Joana Antunes: “A Arte é uma dança com nós mesmos!”

Joana Antunes: "Sinto-me mais madura e confiante" (Foto AM)

Aos 42 anos, Joana Antunes (já) descobriu o caminho para a felicidade: criando. Pintando, fazendo escultura, modelando, reinterpretando, ilustrando. Numa palavra, fazendo arte. Ou, se se quiser, usando a arte para contar “estórias”. Fez a sua primeira exposição de pintura aos 16 anos e, hoje, acredita estar a viver o período mais produtivo da sua vida.

Joana Antunes Magalhães de Teixeira Rebelo é uma mulher madura e segura. Mas também visionária. As lutas que o dia a dia a obrigam a travar trouxeram-lhe algum pragmatismo, é certo, mas não alteraram a forma como se continua a ver: uma eterna sonhadora!

É feliz. Praticante de yoga, considera a felicidade “uma opção de vida” e o seu lado espiritual diz-lhe que “a vida é muito mais do que aquilo que vemos”. Acredita que todos temos uma missão a cumprir, estamos cá de passagem, e haverá um retorno. “Retornamos sempre ao ponto donde partimos”, diz convicta.

Joana tem na família a sua referência fundamental. É lá que estão as quatro mulheres da sua vida: Flora, a avó; Elisa, a mãe, e Maria e Luna, as duas filhas. O avô Manuel Antunes é o seu porto seguro. A Natureza é, também, referência sua. E os seus sons e cheiros. A si, vê-se como uma criativa. “Tenho uma necessidade enorme de criar, pelo que estou sempre a produzir. Há pessoas dotadas para falar, para escrever… Eu comunico e expresso-me através da arte”

Fazendo questão de se assumir como artista plástica, define-se, enquanto tal, como “uma contadora de histórias. E acho que com o meu trabalho tenho a capacidade de trazer um mundo novo aos olhos dos outros, o que é uma das funções da arte”, afirma.


Se, como diz Joana Antunes, todos temos uma missão a cumprir em vida, a dela só pode, de facto, estar ligada à arte. Começou cedo. Aos três anos, quando ia com a mãe ao Café-Bar S. Gonçalo, levava consigo um pequeno bloco de folhas lisas, onde fazia desenhos que oferecia aos funcionários e aos amigos da mãe, “como se fosse algo precioso”, refere.

Na escola primária, imagina-se, o desenho te-la-á enchido de glória entre os colegas. Da adolescência conhece-se-lhe o estilo criativo de vestir, em dessintonia com a norma imposta pelas marcas da moda; e o cabelo cor de mel, pintado de madeixas multicolores. “Uma questão de identidade”, explica.

Introvertida, assegura Joana, aquela era uma representação do seu eu e, ao mesmo tempo, a sua forma de comunicar. Com irreverência, contida, mas mostrando o seu lado esteta que era, no fundo, a mensagem que – pensava – a tornaria percebida pelos outros.

Aos 16 anos, frequentava Joana a Escola Secundária de Amarante, seguindo Artes, disse à mãe que queria fazer uma exposição de trabalhos seus. A mãe julgou-a louca. “Mas apoiou-me. Estávamos em 1995 e fiz, então, a minha primeira exposição com desenhos de figura humana, a pastel de óleo, na Doçaria Mário”. E à Mário voltou em cada um dos dez anos seguintes, com novas exposições.

“Head of March”, de Joana Antunes (acrílico e carvão sobre tela, 2021).

“Sinto-me mais madura e confiante”

Concluído o ensino secundário, Joana Antunes matriculou-se em Arquitetura, mas, “por responsabilidades familiares”, ficou-se pela frequência do primeiro ano. Continuou ligada ao desenho e acabou a trabalhar numa empresa que organiza feiras e eventos.

Há 14 anos, deixou Amarante e mudou residência para Felgueiras. Os primeiros cinco em que lá morou, disse a AMARANTE MAGAZINE, foram pouco produtivos. “Depois, prometi a mim mesma que voltaria a criar, a pintar ou a moldar, até porque sem criar não seria feliz”.

“A arte é uma dança com nós mesmos e criar, sublinha, é, realmente o que me faz feliz, mas não consigo viver da arte. Tenho uma outra atividade, que é a que me paga as contas (ri-se). Porém, todo o tempo que tenho disponível, dedico-o à arte. No último ano, tive uma atividade mais intensa e expus mais”.

