Tabopan: Ascensão e queda

Este é daqueles casos em que o produto e a empresa se confundem. Isto é: o produto atinge tal sucesso e notoriedade no mercado que a empresa que o fabrica passa a ser conhecida pelo seu nome. Para que conste: a empresa chamou-se sempre Abreu & C.ª e o produto dava pelo nome de TABOPAN (Tábuas Prensadas Nacionais). O que se segue é a republicação de uma “peça” que integrou a edição (impressa) nr. 15 de AMARANTE MAGAZINE, em maio de 1996. Fazemo-lo, a propósito da atribuição da Medalha de Honra do Município de Amarante a José de Abreu, “o homem que criou o império Tabopan”.

Chegou a ser a maior empresa da Península Ibérica no setor das madeiras e a 34ª no ranking das maiores empresas nacionais. Hoje, está a braços com um processo de falência que José  Abreu, seu principal acionista, ainda tenta evitar.

Corria o ano de 1929 quando Agostinho Gonçalves de Abreu constituiu, com dois outros sócios, Manuel Magalhães e José Inácio, a Abreu & C.a, com um capital social de trinta e seis contos. A empresa tinha oficinas na rua Cândido dos Reis e começou pelo mobiliário, passando, em 1932, a fabricar também urnas.

Registando gradual crescimento, em 1939 a empresa tinha já maiores instalações, no Salto, as quais viriam a ser consumidas pelo fogo em 1945. Os prejuízos foram, já na altura, superiores a 2 000 contos, mas o seguro apenas cobriu com  310. E foi com esses dinheiro que a Abreu & C.ª veio a iniciar a construção da sua primeira fábrica, em Ramos. 

Nessa altura, o pacto social havia já sofrido alterações. Agostinho Abreu comprara a quota de José Inácio, passando a deter 72% do capital. O filho José tinha adquirido a quota de Manuel Magalhães, ficando com a uma posição 28%.

Com a empresa em constante crescimento, José de Abreu desloca-se à Alemanha em 1956, à procura de máquinas e, durante uma viagem de comboio, toma, pela primeira vez, contacto com o aglomerado de madeira que forrava a carruagem em que seguia. 

A imitação do pau santo nos tetos era perfeita e o industrial fica de tal forma entusiasmado que percorre o país à procura de tecnologia para o fabrico do produto. Quando a descobre, redobra de entusiasmo e não regressa a Portugal sem fazer a encomenda de um projeto para a criação de uma unidade fabril de aglomerados. 

Consigo, traz amostras e conclui, desde logo, que, no nosso país, é possível fazer melhor. Os alemães utilizavam desperdícios de madeiras, quando em Amarante poderia ser utilizada matéria-prima de qualidade, com recurso a desbastes florestais.

Já em Amarante, José de Abreu tenta ganhar o pai para o projeto, o que não é fácil. Ao progenitor não chegam as amostras, quer mesmo ir à Alemanha ver como é e, quando regressa, mostra-se reticente em avançar ante o vultuoso investimento de 50 mil contos que é necessário fazer. José de Abreu não o consegue convencer, mas não recua. Juntamente com a mulher, assume a responsabilidade do financiamento e lança mãos ao novo empreendimento.

Por essa ocasião, o capital social da Abreu & Cª estava disseminado pelo pai e pelos nove irmãos, cabendo 27% a Agostinho Abreu, 17% a José de Abreu e 7% a cada um dos restantes irmãos. “Mas, diz José de Abreu, como meu pai não era homem para ser mandado, havia sido elaborada uma ata em que se determinava que a gerência da empresa lhe cabia, bem como a mim”.

Construída e equipada primeira fábrica Tabopan, tudo começou a ser preparado para que também a primeira tábua de aglomerado de madeira fosse produzida em Portugal a 7 de março de 1958, dia em que Agostinho Abreu fazia anos. Tal, porém, não veio a acontecer. Mas, a 19 de março, em plena Quaresma, logo pelas 9 horas, ouve-se o ribombar de foguetes em Ramos e José de Abreu, que ainda estava em casa, intui da razão. Apressado, dirige-se à fábrica e vê, perfeitas, de muito maior qualidade que as alemãs, as suas “tábuas prensadas”. Daí a umas horas já algumas estavam expostas na montra do Alcino dos Reis e, nos anos seguintes, invadiam o país e o mundo.

Sem concorrência e apresentando um produto de qualidade atestada por exigentes laboratórios internacionais, depressa a empresa Abreu & C.ª , com o seu produto Tabopan, viria a atingir grandes dimensões. Em 1961, entrava em funcionamento a segunda fábrica e em 1972 eram já sete as unidades industriais em laboração. Ao todo, por essa altura, as “Industrias Tabopan” (o nome da empresa confundia-se com o produto) davam emprego direto a 2 300 pessoas, sendo responsáveis por mais outros cerca de 1 500 indiretos, sobretudo de lenhadores que, dos montes, traziam a matéria prima. Ou seja, da Abreu & C.ª dependiam 82% dos salários pagos em Amarante, contribuindo a empresa com 68% do produto acrescentado do concelho.

Durante muitos anos, a Abreu & Cª foi o único fabricante de aglomerados do país. “Foi a Tabopan que definiu o produto. O nome passou a ser sinónimo de tábuas de madeira prensada, tal como a Gillete se tornou sinónimo de lâmina”, costumava dizer José de Abreu.

