê-la nas “Festadas”, onde o seu tocador acompanhava as “Chulas”, características da região do Baixo Tâmega. Era tocada, normalmente, de rasgado, com todos os dedos percorrendo as cordas.

Propagode faz renascer viola

O Propagode, Associação Cultural e Musical, recentemente criada (2011), tem a sua gênese no grupo musical que lhe deu o nome e que teve a sua formação inicial em 1995, quando um grupo de amigos, que na altura faziam parte da Direcção do Centro Cultural e Recreativo de Sanche, todos eles gostando de música tradicional portuguesa, se juntaram para animar as atividades promovidas pela associação, dentro da freguesia. Aos poucos, o grupo participou em algumas festas e romarias, fora da freguesia de Sanche.

Quando oiço uma viola/Logo tiro o meu chapéu/Não se me dá de morrer/Se houver violas no céu

Viola que tocas tão bem/Ao ouvir-te me consolo/Fazes lembrar minha mãe/Cantando comigo ao colo

Na altura ainda muito jovens; a universidade para alguns e o emprego para outros, levou a que o grupo parasse a atividade, voltando a juntar-se em 2009. Tal como no passado foi essencialmente o gosto pela música tradicional que levou a reerguer novamente o grupo, agora com alguns elementos novos que entretanto fixaram residência na freguesia.

A associação cultural e musical que, num sentido mais lato, continua a ter como fundamento de ação o gosto pela música tradicional, tem, agora, como um dos objetivos primordiais a revitalização do uso da viola amarantina, desaparecida do meio musical da região até ao ressurgimento do grupo Propagode. Para isso, criou um espaço de ensino da execução musical da viola amarantina, para adultos e para jovens, e que funciona na antiga escola primária de Sanche, por gentileza de cedência das instalações por parte da autarquia.

Desde então têm-se dinamizado “oficinas” de viola amarantina, em vários locais e regiões do país, onde se concentram sempre mais de uma dezena de violas, podendo-se destacar: o Festival ByonRitmos; o Festival Andanças; a Festa da Quintandona; o Festival Castro Galaico; o Festival Entre Margens.

O grupo musical da associação tem mantido alguma atividade de divulgação da música tradicional, tendo já incluídos no seu reportório músicas originais, de cariz tradicional e popular, e está aberto a parcerias e apoios que possam ser disponibilizados, tanto por entidades oficiais como particulares, no sentido de melhorar as capacidades da associação na assunção dos seus objectivos.

Sob a presidência de Eduardo Costa, a direcção da associação tem desenvolvido vários projectos de promoção e divulgação da viola amarantina.

Viola amarantina aprende-se nas escolas

A partir de 2012 o ensino da viola alargou-se às escolas onde dois dos elementos do grupo, Eduardo Costa e Cândido Costa tocadores da viola amarantina, trabalhavam. Daí para cá tem aumentado o número de crianças que beneficiam desta actividade. Actualmente, o ensino é realizado em cinco sítios diferentes, tendo crescido em mais um o número de professores a fazer este trabalho de ensino, depois de Joaquim Campos, tendo aprendido, também disponibilizou algum tempo semanal para o projecto do ensino.

Com esta situação, regista-se a necessidade de se criar, em Amarante, uma “Escola de Viola Amarantina”, com um espaço adequado e operacional. Surge então o conceito de “Violateca”, como local de concentração de violas utilizadas para o ensino e “Centro de recursos da viola amarantina”, este último por sugestão do Dr. Luís Gaspar (Presidente da Câmara), quando de uma reunião em que foi solicitado o apoio da autarquia para o desenvolvimento destes projectos.

Entretanto, as ideias vão-se desenvolvendo e nasce um projecto pessoal de Eduardo Costa, “Violas na Cidade”, que consiste em colocar em estabelecimentos dedicados à gastronomia e turismo, uma viola exposta na decoração dos mesmos, com um quadro explicativo da história da viola, em quatro línguas, locais onde poderão ocorrer concertos de exibição da viola amarantina.

Depois cria-se o projecto “Patrocinadores da Violateca”, pela necessidade de aumentar o número de violas disponíveis para apetrechar a “Escolas de Viola Amarantina”, quando esta vier a ser uma realidade em Amarante. Tendo-se previsto que, no final deste projecto, apontado para Junho de 2017, mais de duas dezenas de violas tenham sido oferecidas por empresários, comerciantes e particulares. Estes patrocinadores terão o seu nome inscrito num “Quadro de Honra” nas futuras instalações da escola.

Para ajudar a financiar custos de manutenção, foi criado o projecto “Violas da Tradição”. Consiste na edição restrita a 5 violas pintadas com referências da tradição portuguesa e de Amarante, que embora tenham qualidade para se tocar, se destinam a decoração. Apenas serão editadas cinco de cada pintura.

Na sequência surgem as “Violas de Artistas”. Em que é solicitado a artistas plásticos amarantinos que criem numa viola a sua expressão plástica. Estas violas irão fazer parte do acervo artístico da escola, não sendo para venda.

Está agora em formação mais um projecto, ainda sem nome, que consiste no empréstimo de violas amarantinas, por um período de dois anos, a entidades ou associações que queiram comprar violas para promover o seu ensino e divulgação, disponibilizando a Associação Propagode a realização de uma primeira “Oficina” de início desses projectos.

Por fim, e até ao momento, foi já criado um acervo de materiais relacionados com a viola amarantina, e que compõem uma exposição temática itinerante denominada “Viola Amarantina Renascida”, que já se realizou em Vila Real, na sede da Associação Zona Livre, e que depois estar patente em Évora, nas instalações da INATEL, por parceria com a Associação PédeXumbo, onde será realizada uma “Oficina” e um concerto de exibição e divulgação da viola amarantina, dinamizado por Eduardo Costa que, entretanto, já realizou concertos de exibição e promoção em Espanha (Allariz, Vigo, Ourense e Zamora) e também no Brasil (Belo Horizonte) nas 1ª e 2ª Mostras de Violas de Arame do Brasil.

Todo o desenvolvimento ocorrido, desde o início do trabalho da Associação Propagode, seria muito mais moroso e difícil, se não tivéssemos entrado em contacto com o António Teixeira da Silva que, com a sua capacidade e com a nossa ajuda, é hoje um mestre artesão conceituado e fornecedor de um grande número das violas referidas nos diversos projectos aqui mencionados.

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