A procura crescente pelos seus trabalhos, acredita Joana, deve-se, em boa parte, a uma maior disponibilidade para os promover, o que tem feito através da sua conta no Instagram. Foi aí que uma curadora italiana a descobriu e a convidou para expor em duas coletivas, numa galeria do centro de Roma.

Joana Antunes na Bienal de Vila Nova de Gaia, junto à sua obra “The power of your mind” (Foto de Fernando Barros).

Uma obra sua, entretanto, foi selecionada para integrar a Bienal das Causas, uma mostra inserida na 4ª Bienal Internacional de Arte de V. Nova de Gaia, aberta ao público desde 19 de abril e cujo tema é “O coronavírus não destrói a criatividade”. Esta revelar-se-á, com certeza, (mais) uma boa oportunidade para continuar a promover o que faz. A obra chama-se “The power of your mind”. 

Estou a fazer o meu percurso e vejo estas exposições como um investimento na minha carreira”, diz.

O confinamento deu a Joana maior disponibilidade para criar, mas, o facto de, no último ano, ter produzido mais, não tem apenas a ver com tempo livre. O que tem pesado, esclarece, é a sua “maior maturidade e confiança”.

São muitos os trabalhos criativos e as exposições individuais e coletivas que constam do currículo de Joana, que refere com carinho os trabalhos efetuados com a “Oficina Noctua”, de Amarante. É o caso da reinterpretação dos “XX designs” de Amadeo de Souza-Cardoso; da “Escura Flama”, que se baseia na interpretação de um excerto selecionado da obra “O Susto”, de Agustina de Bessa Luís, e que juntou dez ilustradores amarantinos, que produziram dez serigrafias; ou, ainda, uma parceria com MIMO Festival que consistiu em produzir t-shirts em serigrafia com o tema “Amarante e a música”.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 

“Quero trabalhar o barro negro de Gondar

Artista multifacetada, Joana Antunes distribui o seu talento por diversas áreas da criação artística. Recentemente, participou num projeto de moda da designer Mariana Bastos (MD Decor), que passou pela elaboração de pinturas em peças de roupa feminina de Alta Costura, inspiradas em excertos selecionados da Obra “Três Mulheres com Máscara de Ferro” de Agustina Bessa Luís – “A Mulher de 2040”. 

Requisitada tem sido, também, para fazer trabalhos de ilustração. Em 2019, ilustrou o livro “O Foral de Felgueiras”, dirigido a crianças e escrito por Raquel Brochado, com edição da Câmara Municipal de Felgueiras. Ainda naquele ano, foi responsável pela ilustração de “Águas de Infância”, de Nuno Higino, editado pela Letras & Coisas.

Em 2020, a convite da União de Freguesias de Amarante, ilustrou “A Casa da Avô”, obra com que a escritora Soni Esteves venceu a segunda edição do Prémio de Literatura Infantojuvenil Ilídio Sardoeira.

“Estou sempre a trabalhar em vários projetos ao mesmo tempo”, confessa Joana Antunes. “Mas há um a que, em breve, me vou dedicar em especial e que tem a ver com uma parceria que quero estabelecer com o oleiro de Gondar, César. O objetivo é criarmos peças em conjunto, nas quais eu farei a intervenção criativa”.

Joana já meteu as mãos no barro há uns tempos atrás. Criou, então, seis exemplares de Santa Maria de Gondar, dos quais lhe sobrou apenas um. O seu projeto, agora, explicou, “passa por produzir peças que decorram da nossa imaginação e criatividade, usando o barro como matéria prima. A ideia é criar uma linha que tenha a ver com o design e decoração de interiores, usando todos os processos tradicionais associados ao barro negro, inclusivamente a cozedura pelo método da soenga”.

À Doçaria Mário, em Amarante, onde, aos 16 anos, fez a sua primeira exposição, Joana volta de quando em vez. “É a minha segunda casa”, diz. Regressa para um café, para espreitar o rio da esplanada, para se reencontrar. Ou porque sim. Desde que mora fora de Amarante, expôs ali duas vezes: em 2007, com pinturas em madeira e em tela, fazendo a reinterpretação da dança; e em 2020, quando lá mostrou os originais das ilustrações do livro “Águas de Infância”.

CONTINUAR A LER

Deixe um Comentário

Pode Também Gostar