O “desastre” de Vila Pouca

Atingia-se o apogeu da Tabopan. Em 1968, era José de Abreu Presidente da Câmara de Amarante, é informado por um seu vereador de que havia a possibilidade de vir a ser instalada uma fábrica de celulose em Ribeira de Pena, na margem esquerda do Tâmega. Segundo diz, o facto preocupou-o por causa da poluição de que o rio passaria a ser alvo, podendo causar prejuízos irreparáveis às localidades a jusante, designadamente em Amarante. Tentando impedir a construção da fábrica, foi falar com o ministro da Economia de então, José da Cota Dias, o qual lhe fez ver a necessidade de serem criados postos de trabalho naquela zona de Trás-os-Montes.

O industrial concorda, mas contrapõe com  industrias não poluentes. O ministro lança-lhe o desafio de uma fábrica Tabopan, José de Abreu aceita-o com a condição de lhe serem disponibilizados  incentivos e apoios que minimizassem os custos da interioridade. Recorde-se que a exportação dos produtos Tabopan era feita por mar, através dos portos de Leixões, Figueira da Foz e Viana do Castelo.

Acertadas as condições, a Tabopan vem, então, a instalar-se em Vila Pouca de Aguiar, com uma fábrica de ponta para a época, onde foram investidos 600 mil contos e criados 200 postos de trabalho.

Em janeiro de 1974, a fábrica de Vila Pouca começa a laborar e era também o princípio do fim. Em abril acontece a revolução, muda o regime e os compromissos anteriormente assumidos não são cumpridos pelos novos governantes. Apenas em 1976, durante o governo de Maria de Lurdes Pintassilgo, é feito um despacho, assinado pelo Ministro Sousa Franco, reconhecendo a necessidade de se dar cumprimento às reivindicações de José de Abreu, que reclamava o pagamento dos incentivos, com base no facto de “o Estado ser sempre o mesmo, independentemente do governo que o sirva”.

Com a queda do governo Pintassilgo, o despacho fica por cumprir. Segue-se o governo da Aliança Democrática (AD) e Carvalho Carreira, Secretário de Estado da Industria, reconhece à Tabopan o direito de ser indemnizada em 720 mil contos. Só que, entretanto, a AD deixou de ser Governo e não houve indemnização. 

Em 15 de novembro de 1985, porém, o Diário da Republica incluía um despacho assinado pelo então Primeiro Ministro, Mário Soares, em que se reconhecia a existência de uma dívida, por parte do Estado, à Tabopan. Mas também nunca chegou a ser paga. 

Em 1986 a situação financeira da Tabopan começa a complicar-se. A empresa regista problemas laborais e José de Abreu vê-se afastado da gerência pelos seus familiares e sócios numa decisão polémica que o tribunal de Amarante confirma. O Comendador, que chegou a ter constituída uma equipa para o substituir (com os filhos de alguns sobrinhos) diz que não lhe custava sair se soubesse que deixava a empresa bem entregue “Mas como todos queriam mandar e onde mandam todos não manda ninguém…”, opôs-se à mudança.

Tendo recorrido da decisão que lhe tira a gerência, a José de Abreu é dada razão pelo Tribunal da Relação, em 1988, mas os novos gestores recorrem para o Supremo Tribunal da Justiça, o qual só em 1991 confirma a decisão da Relação.

Passaram-se quatro a cinco anos, durante os quais José de Abreu diz ter havido uma gestão ruinosa da Tabopan, que levou ao fecho das fábricas e fez disparar o passivo para  cerca de dois milhões de contos, excluindo juros de mora. Os credores são a Segurança Social, o fisco e uma empresa privada.

Em março do ano passado (1995), o Tribunal de Penafiel decretou a falência da Abreu & C.ª e José Abreu aguarda, ainda, a decisão sobre o recurso que interpôs para o Supremo Tribunal da Justiça. E a decisão, em seu entender, só pode ser uma: a não confirmação da sentença, por, segundo diz, não existirem condições objetivas para a falência. Ou seja: falta provar que a empresa é inviável, que não há mercado para os seus produtos, que é impossível a recuperação.

E, depois, como acredita que “o Estado é pessoa de bem”, confia que lhe seja paga a dívida que reafirma existir “e que ascende, atualmente, a 5,6 milhões de contos”. Se se lhe juntar o património da Abreu & Cª, “que inclui 550 mil metros quadrados de terrenos, avaliados, globalmente, em 20 milhões de contos, então a falência não tem razão de ser”.

Confiante, José de Abreu não desarma: “Não morrerei sem reabrir a Tabopan”!

(Esta peça, aqui transcrita, foi publicada na edição nr. 15 de AMARANTE MAGAZINE, em maio de 1996. José Abreu morreria seis anos depois, sem conseguir cumprir o seu sonho de reabrir a Abreu & C.ª e continuar a produção das suas “Tábuas Prensadas Nacionais”, que o mundo conhecia como TABOPAN).

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1 Comment
  1. kismaeleg 2 semanas atrás

    A história da TABOPAN não está por aqui toda contada. É um fim de história muito triste mas aqui se consegue provar que, facilmente, noutros tempos Portugal foi enorme e porque alguns empresários tinham um pensar bem menos egocêntrico que a maioria dos empresários de hoje.

    O nosso país só voltará a ser grande quando regressar o verdadeiro socialismo: o Estado tem de ser o «fiel de balança» da atividade comercial privada e, quando a atividade privada tiver problemas, todos nós – ou seja, o Estado – tem que se atravessar e tudo fazer para evitar falências de empresas.

    Não pode o Estado só se atravessar quando há gestão danosa bancária. Naquele tempo faltaram, na liderança nacional, políticos à altura.

    É, também, por causa de acontecimentos como este que defendo a Regionalização. Se o país tivesse divido em regiões administrativas tudo poderia ter sido diferente.

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