O Incómodo da Idade

A rua está mais viva e luminosa, cheia de luzes coloridas e música com a aproximação da quadra natalícia. As pessoas correm para lá e para cá numa azáfama sem fim, preocupadas com os preparativos para a época festiva.

Paralelamente a esta realidade, começa a nascer uma bem diferente  nas instalações dos hospitais, onde as paredes são de cores neutras, sem música, onde se ouvem os instrumentos de trabalho dos técnicos de saúde que por aí se encontram conjuntamente com  o arrastar dos chinelos de alguns que por aí deambulam, arrastando o peso da idade atrás de si, de olhar perdido e peso na alma, os quais aguardam pacientemente que seus familiares os venham buscar, já que tiveram alta médica. Será que estão atrasados? O que terá acontecido? Já passaram alguns dias, semanas ou até meses…

Esta é mais uma forma de violência da nossa sociedade “civilizada”, onde não existe espaço para aqueles que já deixaram de ser produtivos e que, aparentemente, só dão trabalho e canseira. E em especial nas épocas festivas, sejam elas Páscoa, Natal ou férias, os idosos são “largados” nos hospitais de forma desumana, onde passam a ser “casos sociais”. Da família muitas vezes não há resposta no telemóvel, ou ainda pior, descobre-se que os dados de identificação são falsos.

Infelizmente vivemos numa sociedade artificial e desumanizada, de valores questionáveis e pessoas descartáveis, onde o “ser velho” deixou de ser sinónimo de respeito e experiência e passou a ser visto como uma mercadoria em fim de prazo, tanto para a sociedade como, em particular, para muitas famílias, que cada vez são mais egoístas e individualistas. O desvalor do ser humano, o desamor, o egoísmo, a discriminação, o preconceito, a frieza afectiva, tem afastado o ser humano de si próprio e do outro, numa busca incessante pelo individualismo, levando-o a negligenciar a solidariedade, a fraternidade e o amor.

O envelhecimento populacional e a expectativa de vida elevada tem vindo a trazer grandes alterações não só a nível social como familiar, sendo que as famílias não estão preparadas para cuidar de seus idosos. Aliando este factor à desumanização crescente da sociedade, a falta de respeito e dignidade para com o idoso tem vindo a crescer assustadoramente, levando a uma  violência desmedida e maus tratos crescentes, seja por negligência, a nível da violência física, psicológica, financeira ou total abandono.

Todos nós, independentemente de nossa idade cronológica, somos seres mais ou menos vulneráveis, carentes, solitários e necessitados de respeito, dignidade, amor e qualidade de vida.

Talvez tenhamos de sair um pouco da nossa mesquinhez e reflectir um pouco mais,  olharmos para o nosso eu, para o ciclo da vida universal, revermo-nos e entrar em contato com o nosso processo de envelhecimento e finitude e, mais tarde, quando também sentirmos o peso da idade, continuarmos a ser acarinhados, respeitados e amados como seres humanos que somos … e viver a época natalícia ( e não só) com todo o significado que esta possui.

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