Em 2013, Maria Justina Queirós Dias tinha 46 anos. Uma idade em que, dizem as estatísticas, o cancro da mama mais ataca as mulheres. Talvez por isso, por essa altura tinha já recebido vários alertas da Liga Portuguesa contra o Cancro, convidando-a a fazer o rastreio, mas não ligou. Só ao terceiro ou quarto decidiu ir ao Centro de Saúde, onde lhe foi detetado um nódulo no peito esquerdo.
À mãe de Justina, hoje com 77 anos, foi-lhe diagnosticado cancro da mama há 12 anos, tendo feito mastectomia completa. Mas este antecedente, que poderia indiciar propensão genética para a doença por parte dos descendentes, não assustou Justina em demasia, que, no início de agosto, se dirigiu ao IPO (Instituto Português de Oncologia) para realizar uma biópsia.
“Não sou pessoa de me assustar com qualquer coisa. Por isso, cheguei bem disposta ao IPO”, diz Justina, que, no início de setembro, viria a saber que tinha um tumor de grau 2, invasor, que obrigava a operação.
No mesmo dia em que Justina fez biópsia no IPO, Catarina também estava lá, a realizar os exames prévios à operação a que viria a ser submetida depois de lhe ter sido diagnosticado cancro. Moram perto uma da outra, o marido de Catarina é primo de Justina, mas, até àquela altura, raramente se viam. Quando se olharam, perceberam que estavam ali pelo mesmo motivo, ao ponto de Justina sugerir que, se as suas suspeitas se confirmassem “ainda iam ser operadas no mesmo dia”.
E assim foi. A 9 de outubro, foram ambas intervencionadas e colocadas no mesmo quarto, que partilharam durante 24 horas. Seguiram-se os tratamentos de quimio e radioterapia (Catarina fez também braquiterapia), a queda do cabelo, os dias incertos… E passaram a contactar-se frequentemente e mesmo a ajudarem-se uma à outra.
Não viveram, as duas, da mesma forma o tempo que levam desde que foram operadas. Mas coincidem, ambas, num ponto: o cancro mudou a sua perspetiva de vida. Quase quatro anos depois, “Amarante Magazine” juntou-as. O que se segue são excertos, em discurso direto, do que as ouvimos dizer (de Catarina, omitimos algumas passagens já relatadas noutra peça).
(Justina) “Nunca me fui abaixo. Não precisei de apoio psicológico. Tinha três psicólogos em casa: os meus filhos e o meu marido. Isso é importante porque a guerra não é só nossa. Somos nós, mais os soldados que temos à nossa volta”.
(Justina) “Passei a ver a vida de outra forma. Vivo um dia de cada vez, o hoje, como se não houvesse amanhã. Sem planos, sem projetos. Vivo muito mais calma e tranquila, valorizo mais o sol e o céu azul… Acabo por viver mais tempo do que as pessoas que não têm cancro, porque aproveito todos os bocadinhos do dia”.
(Justina) “O meu pai deixou-me há cinco anos e com a morte dele perdi o gosto de viver, que recuperei quando fiquei doente. São coisas minhas, mas acredito que o meu pai foi lá para cima para cuidar de mim. Não fiz promessas a nenhum santo, apenas pedi ao meu pai que olhasse por mim”.
(Catarina) “Sou feliz por estar viva, por ter a minha filha, por me levantar, de manhã, e ver o sol e poder cuidar de mim. Antes de me ser diagnosticado cancro, fazia as coisas por rotina, sem valorizar os passos que dava”.
(Jacinta) “Hoje, quando vou acordar o meu filho e corro o estore, desafio-o a levantar-se logo, para que não perca nenhum momento do dia. Valorizo mais as pequenas coisas, um elogio, mesmo de pessoas desconhecidas. Quando estava sem cabelo e me diziam que continuava bonita, ficava feliz”.
(Catarina) “Os voluntários do IPO nisso eram fantásticos. Faziam-nos constantes elogios”.
(Jacinta) “Agora sou muito mais feliz… Acho que sou mais vaidosa do que era antes. Depois dos tratamentos vínhamos com uma cor desagradável e, então, tínhamos que cuidar de nós. De nos pôr-mos bonitas. Hoje continuo a ter cuidados comigo, a arranjar-me como não o fazia antes. Estou viva”!
(Catarina) “Eu preciso de me sentir bonita, de agradar a mim mesma, de gostar de mim. Nunca mais cortei o cabelo, sinto-me bem assim”.
(Catarina) “O importante é que consigamos manter a auto-estima. Quando as pessoas a perdem, vão-se abaixo. É fundamental que nos continuemos a arranjar, que nos sintamos bonitas e que nos digam que estamos bonitas”.
(Justina) “Depois do meu filho me passar a máquina no cabelo, vi-me ao espelho e pensei: ‘estás bonita, estás’! Decidi arranjar-me e vesti uma blusa branca. Mas não dava, ficava tudo demasiado branco – blusa, careca, rosto. Temos que mudar a cor da doença: um pouco de base na cara, um rímel nos olhos!… E esperar que nos elogiem. Os meus filhos faziam-no muitas vezes. Tive uns grandes guerreiros à minha volta”!
(Justina) “Há muitas pessoas que me dizem que não conseguiriam passar por isto. Eu digo-lhes que conseguiriam. Teriam que se agarrar a alguma coisa. Eu agarrei-me aos meus filhos. Preciso vê-los todos os dias”.
(Justina) “Quando passarem cinco anos, acho que me vou sentir muito insegura. Acho que vou ficar à deriva, sem o acompanhamento do IPO”.
(Catarina) “Custa muito entrar no IPO, mas ninguém quer sair de lá. Ao fim de cinco anos, passamos a ser vigiadas anualmente e, num ano, podem acontecer muitas coisas”.
Catarina e Justina ainda não estão curadas. Vivem uma espécie de “período probatório” de cinco anos, que termina em outubro de 2018, com medicação diária e vigilância mensal, lutando contra uma eventual recidiva.

